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As musas confusas no cérebro de Patrícia Portela

As musas confusas no cérebro de Patrícia Portela

Rita Homem de Mello 12/04/2020 13:24

Um diário de leituras de Rita Homem de Mello, como música de companhia, carne cosendo-se de ressonâncias contra o confinamento, e que começa aqui, pelo livro "Odília ou a História das Musas Confusas do Cérebro" de Patrícia Portela

 

Algumas mulheres e algumas musas pensam da mesma maneira. Amam, revoltam-se e odeiam da mesma maneira. Isso é certo. O tempo, a espera e as quedas é que não as brindam do mesmo modo, nem com a mesma violência.

Nem de propósito este livro chega como doce papo de anjo em tempos tão ásperos e a seguir a esta queda valente. Ninguém gosta de se magoar “cair não é uma coisa que se quer que aconteça, mas cair e conhecer alguém pode ser”, diz-nos Patrícia Portela.

Neste tempo de clausura e renúncia ao Outro, não é de todo fácil conhecer alguma alminha nova. Ninguém sai á rua. Se antes ninguém via ninguém, agora ninguém encontra mais ninguém. Agora, a parte boa, é que de alguma maneira podemos mergulhar numa ou noutra alma mais a fundo. No meu caso, é mais dar-me a conhecer através da minha poesia, já que por natureza sempre me atraíram as auras misteriosas de raros unicórnios e os segredos das lagoas e dos bosques. Ás tantas, ainda será melhor assim. É preferível darmo-nos a conhecer, a deleitar, oferecermo-nos, do que estarmos constantemente a tropeçar em almas que afinal nem no inferno arderiam.

Duas enriquecedoras mensagens neste Durante inicial: cair e conhecer melhor alguém/ esperar é como acontecer. A espera de tempos melhores, a espera do amor, da liberdade, a espera do bom que há de vir. Este tempo de espera, quase eucarístico, de quaresma e premonição como todo o livro, tem laivos proféticos de tão bem que se molda aos dias de tortura que hoje nos assombram.

Quero muito num futuro próximo poder dizer que esperei sim, mas para saborear tempos melhores, o amor, a cura, a esperança, a alegria. Voltar às ruas, aos jardins, ao cinema. Ir ao teatro, às quintas de leitura, às marchas populares de Lisboa. Nunca fui aos Santos. Queria ter ido este ano. Queria ter feito tanta coisa. Ainda quero fazer. Quero ser mais livre que nunca. Sem medo nem máscara. Sem freio.

São altamente instantâneos os efeitos terapêuticos e ayurvedicos deste livro. Não só seu pelo elevado teor proteico energizante, como também pelo poder revigorante dos sais minerais invisíveis nas sombras das musas, das Deusas e das suas fantasias.

Estamos realmente “entre tempos” e só as palavras se movimentam. Tal e qual. Felizmente não estão de quarentena e para já, só elas curam e experimentam novos lugares, novos tempos.

Só elas tropeçam em Penélopes, em poetas, em amores eternos.

Comprei este livro na Poesia Incompleta e sempre desconfiei que era lá o Olimpo das Musas, só ainda não tinha conhecido nenhuma de verdade.

Como Odília, também me estatelei muitíssimas vezes, mas não tropecei nunca em cima de ninguém sentado em frente ao mar. Não encontrei nenhum poeta com um cão.

Odília está para a solidão, como Hildegarda de Bingen (assim me sinto em Atei terras do Marão) está para o seu exílio. Será que irei ficar 1003 anos á espera do “beijo do Príncipe que é todo meu?” E se ficar? Não vou conseguir atravessar uma porta com as 15550 gramas a mais.  O preço do exilio não é só o confinamento, mas acima de tudo, as avalanches calóricas. Mas deste mal padecerão todos os Portugueses. O segredo é perceber que não engordamos 5 quilos, apenas os outros também não emagreceram os mesmos 5 quilos.

O poeta a tirar pedrinhas ao mar; a transformação das letras de Odília em pedacinhos de cristais; o poema emergido do grito dela; a primeira vez que o poeta e a musa fazem amor; a carta de Penélope ao seu Ulisses; as meadas desfeitas são imagens tão tão bonitas.

Em miúda ajudava a minha Avó Nina a dobar as meadas de algodão para o crochet, mas como era muito cansativo ficar horas com os antebraços especados no ar com o fio a roçar a pele, a minha Avó punha as meadas nas costas das cadeiras de pau da cozinha e eu ficava a dobá-las lá enquanto Ela fazia as paciências e triturava portugueses suaves em marcha e depois escancarava  as janelas. Adorava quando os morcegos entravam pelas janelas e obrigavam-nos a apagar as luzes e tapar as cabeças. Se o Outeiro, nossa casa, já era assustador de luzes acesas, ás escuras era um afterhours em ácidos, mas divertido na maioria das vezes. Ainda estridentes nos meus ouvidos,os gritos pelo corredor. Mais afiados que lâminas de barbear urubus e quando algum se se atrevia a galopar quarto adentro eu enterrava-me na cama. O excitamento raras vezes me deixava adormecer sossegada, mesmo quando as criaturas despareciam. Mas ainda assim eu gostava. Era um delírio bom.

Acabei de me dar conta que afinal podia ter sido uma das Moiras a tecer o destino de alguns homens, a descobrir o Teceu querido, imaginário dos meus sonhos, mas a verdade é que ainda não consegui encontrar o fio de Ariana, nem sei se algum dia o decifrarei. E como seria se o tivesse encontrado? Mais livre? Mais leve?

Muito poéticas estas musas Portelianas. Confesso que me fascinam mais as mais confusas, se bem que também me enquadro nas mais normais, mas apenas em dias de segunda-feira!

Muitas vezes me sinto como as musas confusas de tanto colar nos meus os dias bolorentos dos outros, as vaidades dos outros, os preciosismos, mil coisas e ismos que nada me acrescentam. Sonho um dia descolar-me de todos estes ismos. E tantas outras muitas vezes como Elas me sinto “visível e invisível ao mesmo tempo”. Sabias que eu, como estas meninas preciso de uma orientação? Para tatear o meu próprio atlas interior. A minha caverna. A orientação que eu sinto que preciso na maioria das vezes são livros como este. Saídos do meu íntimo celestial. São as Odílias e todos os poemas que me faltam sorver. E aí está o Changuito na torcida. Para me ajudar a separar o trigo do joio.

O que mais me surpreendeu neste livro? Saber que” todas as ninfas são analfabetas, não sabem ler nem escrever e é por isso que precisam dos poetas, e os perseguem inconscientemente, constantemente” e que “Todos os poetas devem apaixonar-se perdidamente e morrer de amores pelas suas musas, mas o contrário NUNCA, NUNCA, NUNCA pode acontecer. O amor deve manter-se impossível e consequentemente eterno.” O eterno nunca se desvanece. O impossível também não.

No meio destes segredos o mais admirável é que nem os poetas nem as musas têm ao certo a noção da sua consciência nem da sua maldição. Como nós mortais. Felizmente também não temos, caso contrário, a vida não teria graça.

Muito simbólica toda a numerologia da história, a sua sequencialidade, as pontes entre o real e o onírico e principalmente a tríplice aliança: Musas/ Poeta/ Deusas.

Ontem preferia ter tropeçado violentamente nas rochas onde o poeta se soerguia a lançar as pedrinhas ao mar. Ele ter-me-ia amparado. Eu teria ficado perdida de amores. Talvez não me tivesse magoado menos, nunca saberei, mas teria conhecido o primeiro Zeus disfarçado de Homem.

Acreditará a escritora que foram os poetas a criar as musas e que os Deuses não gostam delas? Ou que as poetas que ainda não tropeçaram em Teseu, algum dia vão encontrar o fio de Ariadne?

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