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Carlos Zorrinho 09/04/2020
Carlos Zorrinho
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Geração Erasmus de Roterdão

A nova geração Erasmus aprendeu a valorizar a diferença e a aceitar o bem maior que é estarmos juntos, manifestando isso quando mobilizada a votar.

Os coronabonds, focados na mutualização do esforço financeiro europeu através de uma emissão conjunta de títulos para combater a pandemia, que citei nesta coluna há duas semanas como um instrumento determinante para fazer prova de vida do sentido solidário, cooperante e utilitário da União Europeia e da validade do seu propósito, continuam a ser alvo de um aceso debate, como alavanca de uma recuperação pós-crise sanitária.

A prova de vida está em curso de demonstração mas, qualquer que seja o cenário, a defesa de um instrumento de financiamento solidário e de mutualização de dívida não pode ser abandonada. A proposta feita por nove países europeus e progressivamente acompanhada por outros, de forma a esbarrar apenas no núcleo duro dos designados frugais, em particular nos holandeses, teve o mérito de acordar as instituições e fazer nascer um conjunto de medidas relevantes e coordenadas de resposta como até aí não se tinha vislumbrado.

O Banco Central Europeu lançou um ambicioso programa de compra de ações públicas e privadas que tem permitido manter a liquidez financeira. A utilização dos diversos fundos europeus foi flexibilizada. Três linhas de financiamento europeu para as políticas nacionais de combate à pandemia poderão vir a ser lançadas, num valor global de 540 mil milhões de euros, recorrendo ao Mecanismo Europeu de Estabilidade, ao Banco Central Europeu e a empréstimos europeus, iniciando um processo de mutualização do risco que é o vizinho do lado da almejada mutualização da dívida.

Com ou sem coronabonds, acredito que a União Europeia, tendo em conta o nível de pressão, os países que os defendem e a experiência traumatizante da má gestão da crise financeira anterior, dará desta vez uma resposta global mais solidária e adequada. A não condicionalidade no acesso e uso dos instrumentos é um passo fundamental que importa assegurar.

O debate sobre o tema é mais político do que técnico, e mesmo no plano político emerge mais das diferentes idiossincrasias nacionais do que das ideologias de base, não obstante ser justo e relevante sublinhar o apoio que, desta vez, os meus colegas eurodeputados do Partido Social-Democrata alemão (SPD) manifestaram a um instrumento robusto de mutualização da dívida.

Há uns dias partilhei com um familiar próximo, com cerca de metade da minha idade, um sentimento com que me confrontava. Sendo europeísta, sinto-me português em primeiro lugar, mas também holandês e dos outros 25 países da parceria. Contudo, quando os Governos holandeses afirmam, e já o fizeram algumas vezes, a sua sobranceria e arrogância, eu tenho dificuldade em me sentir holandês, tal como não foi fácil sentir-me alemão durante o período da troika. Acredito que isso seja biunívoco na relação emocional de muitos cidadãos desses países com os países do sul.

A resposta que recebi à minha inquietação foi marcante. “A tua geração não é europeia porque não fez o Erasmus”. De facto, a nova geração Erasmus aprendeu a valorizar a diferença e a aceitar o bem maior que é estarmos juntos, manifestando isso quando mobilizada a votar.

Erasmus de Roterdão, humanista holandês dos sécs. xv e xvi, dá nome a um programa que é uma boia de salvação para o projeto europeu, se não o destruirmos antes de a geração que lhe tomou o nome chegar ao poder. É preciso resistir.

 

Eurodeputado

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