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Covid-19. Violência policial em tempos de pandemia

Covid-19. Violência policial em tempos de pandemia

AFP João Campos Rodrigues 03/04/2020 15:02

Um pouco por todo o planeta sucedem-se os abusos do estado de emergência pelas autoridades: nas Filipinas, as ordens são para atirar a matar. Os alvos são sobretudo os mais vulneráveis, que procuram sustento.

Pelo meio do pânico com a pandemia de covid-19, a repressão e a violência policial normalizam-se ainda mais em algumas partes do mundo. Sobretudo contra os que são mais vulneráveis: as populações mais pobres e marginalizadas, forçadas a sair à rua em busca de sustento. Do Paraguai a Angola, passando pela Índia e pelas Filipinas, multiplicam-se os casos, muitas vezes saudados como sendo medidas fortes contra o coronavírus.

Em Angola aumentam as denúncias de violência policial após a declaração do estado de emergência. A polícia e as forças armadas estão em força nas ruas dos principais centros urbanos angolanos para manter as restrições à circulação – há oito casos registados de covid-19 e duas mortes.

Um vídeo a que o i o teve acesso mostra dezenas de pessoas deitadas no chão, rodeadas por homens com uniformes da polícia angolana. Por entre gargalhadas dos colegas, um deles espanca brutal e sistematicamente as pessoas deitadas no chão com um cassetete – são mandadas embora depois serem sovadas. As forças de segurança já admitiram a existência de vídeos de abusos policiais e anunciaram a detenção de um oficial.

Às imagens somam-se os relatos de Jordam Muakabinza, ativista de Cuango, na província de Lunda Norte – os alvos são sobretudo vendedores ambulantes. “A polícia e as forças armadas angolanas batem nas senhoras que vão vender, nas cantinas abertas. Eles não querem saber de nada, batem de qualquer forma”, disse ao Voz da América.

Entretanto, do outro lado de África, no Quénia, a polícia manifestou as suas “sinceras condolências” após matar um rapaz de 13 anos, na varanda de sua casa, quando impunha a tiro o recolher obrigatório num bairro de lata em Nairóbi, esta semana. “Vieram a gritar e a bater-nos como em vacas. Nós somos cidadãos respeitadores da lei”, disse ao Guardian Hussein Moyo, pai de Yasin, o rapaz baleado.

“Porque estão a enviar polícia para a comunidade com fogo real?”, questionou Faith Mumbe Kasina, do Centro de Justiça Social de Kiamaiko, citada pelo Washington Post – já foram mortas pelo menos cinco pessoas pela polícia no Quénia, mais que pela covid-19.

 

“Atirem a matar”

Talvez o caso mais gritante sejam as Filipinas. O Presidente Rodrigo Duterte – que já era acusado de montar uma campanha para abater milhares de toxicodependentes e traficantes de droga nas ruas – não teve pudores. “Atirem a matar”, pediu aos polícias e militares filipinos, quando confrontados com pessoas que quebrem as regras de isolamento social ou sejam violentos com profissionais de saúde – tem havido queixas disso nas Filipinas.

”Está compreendido? Mortos. Em vez de causarem problemas, vou enterrar-vos”, prometeu Duterte esta quarta-feira. No mesmo dia, dezenas de pessoas foram detidas em protestos nos bairros mais miseráveis de Manila: exigiam comida.

“Não tenho medo dessa covid-19, porque te podes curar. O que é assustador é morrer com os olhos abertos por causa da fome”, explicou Inday Bagasbas, de 64 anos, residente em San Roque, de onde eram originários vários manifestantes, segundo o Rappler.

O jornal filipino é dirigido por Maria Ressa, uma opositora de Duterte que ganhou vários prémios internacionais – e viu vários dos seus colegas mortos ou encarcerados. “Eles podem fechar-nos amanhã”, disse ao Guardian em finais de fevereiro. Agora, a situação não está mais fácil.

Importa salientar que antes dos apelos homicidas de Duterte, a ação das autoridades já não era suave: imagens nas redes sociais mostram três homens e dois adolescentes, presos numa jaula para cães, que terão sido aí postos por agentes de segurança, supostamente por violarem o recolher obrigatório – centenas de pessoas já foram detidas, segundo a Human Rights Watch.

“Duterte pode sentir-se exasperado pelos incidentes de pessoas a quebrar o recolher obrigatório, mas tem de perceber que, para os pobres afetados por esta crise, é uma questão de sobrevivência”, escreveu a Karapatan, uma ONG filipina.

 

“Inimigo do povo”

Na Índia multiplicam-se vídeos de polícias a furar os pneus de quem sai à rua ou a obrigaram transeuntes a fazer flexões, abdominais ou agachamentos. Chamam-lhes “covidiotas” – um termo cunhado para quem quebra o isolamento social na Índia – e alguns foram obrigados a usar cartazes a dizer “sou um inimigo do povo”, pendurados ao pescoço. “Pensem antes de saírem de casa durante o isolamento”, escreveu a própria polícia de Andhra Pradesh, no sudeste do país, que divulgou no Twitter um destes vídeos.

Outros tiveram menos sorte: vários agentes foram filmados a espancar cidadãos com varas. Nestes vídeos, alguns comentários eram de apoio às agressões, outros não. “Nenhuma pessoa rica foi magoada na produção deste vídeo”, lia-se num comentário sarcástico às imagens divulgadas pelo Hindustan Times.

Parece ser esse o ponto comum dos excessos das autoridades indianas: afetam sobretudo os mais desfavorecidos, como os trabalhadores migrantes forçados a regressar às suas províncias natais após a declaração do estado de emergência – muitos deles a pé.

Esta semana, no estado de Uttar Pradesh, centenas de migrantes – homens, mulheres e crianças – foram recebidos com mangueiradas de desinfetante. O incidente foi filmado e o desinfetante era à base de lixívia, avançou o Indian Express, algo que pode causar danos nos olhos, pele e pulmões.

 

“Não vamos mais sair de casa”

Do outro lado do planeta, no Paraguai, a polícia também recorreu a práticas humilhantes para manter a quarentena. Cidadãos foram obrigados a saltar e abrir os braços, sob ameaça dos tasers do Grupo de Operações Táticas Motorizadas (Grupo Lince). Outros, deitados com a cara no chão, foram obrigados a repetir “não vamos mais sair de casa, senhores linces”, algo filmado pelos próprios agentes.

“Dou-lhes os parabéns. Não tenho a mesma criatividade que aqueles que estão a fazer os vídeos”, respondeu o ministro do Interior paraguaio, Euclides Acevedo, que classificou a ação como um “fuzilamento moral”, em entrevista à ABC Cardinal.

 

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