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“Havia quem deitasse o lixo para o chão para termos trabalho. Agora agradecem-nos da janela”

“Havia quem deitasse o lixo para o chão para termos trabalho. Agora agradecem-nos da janela”

Carlos Diogo Santos 14/04/2020 08:19

O i acompanhou cantoneiros pelas ruas de uma das freguesias do centro da capital. João Valente, varredor, conta que desde que a pandemia chegou, na Rua Morais Soares já só enche dois caixotes e meio ou três de lixo – quando antes enchia sempre quatro ou cinco. Manuel Martins também sente menos lixo quando varre as ruas, mas Cidália garante que junto aos ecopontos há cada vez mais. E sabe bem porquê.

João Valente já descobriu como manter o sogro em casa, mas sabe que os conselhos que vai dando aos mais velhos quando está a varrer as ruas junto ao Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, caem quase sempre em saco roto. “O meu sogro saía e justificava sempre que tinha de morrer de qualquer maneira, que só lhe custava não poder ser enterrado na terra. Eu agora digo-lhe que, com isto, se morrer vai ter de ser cremado, e isso ele não quer”, diz entre risos o funcionário de 62 anos da Junta de Freguesia da Penha de França, alertando que por estes dias tem visto muitos idosos nas ruas: “Quando lhes dou um conselho, a maioria diz-me que já cá não anda a fazer nada”.

A vida do senhor Valente, como é conhecido por todos, mudou muito nas últimas semanas, mas ele e as restantes dezenas de cantoneiros da junta têm de continuar a sair às ruas seis dias por semana para garantir que a cidade não se enche de lixo. Ao lado do carrinho dos caixotes e com a vassoura e a pá na mão, o homem de ar simpático que chegou a Lisboa vindo de Cinfães do Douro em 1989 garante, porém, que nunca tinha visto o seu trabalho tão valorizado como agora. “Havia quem deitasse o lixo para o chão e, ao ser repreendido, respondesse que se não fosse assim, não teríamos trabalho. Hoje, desde para aí há 15 dias, agradecem o nosso trabalho da janela”, conta, lembrando que a primeira vez que isso lhe aconteceu estava a limpar a Rua Jacinto Nunes: “Eu nem estava a perceber quando começaram a agradecer-me de uma janela. Nem queria acreditar”.

Manuel Martins, 59 anos, também varredor das ruas de Lisboa, bem sabe o que isso é: “Várias pessoas são encantadoras, mas outras só criticam, passam por nós e dizem que não limpamos nada”. Depois de uma experiência fracassada em França, onde diz ter sido “quase um escravo”, voltou para Portugal para trabalhar como pedreiro, ofício que ainda hoje lhe arranca um sorriso. Pegou na vassoura e na pá há cinco anos, depois de a última grande crise lhe ter tirado o trabalho de que mais gostava. Agora nem quer pensar nas consequências do novo coronavírus para a economia, e o seu encolher de ombros quando se aborda o tema é um sinal claro de que prefere passar à frente. Enquanto simula que está a varrer o pequeno largo onde fica a Direção Nacional da PSP para uma fotografia, surge um outro sorriso ao falar da Lisboa que encontrou aos 16 anos, vindo de Vila Real: “Gostava muito da zona da Estrela, daquele jardim, aquilo parecia o centro”. Mas Manuel Martins tem noção de que aquela outra Lisboa não “era nem metade do que é hoje”. “Mesmo em questão de lixo, não tem nada a ver. Quando há movimento, hoje, são carradas de lixo. Agora é que acalmou”, recorda.

João Valente, que no último sábado de manhã estava a cerca de 600 metros de Manuel Martins, a varrer junto às bombas da Praça Paiva Couceiro, dá mesmo uma imagem clara do que mudou: “Na Rua Morais Soares, que demoramos um dia a varrer, antes enchíamos quatro ou cinco contentores com o lixo; hoje enchemos dois e meio, três. E não é que as pessoas estejam mais limpas, é porque não anda quase ninguém nas ruas”.

Não muito longe de ambos, no posto de limpeza da Junta de Freguesia da Penha de França, na Avenida Coronel Eduardo Galhardo, por baixo do viaduto da General Roçadas, está Ana Pais, conhecida por todos como Cidália. Aquele é o local onde, todos os dias, os cantoneiros – sejam os que varrem, os que lavam ou os que cortam a relva – se reúnem às 8h e às 13h para saber o que vão fazer e onde. Já passa das 10h30 e Cidália acabou de comer a sua “bucha” no refeitório e prepara-se para pegar no volante de uma das carrinhas de recolha de lixo – quando há jornadas contínuas, como sábados, domingos e feriados, são sempre servidas sandes de carne assada ou bifanas a meio da manhã. Tal como nas refeições principais, ali, os trabalhadores pagam um valor mais em conta.

Com 40 anos, Cidália já foi servente de pedreiro e motorista na Junta de Freguesia de Arroios, também em Lisboa. Agora faz um pouco de tudo: “Se levo esta carrinha, tenho de ajudar quem anda comigo na recolha do lixo junto aos ecopontos. Se andar com aquela, tenho de distribuir o pessoal pelas várias zonas”.

Junto aos ecopontos, Cidália não sente a diminuição do lixo que os seus colegas que varrem ruas descrevem. Bem pelo contrário: “Às vezes acaba por haver mais lixo, sabe? As pessoas, agora, estão em casa e aproveitam para fazer limpezas e remodelações. E como sabem que nós aparecemos já nem comunicam à câmara quando põem um eletrodoméstico na rua...”, explica, assegurando que tanto ela como os colegas têm tido agora cuidados acrescidos quando recolhem o lixo.

A junta, por exemplo, disponibiliza máscaras aos cantoneiros, ainda que Manuel Martins não se sinta muito confortável com esta nova obrigação e João Valente diga que usa apenas por obrigação. uma vez que não se sente mais protegido por isso. “Nós já estamos vacinados pelo lixo, não é que me sinta mais protegido desde que uso a máscara”, desabafa, descrevendo todas as precauções que tem tido: “Agora até tenho um frasquinho de desinfetante no meu carro...”

Tanto um como o outro sabem que não podem relaxar. E, além disso, convivem diariamente com o medo de não serem os únicos nas suas casas a ter de trabalhar. A mulher de Manuel Martins trabalha nas limpezas de um escritório de advogados e serve almoços numa escola de Campo de Ourique a crianças carenciadas. A mulher do senhor Valente é doméstica em casa de um casal de idosos que vive na Almirante Reis, que não conseguem fazer a vida do dia-a-dia sem ela.

 

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