22/9/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 08/04/2020
Eduardo Oliveira e Silva

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Bom senso, eficácia e transparência são a solução

Não é tempo de medidas platónicas. Há que ser objetivo no terreno para evitar o pior.

1. Minimizar os efeitos devastadores da pandemia é e será a tarefa prioritária de qualquer Governo responsável. Em Portugal, não estamos mal servidos. Apesar disso, os números crescentes de doentes não são tão favoráveis como se apregoa. Não divergimos muito de certos padrões médios europeus. Estamos bem, mas não fomos exemplares, como algumas mensagens pretendem fazer passar. Há e houve grandes falhas que se revelam gritantes quando se confronta o dia-a-dia, verificando que muito do que era óbvio ficou, lamentavelmente, por fazer em antecipação. Porém, não se pode cair nem no extremo do unanimismo nem na crítica permanente. Tem de haver alertas, vigilância democrática, discordâncias ou até divergências, até porque o Governo já entrou em variadíssimas ocasiões no modo de tirar dividendos políticos, o que é lamentável. É essencial que o Governo se contenha em manobras de propaganda que estão lentamente a implantar-se, como assistir à chegada de material comprado ou oferecido para ficar na fotografia.

Por agora, tudo o que se propuser tem de ter uma lógica exclusivamente construtiva e prioridades claras: o combate à doença (à pandemia e às outras), assegurar rendimento às famílias e defender a economia, na medida do possível.

Um ponto positivo tem sido a cooperação institucional que continua a verificar-se ao mais alto nível entre órgãos de soberania e a postura da oposição, nomeadamente do PSD, enquanto maior partido de oposição e alternativa de Governo. As propostas económicas emanadas dos sociais-democratas na segunda-feira traduzem sentido de Estado, capacidade de estudo e defesa de uma causa comum. Há agora que esperar que o Governo as estude e avalie, aceitando as que efetivamente puder aplicar – não tendo sido a primeira reação de Mário Centeno propriamente elegante e positiva, visto que referiu haver medidas que já existiam, o que não era verdade.

De uma forma quase obsessiva, alguns querem, entretanto, saltar já para a fase da retoma quando não conseguiram sequer resolver o problema básico da assistência direta às pessoas em termos financeiros. Ora, depois da saúde em geral e do ataque à doença, que é a superprioridade, é essa injeção que é preciso dar. Para evitar o salve-se quem puder, há que garantir que os mais desprotegidos e os que ficaram sem recursos tenham capacidade financeira de sobrevivência. É preciso que os salários sejam pagos total ou parcialmente, que as pensões não falhem, que a Segurança Social dê a resposta que não dá sequer normalmente. A burocracia não pode emperrar esse fluxo. Há países que estão a conseguir. Nós não estamos. Vivemos, nesse campo concreto, ainda numa fase de intenções platónicas. É bonito, mas não chega. Esta é uma hora de ação. É no terreno que tem de haver respostas para que não haja uma crise social dramática. Se a lentidão se acentuar e não houver uma estratégia objetiva e direta, podemos entrar numa fase complicada. Estamos no tempo de evitar que individualmente não ocorra uma disputa vil semelhante à que está lentamente a instalar-se entre os Estados na corrida aos equipamentos. Muitos governantes no mundo correm para, obviamente, acudir aos seus concidadãos doentes, mas nalguns casos, como nos Estados Unidos, também para evitar uma convulsão interna, num país onde uma das primeiras reações de muitos foi comprar armas para se defenderem. É um quadro assustador, mas está, genericamente, na natureza humana.

É inevitável, entretanto, olhar-se para a China e as suas responsabilidades. O Império do Meio ostenta bem o nome que o identificou muito tempo. Pequim bem pode ajudar agora porque tem altas responsabilidades em tudo que aconteceu. Pelo seu modo de vida. Pelas suas intenções hegemónicas e imperialistas. Pela forma como tentou controlar e viciou a economia mundial a partir de uma ditadura. Pela maneira como mentiu face à pandemia. E pelo cinismo que mostra agora, quando faz negócio à mistura com uma ajuda que não passa de propaganda política. Quanto aos portugueses, já deverão ter percebido que não entram nas prioridades chinesas. Nós que pensávamos ter uma brilhante relação histórica com eles e que, supostamente, fomos a porta de entrada dos seus investimentos na Europa, não temos tido qualquer tipo de prioridade ou atenção diferente dos outros povos. No fundo, eles nunca gostaram que tivéssemos andado por lá cerca de cinco séculos.

2. Há temas que eram altamente relevantes e que, de repente, desapareceram por causa da pandemia. Um deles tinha Brexit por nome. Desde que o vírus se instalou no planeta, foi matéria de que nunca mais se falou, e até os seus principais negociadores pelo lado da União Europeia e do lado britânico foram infetados com a covid-19, o que também aconteceu ao primeiro-ministro britânico, que luta pela vida depois de irresponsavelmente ter defendido uma imediata imunidade grupal. Perante o drama planetário que vivemos, é natural que o assunto tenha desaparecido da agenda europeia. Mas não deixaria de ser importante que se percebesse em que ponto estamos e se as coisas vão ficar no meio da ponte. Talvez não seja importante, nesta altura, levantar esta questão. Mas se até ela se tornou irrelevante, então o que dizer de tantas outras?

 

Escreve à quarta-feira

 

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