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As histórias daqueles que o vírus não pode parar I

09/04/2020 01:30

Isa continua a ter as rotinas apertadas de sempre e não pode começar a trabalhar sem tomar banho e vestir a roupa do trabalho. Dmytro teve de suspender as suas tarefas habituais para desinfetar paragens e multibancos. Diogo saiu de casa para proteger os que mais ama. E Luís não esconde o medo do que aí vem.

 

 

Isa Cardoso, Engenheira zootécnica
“Quando chego vou dar uma volta aos partos”

Isa Cardoso chega todos os dias de manhã ao edifício onde estão os 11 mil porcos da exploração de Santarém onde trabalha há vários anos. Toma um banho e veste a “roupa lá de dentro”. Sempre foi assim, mesmo antes dos cuidados acrescidos com o novo coronavírus. Esta engenheira zootécnica trocou em tempos a vida agitada de Lisboa por uma bem mais calma, mas que lhe dá responsabilidades acrescidas.

Assim que o novo coronavírus começou a ser notícia em Portugal, da sua cabeça não saía um peso: “Estava com medo, por exemplo, que as matérias primas não chegassem a Portugal. Se isso acontecesse poderia haver problemas de abastecimento da ração, da farinha para os animais”. O tempo e a evolução das coisas ajudaram-na, porém, a acalmar: “Graças a Deus não tem havido problemas”.

A sua equipa é composta por seis pessoas, nem todas residentes na exploração, e as tarefas de cada um são diferentes. “Quando chego vou logo dar a volta aos partos, para perceber se está tudo bem ou se preciso de ajudar alguma porca que esteja em dificuldade. Neste momento, são no total 900 fêmeas e na maternidade estarão mais ou menos duzentas”. Enquanto isso, o resto das pessoas vai alimentar os porcos e começar as operações de limpeza.

Entre as 9h e as 16h, Isa raramente tem tempo para sair. Come inclusivamente dentro do edifício para que não haja contactos com o exterior. Cuidados que hoje em dia são redobrados.

“Com o aparecimento do novo coronavírus  temos hoje mais cuidado, em termos de trabalho, com a lavagem das mãos. E usamos máscaras em algumas situações em que antes não usávamos”, explica, adiantando que os cuidados são ainda mais importantes nos contactos com o exterior. “Ainda esta semana foi preciso abastecer um camião de porcos para abate. Há sempre contactos com o exterior nessas circunstâncias”, contou.

 

Dmytro Kholod, Assistente técnico
“Assim que possa Vou à Ucrânia Matar Saudades”

O novo coronavírus trocou as voltas a Dmytro Kholod, que neste verão pensava regressar à Ucrânia para umas férias. Era a primeira vez que o filho de dois anos iria conhecer pessoalmente os avós maternos.

Ao contrário dos pais de Dmytro, que vieram para Portugal e mais tarde foram buscar os filhos, no caso da mulher a família continua a viver na Ucrânia.

Quando chegou à Junta de Freguesia da Penha de França há uns anos tinha como funções a fiscalização do espaço público, ou seja, ver se “havia buracos, árvores a cair e outras coisas”. Hoje, o vírus empurrou este assistente técnico para novas funções: a desinfeção das ruas, sobretudo dos locais onde o risco de contágio poderá ser maior, como paragens de autocarros e também nos multibancos – “aí aplico o produto num pano e passo nas teclas”.

As luvas, os óculos, a máscara e o restante material – que pensa ser recolhido num serviço da autarquia – dão-lhe segurança e não tem medo de poder levar para casa o vírus. Do outro lado, conta, tudo está controlado, uma vez que a mulher, como assistente de dentista, tem estado em casa com o filho desde que a clínica fechou. Além disso, Dmytro também não prescinde de cuidados como não levar os sapatos para dentro de casa e a lavagem frequente das mãos.

O não saber quando poderá voltar à Ucrânia não é para já um problema, ainda que diga que assim que possa vai regressar “para matar saudades”.

Conversas com a família que vive lá continuam a existir e só acompanha o que por lá se passa através desses diálogos: “Não costumo ver notícias de lá”.

Ainda que um pouco alheado da realidade no seu país, Dmytro não hesita quando toca a fazer uma comparação. “Acho que Portugal faz mais pelas pessoas do que a Ucrânia, pela proteção, quero dizer. Do que falo com a minha família, as minhas tias e primas, as coisas estão a ser muito complicadas ao nível financeiro e do apoio do Governo às pessoas”, conclui.

 

Diogo Duarte, Enfermeiro
“A pressão é elevada e o stress é crescente” 

A pressão é “elevada”, o stress e o cansaço são “crescentes”. E o medo do contágio do vírus aos mais próximos é constante. Enfermeiro no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, Diogo Duarte, de 24 anos, vai todos os dias para o trabalho com um misto de sentimentos e com a certeza de que as dificuldades serão sempre “muitas”. “Para além das mudanças das rotinas diárias, tal como acontece com todos os outros portugueses, a mudança de paradigma no local de trabalho também foi muito pronunciada. Toda a metodologia foi alterada. Temos circuitos diferentes, protocolos diferentes, a estrutura física do local de trabalho é diferente e, de certa forma, até a abordagem aos doentes é diferente pelo facto da doença pela covid-19 ser uma novidade para todos nós. Por lidarmos numa base diária com doentes críticos, considero que estamos dotados de algumas ferramentas que nos ajudam a gerir as emoções, mas também esta realidade veio a ser alterada”, confessa.

Para ficar de consciência tranquila, Diogo teve de usar “a casa de um amigo que está desocupada” para proteger a família nesta altura. “Eu, tal como milhares de outros profissionais, tive de abandonar o meu domicílio devido ao receio de infetar aqueles que são próximos. Felizmente tenho essa possibilidade, de ir para outro local, senão teria de estar num hotel ou alojamento local”, explica, adiantando também que vê com bons olhos o esforço que está a ser feito em Portugal, principalmente no que toca aos hospitais.

“Penso que de forma genérica estamos a conseguir lidar de uma forma adequada com esta pandemia. Felizmente, se assim o puder dizer, tivemos o exemplo do que aconteceu em países não tão diferentes do nosso, como Itália e Espanha. Foi-nos possível ter algum tempo para criar adaptações de forma a que pudéssemos estar o mais preparados possível para o impacto que a pandemia teria no nosso país e essencialmente no nosso serviço de saúde”, sublinha, antevendo já um futuro promissor para os portugueses.

 

Luís Carvalho, Empregado de supermercado
“O pior ainda está para vir. Tenho medo!”

Quando chega ao supermercado, Luís Carvalho já sabe que a “confusão” é mais ou menos a mesma aquela que se vivia no início da pandemia covid-19. Mas mais “ponderada”. As pessoas têm comprado menos coisas e, talvez devido à “limitação” de clientes imposta pelo Governo em pleno estado de emergência, mostram um ar mais “sereno, calmo e simpático”, apesar da preocupação estampada no rosto. “Acredito que as pessoas compram menos porque o poder de compra baixou um pouco com tudo isto. Mas tenho sentido que estão mais ponderadas. Talvez por perceberem que, na verdade, estamos na mesma situação que eles”, diz Luís Carvalho, 20 anos, que trabalha no Continente Modelo da Arroja, em Odivelas.

O seu dia a dia foi completamente “revisto”, com horários diferentes e o receio do contacto, que era algo normal antes do surto, continua muito presente. “Foi aplicado um horário de reposição noturna de forma a diminuir o contacto com os clientes, sendo esse também um dos nossos maiores riscos. Mas foram tomadas imensas medidas para nos proteger desta pandemia. Não temos estado tanto em contacto com o caos”, conta.

Apesar de todo o positivismo em torno dos clientes, Luís pensa que “o pior ainda está para vir”: uma crise que poderá trazer consequências gravíssimas na economia. “Tenho a certeza de que o pior ainda está para vir. Falo talvez numa crise que deverá ser difícil de passar. Agora que estávamos a estabilizar depois da saída da última crise. Tenho medo do que aí vem! Mas o importante é combater agora o problema”, desabafa.

Nos supermercados, a sensação é de que, pouco a pouco, tudo vai voltar ao normal, cumprindo-se, claro, todas as regras estabelecidas. E Luís espera ainda que os cientistas façam um bom trabalho e que a “cura” para a covid-19 esteja para breve. “Não é fácil”, mas com toda esta agonia procura-se inevitavelmente a “brevidade” das soluções. “Os cientistas estão a trabalhar arduamente e só peço para a vacina estar pronta em breve”, atirou, dizendo ver já uma luz ao fundo do túnel.

 

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