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Globetrotters. Os raios negros que brilham no Circo do Sol

Globetrotters. Os raios negros que brilham no Circo do Sol

Afonso De Melo 02/04/2020 22:58

É uma das lendas mais fortes ainda vivas do desporto do mundo. Os homens que fizeram do basquetebol uma exibição de dança e arte.

Os Harlem Globetrotters habituaram-nos a tudo e mais qualquer coisa. Desde carregarem o nome de Harlem, apesar de terem nascido bem longe do Harlem, na parte sul de Chicago, a inventarem a regra dos quatro pontos para quem fizer um cesto a mais de 30 pés (cada pé equivale a 30,48 centímetros), isto é, sete pés atrás da linha oficial dos três pontos.

Claro que habilidades como esta – ou como ter um jogador deitado no chão, cabeça apoiada no cotovelo, a fazer driblings sucessivos a milímetros do taco – só são possíveis num desporto que riscou a sua vertente competitiva para se dedicar ao entretenimento. Os Globetrotters começaram por ser uma atração do recém-inaugurado Savoy Ballroom, em 1926, com o nome de Savoy Big Five, atuando após as raparigas dançarem o fox-trot com as saias mais curtas que eram permitidas pela moral da época. Além do mais, distinguiam-se por serem todos negros. Rapidamente surgiram cisões. Três anos mais tarde, já um empresário judeu, Abraham (Abe) Michael Saperstein, conduzia os renovados New York Harlem Globetrotters numa excursão de exibição ao sul do estado de Illinois e ao vizinho Iowa.

Abe era um mestre do marketing. Quis dar aos Globetrotters o toque místico da negritude. E havia lá lugar onde o negro fosse levado mais a sério do que no Harlem. Para ele, pouco importou que os Globetrotters só tenham jogado pela primeira vez no Harlem em 1968.

A doer Não há general que possa orgulhar-se do tilintar das suas medalhas se não tiver feito por merecê-las. Hoje, os Harlem Globetrotters podem apresentar números avassaladores, como os de já terem demonstrado as suas incríveis habilidades a mais de 150 milhões de adeptos em 123 países do mundo, mas em 1940 lutavam pelo reconhecimento disputando jogos do campeonato americano para se tornarem, finalmente, estrelas de brilho cintilante após duas vitórias tão sonoras como indiscutíveis sobre os campeões da NBA, Minneapolis Lakers. A partir daí, não tinham pejo em apresentar-se como a melhor equipa do mundo.

Em 1950 partiram para uma digressão internacional de sucesso estrepitoso. Só em Berlim, no Estádio Olímpico, reuniram mais de 75 mil pessoas. Em 1959 quebraram as fronteiras da Guerra Fria e apresentaram-se numa série de espetáculos na União Soviética, o que lhes valeu o reconhecimento da nomeação como Ambassadors of Extraordinary Goodwill por parte do Governo americano.

O problema surgiu, inevitavelmente: ninguém queria jogar contra eles. À derrota certa juntava-se aquela chatice de andar a fazer de gato-sapato perante os seus truques de prestidigitação. Saperstein encontrou uma espécie de solução: contratou um saco de pancada, os Philadelphia Spas, para acompanhar os Globetrotters nas viagens contínuas por todo o país. Calcula-se que os Spas terão sido derrotados (e espinafrados) cerca de 16 mil vezes ao longo das décadas mas, no dia 5 de janeiro de 1971, venceram os seus algozes num jogo em Martin, Tennessee, graças a um lançamento no último segundo. O treinador, Red Klotz, comentou assim a proeza: “Beating the Globetrotters is like shooting Santa Claus”.

Hoje em dia, os Globetrotters apresentam-se em cerca de 400 eventos por ano. O povo, esse, corre a vê-los como se fossem os raios negros do verdadeiro circo do Sol.

 

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