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Carlos Gouveia Martins 09/04/2020
Carlos Gouveia Martins

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A Felicidade Interna Bruta (FIB) que também pode ajudar o PIB.

Numa altura em que a escala de preocupação supera a totalidade de felicidade de cada um de nós, em todos os continentes que abrangem os quase oito mil milhões de habitantes que temos no planeta, é importante pensarmos o futuro que queremos organizar. Pós Pandemia.

Sim, acredito que vamos voltar a olhar nos olhos de quem gostamos, a abraçar os familiares que não vemos há muitos dias e, também, a contribuir para fazer a democracia funcionar de melhor forma.

Vivemos focados, endeusados e priorizados na economia. E, naturalmente, a vários níveis, bem. Mas, não só de agora, mas principalmente neste momento, encaremos que o mundo vai levar anos para se recuperar do impacto da pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2 e pela doença CoViD-19. Sim, não é preciso ser bruxo ou precisar de usar como cábula a avaliação da OCDE onde, nas suas projeções, mostra que a pandemia afetará todos os países. Os 193 da ONU.

Em Portugal, a título de exemplo, o confinamento desta fase pandémica estará a roubar cerca de 27% no nível de produção à economia.

Mas, em média, a magnitude da queda desta atividade económica é de tal ordem que se prevê uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) até dois pontos percentuais por cada mês de medidas de contenção. Diz a OCDE que "Se o encerramento continuasse por três meses, sem outros fatores de compensação, o PIB anual poderia ser 4 a 6 pontos percentuais mais baixo", indica a organização ao avaliar o impacto económico desta pandemia.

No que a nós diz respeito, e apenas citando o estudo da OCDE, em Portugal, um pouco mais de 25% do PIB pode estar comprometido com as restrições provocadas pelo coronavírus.

Mas mesmo sem ser nesta vida confinada a casa, sempre vivemos agarrados ao mesmo: PIB, PIB, PIB e PIB. Sempre foi assim. Não é só em 2020 que a sociedade mede tudo em torno dos números de crescimento do PIB.

O PIB porventura, mantendo sempre o seu fundamental foco orientador, pode passar ao lado de cinco dos grandes desafios que a sociedade irá enfrentar nas próximas décadas: (1) A pirâmide etária invertida com o envelhecimento da população, (2) a emergência climática associada à sustentabilidade ambiental, (3) as desigualdades sociais, (4) a automação laboral associada à inteligência artificial e (5) o urbanismo mais sustentável e menos Hi-Tech como prevê a Agenda 2030.

Não se quer deitar para um qualquer “balde de lixo” da razão o PIB. Nem pensar. É, sem dúvida, uma métrica de enorme utilidade. Tem, porém, muitas limitações.

Há uns dias ouvi um bom exemplo que, dito noutro contexto, demonstra uma lacuna do PIB. Ora, se hipoteticamente existir uma Cidade que venha a decidir instalar uma nova fábrica que seja altamente poluidora, iremos ver a produção do referido município, com o seu “famoso” PIB e a correspondente “riqueza” a aumentar de forma evidente. Mas, pelo lado oposto, se essa mesma fábrica contaminar dramaticamente as populações dessa mesma Cidade… o que acontece “aos olhos” do PIB? Nada. Esse facto será ignorado pelos números expostos no PIB. Em suma: Essa Cidade irá crescer economicamente mas não estará a dar resposta a todos os níveis que, em pleno 2020, a sua sociedade procura.

O PIB, tal como surgiu, vem calcular e medir os resultados agregados sem contar com, por exemplo, quaisquer desigualdades de rendimento. Aos dias de hoje, o PIB não está preparado para enfrentar a economia digital e os seus serviços que são intangíveis. Quando falamos em cuidadores informais de saúde, por exemplo também, como fazer com os cuidados sociais e de saúde que não tenham remuneração? Pois. Não conta para o PIB.

Há uma forma mais fria de analisar outra lacuna do PIB a nível de sociedade. Se tivermos um país que cresça significativamente a muitos %’s do PIB mas, também, onde exista uma taxa igualmente crescente de suicídios ou, sendo menos cruel, consumo de fármacos associados à depressão, o que se revelará nos números? Um país ótimo! E está certo? Aparentemente algo está muito mal nessa sociedade, mesmo crescendo e tendo um PIB ótimo.

A título de exemplo, nestes 5 desafios que a sociedade e o mundo irão enfrentar, após este confinamento pandémico, vê-se claramente que o PIB passa ofuscado e ausente de resposta. E, se o PIB falhar, os agentes políticos têm de encontrar solução. É aqui que quero chegar.

A felicidade.

Pode não ser uma novidade. Tem quase 50 anos. Mas pode inovar muitas sociedades.

Gostava de falar de um país específico para abordar uma nova realidade: O Butão. Entre a China e a Índia, com pouco mais de 800 mil habitantes e características sociais e culturais muito fechadas, é o local onde nasceu o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB).

Foi em 1972, quando o Rei do Butão, Jigme Wangchuck, “inventou” o conceito de FIB. Este conceito surgiu em resposta às críticas de que o país era alvo, por alegadamente ter um crescimento económico miserável.

Sem barreiras ideológicas e muito menos rejeições relativas às origens espirituais e religiosas da ideia, é, seguramente, interessante considerar o seu princípio fundamental e que norteou a sua criação: enquanto os modelos tradicionais de desenvolvimento têm como objetivo fundamental a criação de riqueza e o crescimento económico, a FIB era/é um indicador que mede a qualidade de vida e o progresso social.

Tem por base os princípios da preservação e da promoção dos valores culturais (neste caso do reino do Butão), da promoção de um desenvolvimento justo e sustentado mas também tem enfoque na conservação do meio ambiente e do estabelecimento de regras de boa governação. Parece assim tão inadequado? Não.

Com a crise pandémica que já enche noticiários de razão e estudos económicos de preocupação, é evidente que, em tempos que cheiram a austeridade, parece quase um paradoxo falar-se de Felicidade.

Poderemos dizer que esta abordagem é demasiado esotérica aos olhos de quem vive iluminado pelo singelo indicador do PIB. Mas a verdade é que a FIB, não sendo diretamente mensurável, resulta da avaliação de critérios tão objetivos como a taxa de mortalidade infantil. E, enquanto critério medidor alternativo do nível de desenvolvimento, tem vindo a ser trabalhada, inclusivamente, ao nível das Nações Unidas (ONU).

Há que informar que, desde 1990, no âmbito do Programa para o Desenvolvimento da ONU, é calculado e publicado anualmente um Índice de Desenvolvimento Humano que agrega, entre outros parâmetros, a esperança média de vida e o nível educacional, revelando muitas similaridades face ao indicador FIB.

Mas há mais exemplos: Temos, para além deste exemplo das Nações Unidas com o seu World Happiness Report, o exemplo da OCDE e da Comissão Europeia com a ferramenta Beyond GDP. E, se quisermos ser mais tangíveis, o Reino Unido tem hoje o Office for National Statistics a trabalhar com parâmetros da FIB.

Mais? Há a iniciativa Wellbeing Economy Governments, criada em 2018 pela Islândia, Escócia e Nova Zelândia que transforma de forma simples uma política disruptiva e apenas focada nas pessoas.

A Nova Zelândia, como bom exemplo nesta matéria, tem atualmente o “orçamento de bem-estar” orientado para a saúde mental com recurso a vários parâmetros estatísticos.

Este índice de Felicidade, não sendo novo nem apenas usado no Butão (onde é prioritário), é algo que deverá fazer os governantes pensarem de forma real e tangível. Com preocupação onde? Nas pessoas. Fundamental.

Em traços gerais, pensemos assim: Quanto maior o grau de felicidade não será mais elevado também o grau de comprometimento das pessoas (nas várias vertentes das suas vidas pessoais, laborais e familiares) e consequentemente maior a sua produtividade? Acredito que sim. Pelo menos é um bom princípio.

Pensando no Reino do Butão, país budista dos Himalaias, recordemos o que disse Dalai-Lama: “felicidade é o propósito das nossas vidas”. Que o seja um propósito nosso, politicamente falando, também.

 

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