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José Paulo do Carmo 09/04/2020
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

Qual o futuro da imprensa escrita?

Assistimos por esta altura ao definhar da comunicação social portuguesa impressa. Para além de a publicidade descer abruptamente, também a procura, que vinha registando quebras sucessivas, leva agora a forte e talvez decisiva talhada devido ao confinamento a que estamos submetidos – isto, embora os jornais e revistas continuem nas bancas para quem os quiser comprar, bem como as assinaturas online. 

E se este já era um mundo em dificuldades antes da pandemia, assistiremos por certo, depois dela, ao definitivo adeus de muitos meios e, consequentemente, ao desemprego em catadupa de todo o tipo de jornalistas. Se a vida como a conhecíamos irá porventura sofrer consideráveis alterações também nesta área, depois de aberta a caixa de Pandora, jamais o panorama será sequer parecido.

Uns por preguiça, muitos por facilitismo, alguns pelo dinheiro e outros pela hipocrisia de criticarem a pirataria e cópia nos seus eventos, negócios ou marcas – mas que paradoxalmente, neste caso, já consideram que o direito à informação fala mais alto –, todos eles pululam nos grupos do WhatsApp e Telegram que disponibilizam os ficheiros das publicações livres de qualquer encargo. Também políticos e juristas ali se encontram facilmente. Um pouco de tudo. Esta é, por isso, uma guerra ingrata. De pouco ou nada valem comunicados conjuntos a apelar à sensibilidade dos que leem e assobiam para o lado como se nada fosse com eles. A verdade é que a pirataria ataca a nossa sociedade de uma forma transversal, atirando a propriedade intelectual para um canto.

Acho que, muitas vezes, as pessoas se esquecem da importância que os jornais têm para a democracia. E esquecem-se de que, sem eles, estaremos mais próximos de estar subjugados a interesses obscuros e ocultos. Esquecem-se de que grandes casos que se encontram agora na justiça nunca viriam à baila, pelo menos com esta celeridade, se não fossem as investigações jornalísticas, como o caso das operações Marquês ou Monte Branco. Essas investigações e os profissionais que as conduzem têm de ser pagos, porque também têm vida e uma família para sustentar. Caminhamos, por isso, a passos largos para uma diminuição dos órgãos existentes e, provavelmente, só prevalecerão os que são detidos pelos grandes grupos ou outros criados e sustentados apenas para servir os interesses de investidores menos recomendáveis, com editores e diretores “ventríloquos” lá colocados para serem simplesmente a voz “do dono”.

Se esta é uma altura de introspeção e em que nos damos mais ao pensamento, em que pedimos para comprar produtos nacionais e respeitarmos os produtores, em que falamos tanto em apoiar o tecido empresarial, não me parece razoável deixar a imprensa de fora só porque “dá jeito”. Assim como os escritores, que nesta altura de crise viram as vendas dos seus livros decaírem e, ao mesmo tempo, serem colocadas na íntegra as suas obras nos mesmos grupos das redes sociais. A mim dá-me especial pena porque tenho vários amigos jornalistas e escritores, conheço a redação deste jornal e conheço quem com muito sacrifício tenta levar este projeto para a frente. Há quem pense que isto é fácil e que a publicidade paga tudo. Pura mentira.

Chamem-me retrógrado se quiserem, mas eu continuo a adorar o ritual de levar o jornal debaixo do braço para uma esplanada agradável e ali beber o meu café enquanto os textos se misturam com o cheiro a papel. Espero que não me deem cabo desse prazer. Apoiar os nossos é também apoiar os que todos os dias, de uma forma ou de outra, se dedicam à escrita, seja para nos informar ou para nos entreter.

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