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Sarah Maldoror. Cineasta da negritude, guerrilheira do cinema africano

Sarah Maldoror. Cineasta da negritude, guerrilheira do cinema africano

Cláudia Sobral 14/04/2020 20:07

Foi uma das primeiras mulheres a fazer filmes em África. O seu cinema, usou-o como gesto emancipatório, como arma anticolonialista. A cineasta que roubou o nome a Lautréamont morreu vítima da covid-19. Tinha 90 anos.

À sua obra maior, Sambizanga, colocou-a Michael Kerbel numa crítica publicada à época no Village Voice num dos lugares mais altos que poderá ocupar o cinema enquanto arma. A partir da luta pela libertação de Angola, Sarah Maldoror retratava a rebelião angolana dos primeiros anos da década de 1960. De Sambizanga, escrevia o crítico nesse texto ter a mesma relevância política que ao soviético O Couraçado Potemkine, de Sergei Eisentein. E debruçava-se então sobre a sua mensagem, que via como uma mensagem sobretudo marxista: os inimigos não eram “homens brancos, nem sequer os portugueses, mas os ricos, que se tornam mais ricos mantendo os pobres em servidão”.

E se é verdade que Sambizanga era o nome de um bairro de classe operária, nesse tempo despercebido não passava também o facto de acolher uma das prisões para as quais o poder colonial português atirou e torturou e matou tantos revolucionários angolanos. Até ao dia em que, em 1961, foi alvo de um ataque por parte do MPLA.

Rodado em sete semanas na República Democrática do Congo uma década depois do ano em que se passa a ação — esse ano de 1961, justamente — Sambizanga (filme de 1972) só chegaria a Portugal em outubro de 1974, meses depois da revolução. Adaptado de A vida verdadeira de Domingos Xavier, de José Luandino Vieira, acompanha a luta pela libertação dos militantes do MPLA, que tinha entre os seus dirigentes Mário Coelho Pinto de Andrade, com quem a cineasta nascida em França era casada.

Mas não é uma história de homens esta. Ou não necessariamente. Sambizanga começa com a prisão do revolucionário angolano Domingos Xavier pela polícia política portuguesa, que o leva para essa mesma prisão, mas a personagem que acompanha será outra: Maria, a sua mulher (interpretada pela economista cabo-verdiana Elisa Andrade, parte de um elenco composto sobretudo por atores não profissionais), que o procura de prisão em prisão, tentando descobrir o que lhe terá sucedido.

Era a segunda longa-metragem de Sarah Maldoror, estreada no ano em que a cineasta completava 43 anos. Antes disso estreara, em 1970, Des fusils pour Banta e duas curtas-metragens. Foi uma das primeiras mulheres realizadoras do cinema africano — e às mulheres africanas dedicou boa parte da sua obra, orientada pelo seu forte engajamento político. Depois de Sambizanga, que ficaria como a obra maior do seu legado, e até 2009, ano de estreia do documentário Eia pour Césaire, produziu uma série de documentários, curtas, telefilmes, realizou três episódios da série documental Crónicas da França, da autoria de Fred Tavano. 

Foi esse o país em que nasceu, em 1929, em Condom, no sudoeste francês, filha de uma francesa e de um guadalupano. Batizaram-na de Sarah Ducados, mas desse apelido abdicaria para adotar o de ;Maldoror, em homenagem ao poeta uruguaio surrealista Lautréamont, autor de Os Cantos de Maldoror (originalmente publicado entre 1868-1869). Antes de cineasta, foi poeta e, antes de poeta (na sua busca por uma forma de expressão de uma identidade alternativa tornou-se n um dos principais expoentes do movimento da negritude em França), fez-se ao teatro. 

Fundou, ainda em 1956, a Les Griots, “primeira companhia composta por atores africanos e afro-caribenhos, para pôr fim aos papéis de serva e tornar conhecidos artistas e escritores negros”, como a recordaram as suas filhas na nota em que deram na segunda-feira conta da sua morte. “Essa dimensão teatral e o seu desejo de transmissão de outras culturas constituirão o foco da sua conceção da criação”. Primeiro no teatro, depois no cinema (foi também no ano de 1961 que se mudou para Moscovo para estudar cinema, onde conheceu o realizador senegalês Ousmane Sembène). E no cinema, seria ela a, nas palavras da norte-americana Beti Ellerson, fundadora do Centre for the Study and Research of African Women in Cinema, “abriu caminho para que fosse mostrada a guerra de libertação de Angola pela perspetiva da mulher”. 

Na data da sua morte, nesta segunda-feira, aos 90 anos, vítima de complicações causadas pela covid-19, a totalidade da sua obra permanece relativamente desconhecida, apesar de vir sendo programada em festivais e museus um pouco por toda a parte. Ainda no outono passado, três das suas curtas foram exibidas em Portugal, no Lisbon & Estoril Film Festival, como parte do ciclo de programação Looking for Homeland. Obras não tão conhecidas como Sambizanga, Monangambée ou A Batalha de Argel, todas elas obras de forte pendor político, anticolonialistas. Numa retrospetiva que dedicou à sua obra, o Reina Sofia de Madrid recordava-a como “uma cineasta vital, cujo trabalho permanece obscuro, apesar do seu enorme compromisso com o movimento de descolonização e as lutas pela diversidade social a partir de 1960”.

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