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Subbuteo. E todo o encanto do futebol cabia na ponta de um dedo...

Subbuteo. E todo o encanto do futebol cabia na ponta de um dedo...

Afonso De Melo 06/04/2020 20:48

Só os jogos de consola conseguiram destruir a popularidade do futebol de mesa mais parecido com um campo de futebol autêntico que existiu até hoje.

Comecemos pelo nome, que é, no mínimo, bizarro: Subbuteo. É nome de pássaro: Falco subbuteo, uma espécie de falcão pescador que tem essa designação latina, como todas as espécies. Em 1947, quando Peter Arthur Adolph transformou o Subbuteo numa das maiores empresas universais de brinquedos, a ideia tinha sido dar-lhe a designação de Hobby – o nome inglês do passaroco é hobby hawk. Já havia outra. Nome recusado. Peter era um maníaco da ornitologia. Teimou e deu no que deu.

Nestes dias de confinação caseira obrigatória, confesso que não desperdiçaria a hipótese de me bater de novo, no campo alisado no chão do meu quarto nos Olivais Sul, com o grande adversário dos nossos tempos de liceu, o João Matias, mais conhecido pela malta como Facadas. Disputámos partidas homéricas. Talvez mesmo ao nível das realizadas por Bill Shankly, Alex Ferguson, Bobby Charlton ou Bobby Moore, fanáticos praticantes daquele tiki-taka de polegar e indicador que nos punha à disposição um nunca mais acabar de equipas e de seleções, sobretudo inglesas, como está bom de ver.

Junte-se já aqui ao manancial informativo que o Subbuteo não se limitou ao futebol, embora essa seja a sua versão mais popular. Adolph preocupou-se igualmente com os adeptos de râguebi, críquete, hóquei e até corridas de cavalos para criar jogos de mesa para eles.

Agora, a parte menos agradável: Adolph não foi tão engenhoso como a sociedade o recordará para sempre. Na verdade, foi tirar a ideia do Subbuteo a um jogo já existente desde 1920, o NewFooty, no qual as bases em forma de meia laranja já existiam, mas cujos jogadores eram de cartão pintado. Como o criador do NewFooty fez como o nosso Fernando Pessoa em relação aos matraquilhos, ou seja, inventou-os mas não se deu ao trabalho de requerer a patente, Adolph saiu-se bem da esperteza.

A explosão O Subbuteo tornou-se praticamente indispensável para todos o rapazinhos dos anos 60. Progrediu ao ponto de, em poucos meses, já ser possível comprar cerca de 200 equipas diferentes. Depois, um toque de requinte: os acessórios – bandeirolas de canto, espetadores, bancadas, marcadores, holofotes. Construía-se um campo de futebol em miniatura sobre uma mesa. E mais ainda: não era só para encher o olho, era mesmo para jogar!

Em 1974, para comemorar o campeonato do Mundo da Alemanha, o grupo de criativos da Subbuteo excedeu-se. Um kit completo (que completo?! Completíssimo!) foi posto à disposição da malta: apanha-bolas, a bola oficial do torneio, jogadores preparados para executarem somente os lançamentos laterais, torres de filmagem, equipas de repórteres com fotógrafos e câmaras, polícias e cães, bombeiros, ambulâncias, bancos com treinadores e reservas, adeptos com camisolas e bandeiras dos países em disputa e o diabo a quatro. A popularidade do brinquedo atingira o auge.

Adolph era, sem dúvida, um fulano com espírito de iniciativa. Fez um acompanhamento publicitário do jogo, imprimindo panfletos que deixava em lojas ou colava nas paredes. No início de 1950 já tinha recebido encomendas que atingiam a nada despicienda verba de 7500 libras esterlinas.

Então, o Subbuteo passou a ser mais do que um simples jogo. Tommy Docherty, um técnico que passou pelo FC Porto, começou a usar o pano e os bonecos para explicar sistemas táticos e movimentos aos seus jogadores do Chelsea em 1963. A vitória da Inglaterra no Mundial, três anos mais tarde, elevou o Subbuteo a um ponto inesperado: nasceu a Table Soccer Association. Em 1970, o Hotel Savoy, em Londres, e a sua Abraham Suite foram a sede do primeiro International Subbuteo Tournament e mais de 13 países participaram no evento.

Bill Shankly, o mestre do grande Liverpool europeu, confessou alegremente que passava muitas horas da sua reforma a jogar Subbuteo. Claro que jogava sempre com a equipa toda vestida de vermelho mas, nessa altura, já havia 750 equipamentos diferentes à escolha. E novos elementos não paravam de surgir, sendo as miniaturas da Taça de Inglaterra e da Copa do Mundo as mais populares.

Já quanto à evolução de mentalidades, haveria muito para escrever. Reparem: o primeiro jogador de Subbuteo negro só surgiu em 1980. Mais ou menos pela altura em que Viv Anderson, do Nottingham Forest, se tornava o primeiro coloured a vestir a camisola da seleção inglesa. E tal coincidência dificilmente se poderá confundir com um acaso.

 

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