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Covid-19. Portugal avança para ensaios clínicos com plasma de doentes curados

Covid-19. Portugal avança para ensaios clínicos com plasma de doentes curados

Mafalda Gomes Marta F. Reis 08/04/2020 20:48

Grupo de trabalho foi criado a 18 de março e já estão desenhados os critérios e procedimentos para colheita.

Tal como tem acontecido em vários países, Portugal está a ultimar as condições para iniciar ensaios clínicos para avaliar o tratamento de doentes de covid-19 com plasma de doentes recuperados. O Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) já desenvolveu os critérios e estabeleceu os procedimentos necessários para a colheita de plasma convalescente, que será usado enquanto terapêutica experimental. A presidente do conselho diretivo do IPST, Maria Antónia Escoval, adiantou ao i que, além dos procedimentos de colheita, já foram também identificados os hospitais que, em conjunto com os três centros de sangue e transplantação do IPST, têm capacidade instalada e equipamento para avançar com as colheitas. O projeto, iniciado a 18 de março com a criação de um grupo de trabalho específico para o uso de plasma convalescente, está agora na terceira fase, em que em conjunto com a DGS, o INSA e o Infarmed serão definidos os protocolos dos ensaios clínicos a iniciar no país, ou seja, em que situações será analisada a eficácia desta intervenção.

“Teve de ser um processo mais demorado porque, tratando-se de uma situação nova, temos de analisar o que está a ser feito nos outros países para fazermos igual ou melhor”, diz Maria Antónia Escoval.

Sem adiantar datas, a responsável admite que a expetativa é que os ensaios clínicos possam avançar logo que estejam definidos os protocolos. A colheita será por aférese, para a recolha seletiva do plasma de doentes recuperados, com critérios que em breve serão disponibilizados pelo IPST. Estarão também definidas as análises necessárias e as regras de processamento e armazenamento do plasma. “Como todos os desafios que nos tem colocado esta epidemia, este será mais um esforço conjunto”, sublinha Maria Antónia Escoval, revelando que Portugal deverá também integrar um projeto europeu nesta área. “Têm estado a ser feitos estudos tanto na vertente de profilaxia como no tratamento de doentes. Sabemos que este tipo de terapêutica já foi usado noutras epidemias e queremos acima de tudo avaliar a eficácia, um trabalho que contará com a participação dos hospitais e, em particular, da medicina intensiva”.

O recurso a plasma de doentes recuperados, de onde se extraem anticorpos contra o vírus, foi usado também a título experimental nas epidemias causadas pelos coronavírus SARS e MERS e tornou a surgir na equação da resposta à nova epidemia na China, com alguns doentes a mostrarem melhorias. Entretanto foram já desenvolvidos protocolos para ensaios clínicos em Espanha, Itália, Alemanha e Estados Unidos, os passos que estão agora a ser definidos em Portugal, onde, para já, não está previsto o uso compassivo, ou seja, a terapêutica com soro feito a partir deste plasma será apenas administrada a doentes admitidos em ensaios clínicos.

Nos EUA, por exemplo, os ensaios clínicos planeados nas últimas semanas destinam-se a avaliar a eficácia da intervenção. São dirigidos a três grupos distintos e já tiveram luz verde da Food and Drug Administration (FDA) para avançar. O National Covid-19 Convalescent Plasma Project, que conta com a participação de 34 instituições e é liderado pela Universidade John Hopkins, pretende testar o uso de plasma como profilaxia para pessoas que tenham tido contacto próximo com doentes de covid-19. Os investigadores querem abranger 150 pessoas com mais de 18 anos que tenham tido uma exposição de risco elevado a um doente com covid-19 nas 120 horas anteriores e não tenham ainda manifestado sintomas, por exemplo, profissionais de saúde ou socorristas. Uma segunda linha de investigação passa por perceber se o soro com anticorpos de SARS-CoV-2 previne que doentes com quadros moderados evoluam para quadros mais graves e este ensaio prevê a imunização passiva de doentes hospitalizados com infeção respiratória aguda, com início de sintomas entre três a sete dias, acompanhando a sua evolução. O terceiro ensaio é um estudo ainda numa fase mais preliminar para avaliar a exequibilidade da administração do soro a doentes em estado crítico e falência respiratória, ligados a ventilador mecânico.

 

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