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Histórias daqueles que o vírus não pode parar (V)

16/04/2020 08:00

A pandemia não para Jason, que faz do camião a sua casa. Este motorista de pesados conta como o trânsito também está mais calmo em França ou na Alemanha. Maria João explica como o trabalho mudou no Hospital de Santo António e Maria defende que as empregadas de limpeza também estão na linha da frente. Já Pedro mostra a importância dos contabilistas num momento em que as empresas enfrentam dificuldades. 

Jason Florentino. Motorista de mercadorias


“O medo é chegar a casa sem saber se estou infetado”

 Há três anos que Jason Florentino divide o tempo entre Portugal e o estrangeiro. É motorista de pesados de mercadorias e se, para muitos, o conforto do sofá passou a ser uma realidade, para Jason é no seu camião que muitas vezes encontra o conforto. O trabalho não para. Atualmente transporta carga geral – peças de automóveis, material eletrónico, ferragens, cortiça, de tudo um pouco. Para ele não há horários e a vida é definida em função da data da entrega da mercadoria, que tanto pode acontecer de dia como de noite. O destino final é sempre a Alemanha, mas também faz cargas e descargas em França e Espanha.

Nesta altura de pandemia, a proteção é o mais importante. “Tenho evitado estar em contacto com outras pessoas e passo a maior parte do tempo dentro do camião”. Sempre que sai, o procedimento é o mesmo: lava as mãos e depois passa-lhes álcool ou gel desinfetante. Não quer correr riscos. “Mantenho a cabina sempre limpa e nas zonas de maior contacto também passo álcool”, garante.

Mas o inimigo é invisível e, como todo o cuidado é pouco, o medo faz parte do seu dia-a-dia. “O meu maior medo é vir para casa sem saber se estou infetado ou não”. Esta dúvida leva Jason a tomar outras medidas: “Na penúltima viagem só fui para casa no dia seguinte. Não me sentia bem e não queria arriscar”, confessa.

Como “viajante”, Jason traz-nos uma visão do que se passa noutros países. Tal como em Portugal, também o trânsito em França ou na Alemanha está muito mais calmo e os estabelecimentos estão quase todos fechados, embora alguns tenham começado a reabrir portas nos últimos tempos. O que faz mais falta são os restaurantes. “A maior parte das vezes faço as refeições no camião, mas nem todos os dias tenho tempo ou condições atmosféricas favoráveis para o fazer, e sem restaurantes é complicado”, diz. 

Quanto aos produtos que transporta, Jason confessa que se nota alguma falta de carga no setor geral mas, no que diz respeito à carga frigorífica, essa não para. “Tem havido bastante movimento nesse setor”.

Maria João Gonçalves. Médica especialista em Infecciologia


“Estamos a viver isto com alguma serenidade”

Desde os primeiros dias da pandemia que o serviço de infecciologia do Hospital de Santo António, no Porto, tinha sido reestruturado. No início, Maria João Gonçalves foi trabalhar para “o departamento dos doentes de infecciologia, digamos assim, normais, com VIH, pneumonias, meningites, etc.”. Há uma semana, contudo, a médica especialista em infecciologia foi destacada para a unidade que trata os doentes infetados com covid-19, “por haver mais necessidade de médicos para dar apoio ao internamento”, conta. O que mudou? Primeiro, a distribuição. “Antes passava 80% do meu tempo a ver doentes com patologia infecciosa crónica e, neste momento, 80% do meu tempo ou mais é dedicado a ver doentes com patologia aguda”, explica Maria João. Agora, o acompanhamento aos doentes crónicos é feito maioritariamente à distância. “O desafio para mim no dia-a-dia é conciliar tudo: continuar a atividade que fazia habitualmente na consulta, manter os doentes controlados e corresponder às expectativas que eles têm”, diz.

Na sua nova unidade, os médicos trabalham em equipas tendencialmente fixas por turnos. “Acabo por fazer sempre turnos de 12 horas, das 8h30 da manhã às 20h30. São cerca de três a quatro turnos por semana, sendo o quarto a acontecer sempre em situação extraordinária, ao fim de semana”. O rígido protocolo de segurança para quem trabalha com doentes com covid-19 é outro desafio diário. Os profissionais demoram cerca de 15 minutos a equipar-se e, já com os doentes, os cuidados de desinfeção também são acrescidos. “São normas muito rígidas e que implicam que a pessoa esteja muito concentrada para não quebrar o protocolo e cumprir sempre os passos de forma sequencial. Por isso, acaba por demorar muito a ver cada um destes doentes. Se eu vir seis ou sete doentes num dia, isso ocupa-me praticamente o dia todo”.

Ainda assim, a médica afirma que não se tem deparado com equipas em burnout e que todos os profissionais de saúde com quem trabalha, desde médicos a auxiliares, estão motivados para continuarem a prestar os melhores cuidados possíveis. “O meu maior receio como médica é que em Portugal se chegue a uma situação como vimos noutros países, em que houve necessidade de negar cuidados a algumas pessoas por não haver capacidade de resposta do SNS”.

A par disto, a incerteza de quanto tempo irá esta fase durar assume um papel dominante na hora de pensar no futuro. “Não há perspetivas e para nós, profissionais de saúde, é difícil gerir porque tudo na nossa vida está em regime de exceção atualmente.

Em casa, a vida familiar em regime de exceção traz também uma série de obstáculos. Maria João, que tem dois filhos de seis e três anos, afirma que o marido tem arcado com o maior peso no último mês. Para conseguir cuidar dos filhos e trabalhar, o marido desta médica foi obrigado a arranjar estratégias. “Nos dias em que não estou a trabalhar fico eu com as crianças e ele tenta trabalhar. Nos outros dias acorda extremamente cedo, às 5h30, 6h00, para pelo menos durante a manhã trabalhar 2h30 de forma seguida até eles acordarem”. O apoio da Segurança Social não está disponível para pais que se encontrem em regime teletrabalho, e Maria João sente que a resposta do Estado “tem sido francamente deficitária” no apoio a estas situações. “No caso do meu marido temos a sorte de ele estar numa empresa que realmente compreende isto, o apoia e não cobra. Mas imagino outras pessoas que estejam em situações mais precárias que até possam ser despedidas posteriormente”, considera.

De resto, pretendem continuar todos juntos nos próximos tempos. No início, Maria João ainda tentou afastar-se da família nuclear - o marido e os dois filhos. “Só consegui durante cinco dias”, explica. Depois de pesar os prós e os contras na balança, e visto que nenhum dos quatro tem comorbilidades, decidiram que faria mais sentido continuar em casa. “Visto que isto vai durar meses, pensei na implicação que isto teria para os meus filhos do ponto de vista emocional (…). Achámos que era mais prejudicial eu estar longe deles do que com eles”.


Maria Ferreira. Empregada de Limpeza


“Na guerra somos todos precisos”

Nos hospitais, não são apenas os médicos e os enfermeiros que estão na linha da frente no combate ao novo coronavírus. As empregadas de limpeza têm também um papel essencial neste contexto e uma palavra a dizer: “Na guerra, somos todos iguais”. A frase é de Maria, empregada de limpeza no Hospital Lusíadas. Os quartos dos doentes não se limpam por teletrabalho e, para Maria, as rotinas são exatamente as mesmas que tinha há dois meses ou há três anos, altura em que começou a trabalhar naquele hospital. 

Acorda de madrugada, apanha um autocarro até à Pontinha e, antes das sete da manhã, senta-se no banco da paragem enquanto espera por outro autocarro. Desde as quatro da manhã passam dezenas de empregadas de limpeza só por aquela paragem. 

Agora, o Hospital Lusíadas tem menos serviços abertos, o que significa que Maria também tem menos espaços para limpar, mas o tempo que demora agora em cada tarefa aumentou. “Temos de vestir os fatos como fazem os médicos e os enfermeiros”, explicou Maria, acrescentando que a proteção individual – luvas, máscara, fato, proteção de botas – a deixa mais descansada. Além deste material de proteção, também os produtos de limpeza são agora diferentes e é preciso ter atenção a todos os cantos. 

“Tenho sempre medo, claro, quando saio de casa e quando vou para casa, porque não sabemos se não vamos levar o vírus para casa ou para o trabalho”, explicou. “Mas é este o meu trabalho e é preciso que alguém o faça”. Maria conhece outras empregadas de limpeza que estão também a trabalhar neste momento, apesar de algumas estarem em casa ou porque estão a tratar dos filhos, ou porque os escritórios onde faziam limpezas fecharam temporariamente.
Por agora, Maria vai para o trabalho com a convicção de que tudo vai voltar ao normal rapidamente. “O que é preciso sempre, sempre é ter fé. É preciso ter fé e acreditar que vai passar. Sem isso, é muito difícil trabalhar”.

Pedro Pinelo. Consultor e contabilista

“Somos os médicos das empresas”

O trabalho de consultor e de contabilista é feito à secretária, mas isso não é sinónimo de que se possa estar em casa ou em teletrabalho. E, a partir do momento em que foi decretado o estado de emergência no país, este setor viu aumentado o seu volume de trabalho. “Neste momento, o nosso volume de trabalho mais do que duplicou”, explicou Pedro Pinelo, que continua a ir todos os dias para o seu escritório. Este consultor e contabilista de Bragança explicou que o teletrabalho torna muito mais difícil a gestão daquilo que tem para fazer, já que há sempre documentos que não chegam por via digital. 

E a pandemia trouxe novas regras até para os papéis que chegam ao escritório, já que também estes precisam de ficar em quarentena: “O correio e os documentos que chegam ficam sempre no hall de entrada durante 48 horas”, explicou. Além disso, as seis pessoas que trabalham naquele escritório estão afastadas umas das outras “pelo menos três metros”. “No fundo, estamos de quarentena entre trabalho e casa”. Já outras deslocações estão agora suspensas. E os contactos com os clientes são feitos em suporte digital. 

Para a maioria das pessoas, conta Pedro Pinelo, o trabalho de contabilista está na sombra, mas “se os contabilistas pararem, o país para também, porque nós somos a articulação entre o Estado e as empresas”. “Somos os médicos das empresas”, acrescenta, já que são estes profissionais que dão as diretrizes aos donos das empresas. Como exemplo, Pedro Pinelo fala do momento em que foi declarado o estado de emergência e foram decretadas medidas especificas para as empresas – uma portaria que foi, aliás, alterada quatro vezes. “Os donos das empresas percebem do seu negócio e, quando isto começou, perguntaram: ‘O que vou fazer à minha empresa?’ E temos de explicar todas as medidas, o que podem ou não fazer, além de que continuamos a fazer o trabalho normal de processar IVA, declarações fiscais”, disse.

Entre medidas que é necessário explicar às empresas e a necessidade de dar continuidade ao trabalho que sempre se fez, Pedro Pinelo conta que, quando fecha a porta do escritório, não sai do trabalho. “Mesmo em casa, é preciso estudar e conhecer”. 

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