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Histórias daqueles que o vírus não pode parar (VI)

17/04/2020 08:00

Sílvia é farmacêutica e diretora técnica de uma farmácia em Lisboa. Quando chega a casa depois de uma maratona de 12 horas, continua a não poder relaxar. Telmo, sargento ajudante da GNR, não esconde o receio pelos riscos a que os militares estão expostos, e Clévio, investigador na Universidade do Algarve, conta como tudo mudou na sua vida. Ana Rita, veterinária, nunca abandonou os animais nem os cuidadores destes.


Telmo Jorge. Sargento Ajudante da GNR


“A nossa missão é fundamental” 


Há profissões que não permitem ficar em casa. Ser militar da GNR é uma delas e, nesta altura, a segurança das populações não pode ser descurada. Telmo Jorge é sargento ajudante, comandante do Posto Territorial de Merceana, que faz parte do destacamento de Alenquer. As rotinas continuam as mesmas, ainda que adaptadas à nova realidade.
Telmo Jorge explica que naquela zona o povoamento é muito disperso, o que obriga os militares “a um trabalho contínuo de passagem”. A população também é mais idosa e é a que tem maior risco no contacto com o novo vírus. No entanto, “de um modo geral, houve um grande acatamento por parte das populações”, diz.

Os militares têm cumprido o protocolo de segurança. “Começámos com o afastamento social, depois implementámos o uso das luvas, das viseiras, das máscaras, a permanente preocupação com as desinfeções dos materiais usados e das viaturas”, garante.

Mas o receio é uma realidade. “Ficámos receosos quando isto apareceu e pensamos sempre no risco de contágio. Temos consciência de que somos um público apetecível para este novo vírus, porque estamos na linha da frente”.
O posto onde trabalha conta com muitos militares de fora. Muitos dormem no posto, outros vão a casa. No entanto, não é um problema. “As pessoas adaptaram-se e perceberam – quer os militares quer as famílias – que nós éramos um grupo e precisávamos de fazer um esforço coletivo para nos protegermos”. A preocupação uns com os outros é de tal forma uma realidade que foi criado um grupo no WhatsApp onde todas as noites falam sobre o estado de saúde e esclarecem dúvidas.

Quanto a Telmo, o isolamento nunca foi uma possibilidade. Também a mulher é militar e trabalha na investigação de crimes de violência doméstica.

Em casa, onde estão os três filhos, todos os métodos de higiene e segurança são assegurados: “Estamos muito habituados a fazer parte da primeira linha e temos a resignação de que se tiver de acontece há de acontecer. E cá estaremos. É o nosso trabalho”.

Ana Rita Lopes. Médica veterinária


“Encaramos a profissão com espírito de missão”


Ana Rita regressa à clínica para mais um turno. Sabe que não encontrará a clínica de sempre. A parte dos seus colegas que, em sentido inverso, regressa a casa para descansar. Ou os que ainda nem sequer hoje chegaram. E também sabe, para já, não verá ou ouvirá o habitual rebuliço impaciente que, anos a fio, povoou aquela sala de espera. 

Ana Rita é médica veterinária. E apesar de todas as mudanças, repentinas e surpreendentes, jamais ponderou interromper este percurso. “Bem pelo contrário”, sublinha. “Presto cuidados de saúde e faço-o com todo o gosto. Os animais continuam a adoecer, a precisar do nosso apoio, de medicamentos e de alimentação. Não os podíamos abandonar ou aos seus cuidadores”, diz Ana Rita.

Existem riscos, é certo. E todos na clínica o sabem. Mas a equipa mantém-se firme na “missão” que escolheu. É, aliás, exatamente assim que Ana Rita o descreve. Sem mais:“Encaramos a nossa profissão com espírito de missão”. Com ou sem pandemia, não faz grande diferença.

Há, porém, cautelas a considerar. A clínica adotou os planos de contingência da Direção-Geral da Saúde e da Ordem dos Médicos Veterinários, o que tem permitido manter em funcionamento os serviços prioritários, sem prejuízo para animais, tutores e a própria equipa que dá corpo (e alma) à clínica. Ana Rita enumera medidas como a “redução do horário de abertura, o atendimento por marcação ou a suspensão dos serviços não prioritários, de estética, como banhos, tosquias ou corte de unhas”. Os animais e acompanhantes têm agora de aguardar à porta pela sua vez, pois as salas de espera não foram feitas para distanciar ninguém. “Atendemos sobretudo os animais que estão, de facto, doentes, as emergências e os que são portadores de doenças crónicas. Todas as situações que podem aguardar, preferimos adiar”, explica.

Os veterinários não abdicam do equipamento habitual: máscaras, luvas ou viseiras, entre outros. E muitos trabalham por equipas rotativas, garantindo, em caso de contágio de um elemento – e consequente quarentena do grupo –, que outra seja imediatamente acionada, permitindo manter a clínica de portas abertas. 

 

Clévio Nóbrega. Investigador da U. Algarve


“De um momento para o outro, tudo mudou”


Os investigadores do ensino superior não baixam os braços e o novo coronavírus veio mostrar o quão rápido estes profissionais se adaptam a novas realidades, oferecendo soluções viáveis para um problema à escala mundial. Clévio Nóbrega, professor universitário e coordenador do Centro de Investigação em Biomedicina, na Universidade do Algarve, viu as suas rotinas alteradas: “De um momento para o outro, tudo mudou”. 

Agora, as aulas são dadas através das plataformas digitais e o ensino é feito à distância. Apesar disso, Clévio Nóbrega continua a deslocar-se ao centro de investigação que coordena, uma vez que é ali que são feitas as análises de despiste à covid-19. “Tento ir o mínimo de vezes possível. Na semana passada, por exemplo, tive de ir cinco ou seis vezes”, contou. E esta sexta-feira foi também dia de Clévio se juntar à equipa de investigadores. 

O espaço onde agora chegam as zaragatoas para análise era antes um laboratório de investigação na área de oncologia, que foi entretanto adaptado pelos investigadores. Estes profissionais trabalham em regime de voluntariado, conta Clévio Nóbrega. Além dos contratos que têm com a universidade ou das bolsas de investigação, nada mais é pago aos profissionais que, entre equipas rotativas, trabalham de segunda a domingo com uma média de 300 amostras por dia. É este centro, aliás, que está a fazer as análises das amostras dos utentes e funcionários dos lares do Algarve. “As pessoas são voluntárias com o espírito de ajudar, não pelo dinheiro”, explicou o professor, acrescentando que “algumas [o fazem] até para sair um bocado de casa”. 

O investigador admite que tem “talvez cuidados a mais durante o dia”. E isso justifica-se também pelo trabalho que desenvolve: “Talvez esteja mais ciente do quão fácil é a infeção espalhar-se”. Por isso, quando está no laboratório, o equipamento de proteção é “dos pés à cabeça” e as conversas acontecem com distância de segurança: “E sempre que chego a casa, os sapatos ficam à porta, tento logo tomar banho e a roupa vai diretamente para a máquina de lavar”. Clévio Nóbrega diz que talvez esteja a exagerar mas, mais do que ficar infetado, quer evitar infetar outras pessoas. 

 

Sílvia Cid. Diretora técnica de farmácia


“Às vezes sinto que precisava de um clone”


Sílvia Cid está na linha da frente. Ou melhor, em várias linhas da frente. As de casa e as da farmácia que dirige, em Alvalade, e onde passa agora 12 horas por dia. “Apesar de o horário ser das 9h às 19h, nos últimos tempos nunca se consegue despachar a fila de utentes antes das 20h”. Depois, ainda há mais duas horas para o resto: “As encomendas diárias de medicamentos, avaliar os stocks e, muitas vezes, ainda processar encomendas feitas por telefone ou email”.
Ao contrário de muitos maus exemplos que enchem páginas de jornais, na Farmácia Líbia, conta, os preços não se alteraram. “Tenho utentes que, quando lhes vou vender um álcool a 70% e digo o preço, me respondem: ‘Só isso, então quero dez frascos, doutora’”. E também já lhe aconteceu saber que as luvas que a farmácia continua a vender aos preços de sempre são depois vendidas noutro local por valores bem mais elevados.

As histórias são muitas, mas esta profissional continua a acreditar que “os verdadeiros farmacêuticos respeitam os utentes”. 

A sua entrega é total no trabalho e agora, por falta de tempo e de apoio familiar, está já a receber na farmácia as compras do dia-a-dia. Aquelas que já não vai a tempo de fazer quando sai do trabalho.

Quando chega a casa, Sílvia continua na linha da frente, ou melhor, nas suas outras linhas da frente: cuidar da filha, de 12 anos, prestar todos os cuidados ao marido, que tem um tumor cerebral (glioblastoma grau iv), e ainda acompanhar o pai, que esteve internado até janeiro no Hospital de Santa Maria com uma encefalite herpética.

As medidas adotadas na sua farmácia, assim como no seu dia-a-dia, são muitas, até porque tem perfeita noção das consequências que este vírus teria nos que lhe são mais próximos. E, tudo somado, contribui ainda mais para a exaustão. 

“O ritmo que se vive numa farmácia é alucinante. Às vezes estou a receber uma chamada enquanto atendo um utente na fila, que nem lhe vejo o fim, e ao mesmo tempo estou a pedir à nossa colaboradora da limpeza para desinfetar o postigo”, conta Sílvia ao i, confessando que muitas vezes sente que “precisava de um clone”.
 

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