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A mentira. Inventando um jogo de futebol ao lado de três gaivotas e um pardal morto

A mentira. Inventando um jogo de futebol ao lado de três gaivotas e um pardal morto

Afonso De Melo 01/04/2020 21:49

No campo forrado de neve, não havia ninguém: o jogo fora adiado. Mas o enviado do Dispatch começou a narrar os acontecimentos como se se desenrolassem à sua frente. As casas de apostas agradeciam e mantinham-se em ação.

O Forfar Dispatch sempre foi o jornal mais lido em Forfar, embora isso não signifique algo por aí além. Afinal Forfar é apenas uma cidadezinha da Escócia com pouco mais de 14 mil habitantes. Também tinha emissões especiais de rádio e uma dela chamou particular atenção do povo naquele sábado de Fevereiro de 1963. Era o relato do jogo entre o Forfar Athletic e o Stirling Albion, em Station Park. O repórter gabava-se particularmente de ser o único espectador presente no estádio para além de três gaivotas e um pardal morto.

O problema do nosso jornalista é que o jogo tinha sido adiado e, portanto, tirando talvez o pormenor do pardal morto, não se passou nada em Station Park a não ser a neve a cair abundantemente a ponto de tapar o relvado por completo.

Esse inverno foi particularmente duro nas terras altas. Um vento gélido afastava as pessoas das ruas e atirava-as para o calor dos pubs. E, com tantos jogos de futebol a serem adiados, prometia levar muitas casas de apostas à falência. Menos aquelas que tinham acesso aos relatos enviados por um determinado e intrépido repórter do Dispacht que arrostava a tempestade para fazer as crónicas dos jogos que teimavam em não decorrer na sua frente: “Desde o primeiro minuto que o Albion se lançou na ofensiva. Lawler, lutando contra um enorme monte de neve na área do Forfar, chutou sobre a barra e a sua chuteira foi junto com a bola. O árbitro teve de esperar pacientemente que ele e os companheiros encontrassem finalmente a bota”. Ouvidos atentos, todos os pormenores descritos, por mais absurdos que fossem, batiam certo para que o negócio continuasse a prosperar. E não era decididamente 1 de Abril.

Com pormenores O homem do Dispatch requintou-se. Não poupou pormenores, desde o avançado Cumming, do Forfar, ter chocado contra um poste e amolgado a testa, sendo obrigado a sair do terreno, ao golo de Reid que desencadeou um momento de loucura nos jogadores da casa que trataram de começar a atirar bolas de neve à cabeça do guarda-redes do Stirling.

A segunda parte foi febril, o que deixou os apostadores com borborigmos no estômago. O Forfar tomou avanço, num lance espectacular de Dick, que amarrou o atacador da bota direita em redor da bola e foi com ela agarrada ao pé até dentro da baliza contrária. O intrépido repórter mantinha-se num ritmo infernal de disparates mas os apostadores queriam lá saber disso. Colavam os ouvidos ao aparelhinho e sentiam a ventania estremecer a voz do narrador. O Stirling chegou a estar a vencer por 4-3, mas o Forfar mantinha-se vivo à medida que os minutos escorriam como gotas de água no cronómetro do árbitro e chegou ao 4-4.

Talvez o mais bizarro deste desafio que nunca existiu tenha sido o facto de muitos dos jogadores terem ouvido as suas próprias proezas sentados ao conforto da lareira. Com a vitória do Stirling por 4-3, os apostadores tiveram com que se entreter em contas. Já o keeper do Stirling ligou ao treinador a perguntar se a vitória em campo alheio dava direito a prémio extra. E ouviu a resposta que merecia: “Tu não. Nem foste convocado, lembras-te?”

 

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