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Cinema. A ruína do templo face ao fenómeno da digitalização

Cinema. A ruína do templo face ao fenómeno da digitalização

Diogo Vaz Pinto 09/04/2020 23:24

Com o encerramento das salas de cinema por todo o mundo, o cancelamento dos festivais, o adiamento das estreias e das filmagens, a própria força que o streaming está a ganhar põe em risco o regresso das audiências quando o vírus for vencido.

 

Em tempos, os fiéis reuniam-se no templo e era ali, na prática do culto, na dramatização da busca espiritual, que se organizava o centro da vida comunitária. Ainda não havia o cinema, mas os rudimentos estavam já na antecipação dessa forma de sonho que iria realizar-se através de um espectáculo omnívoro, que nasceu já com a memória de outras artes, aproveitando-se de um trabalho e técnica apurados ao longo de séculos. O cinema viria a desferir um rude golpe em tantas formas de culto. Nada estava mais próximo dessa espécie de buraco da fechadura com vista para o olho que tudo vê e tudo cria, e o espanto diante do universo calafetado numa grande sala escura foi uma experiência que deu lugar a uma fé que dispensava a teologia e os excessos de solenidade. O cinema cumpriu também o papel que têm hoje os telejornais. Foi o centro de irradiação de uma cultura comum, de uma noção do mundo, e, nesse aspecto, a sua utilidade para o contágio da propaganda é lendária. Mas o cinema, hoje, está a perder o seu efeito de congregação comunitária, e, em breve, a sala de cinema, essa nave funcionando com o combustível do projector e da imaginação dos cineastas, ficará para sempre encalhada, como uma ruína de um tempo em que as pessoas tinham o hábito de sonhar acordadas e em conjunto. Há ainda uma grande incerteza em relação ao impacto que a actual pandemia do coronavírus vai ter na indústria do audiovisual, mas tudo leva a crer que a emergência sanitária irá precipitar ainda mais a digitalização dos conteúdos, de tal modo que, quando as salas reabrirem poderá haver muito mais gente que se rendeu à comodidade de ver o filme no pequeno ecrã, talvez até no telemóvel. Estamos só a chegar ao fim do prelúdio de uma crise que pode revelar-se catastrófica para a vida cultural, e que poderá ter um efeito desagregador da ideia do cinema, com a pulverização absoluta dos impulsos, ao ponto de se sacrificar de vez à necessidade de distanciamento social o desejo de partilhar uma experiência do “outro mundo”. Os cinéfilos poderão contentar-se com essas brechas que vão abrindo num estado de clandestinidade em que desaparecem para dentro dos seus pequenos ecrãs sustidos entre as palmas das mãos, como se rezassem a um deus exilado, e que prefere aproximar-se dos seus num murmúrio. Isto significará o fim do Templo. Neste primeiro mês de um estado de excepção à escala global, a indústria do cinema foi das mais penalizadas pelas medidas de contenção do vírus, e o cancelamento de festivais, como o de Sundance e Cannes, significa que, para lá da componente negocial, a defesa dos valores artísticos está seriamente posta em causa. De resto, estes festivais recusaram-se terminantemente a conceber versões para a internet, cientes de que, neste caso, o grande perigo existencial para esta forma de arte é admitir que a sua escala possa ser reduzida e atomizada. O cinema depende de uma audiência que busque o encontro, a elaboração de um fôlego comum diante de uma visão desafiadora, de uma experiência emocional transbordante. Depois de algumas estrelas de Hollywood, e não só, terem anunciado que haviam testado positivo para o Covid-19, sucederam-se as notícias de filmagens interrompidas, bem como de todo um calendário a que seriam arrancadas algumas folhas, com as estreias de grandes produções adiadas várias semanas ou meses. Depois de um ano em que se bateram recordes de bilheteira, provando que os grandes estúdios tinham conseguido dar à volta ao guião, trazendo mais gente para as salas de cinema – mesmo se o fizeram à custa da perda de autonomia criativa, e sendo certo que o cinema que atrai comedores de pipocas está mais perto de um “parque de diversões”, para usar a expressão de Martin Scorcese, do que de um lugar de culto –, 2020 está a reverlar-se uma machadada brutal na estratégia dos grandes filmes-evento. No início de março, alguns analistas ouvidos pela revista Hollywood Reporter calculavam os prejuízos decorrentes dos encerramentos de salas e cancelamentos de filmagens em cerca de 4,5 mil milhões de euros, e isto sem ter em conta as perdas para a indústria norte-americana sofridas por se ver impedida de estrear filmes em sala na China. Entretanto, os estúdios têm tentado recuperar parte dessas receitas disponibilizando as suas novas produções através dos canais do vídeo on demand. Mas se as plataformas de streaming têm beneficiado muitíssimo com esta crise, com um crescimento exponencial no número de assinantes, há o risco de os efeitos da pandemia se prolongarem e isso irá reflectir-se mais à frente na escassez de novas produções. O mundo do cinema caminha, assim, para um momento de suspensão. E mesmo a indústria do audiovisual no nosso país, a qual, por causa das telenovelas, tem o dúbio mérito de ser aquela que, no seio da União Europeia, mais horas de ficção televisiva produz, corre o risco de ser seriamente afectada, e mesmo que não se oiçam nas nossas salas de estar, é possível encostar o ouvido à parede, e sentir o nervosismo e até o terror de milhares de trabalhadores precários que nunca estiveram mais longe de acreditar num final feliz. 

 

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