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Daltonix, a poção mágica e os batoteiros das línguas azuis

Daltonix, a poção mágica e os batoteiros das línguas azuis

Afonso De Melo 31/03/2020 21:58

Goscinny entusiasmou-se com os Jogos de 1968 e o sueco eliminado por doping. Astérix teve de pôr fim a um mito.

Se tiverem nas mãos um exemplar de Astérix nos Jogos Olímpícos, cujo texto foi da responsabilidade do há muito desaparecido René Goscinny e os desenhos feitos pelo recém-falecido Albert Uderzo, fixem com atenção a intensidade e a variedade do colorido que leva a maioria dos habitantes da aldeia irredutível da Armórica até Atenas para, nas palavras do chefe Abraracourcix “apoiarmos os nossos rapazes”. Agora que encheram os olhos com essa boa dose de policromia, valorizem ainda mais o magnífico Uderzo, que era daltónico e não distinguia as cores. Algo que não o impediu de deixar uma obra formidanda. Poderia ter ganho a alcunha de Daltonix...

Decididos a participar nos Jogos Olímpicos, reservados apenas para gregos e romanos, nunca, por Toutatis!, os gauleses ficaram tão felizes por, num raciocínio conveniente, term decido passar a ser romanos já que a Gália era, ao fim ao cabo, uma colónia romana.

Assim, entre uns odres de vinho e os javalizes no espeto, puseram-se a caminho da Grécia convencidos que os seus dois atletas, Astérix nas provas de velocidade, e Obélix nas provas de força, viriam carregados de medalhas. Nada seria assim tão fácil.

Em termos de humor escondido, chamemos-lhe assim, este 12º álbum das aventuras do pequenino guerreiro gaulês de grande nariz – Goscinny achava os narizes grandes hilariantes – é, provavelmente, um dos mais brilhantes. Tenho uma simpatia especial pelo único representante da ilha de Rhodes, um matulão chamado Colossus – assumindo o trocadilho da antiga estátua gigante que fazia parte das sete maravilhas do mundo antigo – que não demonstra particular esperteza, pelo contrário, surge como alguém com uma fortíssima escassez de neurónios, mas espanca os adversários com murros capazes de derrubarem um boi.

Doping. Obélix não pode combater com o pateta Colossus porque os gauleses são avisados de que não é permitida nenhuma substântia que melhore a performance dos atletas. Ou seja: nada de poção mágica! Definitivamente! E o gordo (“Quem é gordo!?”) era um poço de “doping” ambulante desde que caíra no panelão do druida Panoramix quando era pequenino.

Nada neste cenário surge ao acaso na aventura. Goscinny entusiasmara-se particularmente com os Jogos Olímpicos de 1968, no México, e decidira começar a planear este ábum logo a seguir. Essa edição dos Jogos ficou para a história do desporto por diversas razões, uma das quais o facto de Hans-Gunnar Liljenwall, um pentatleta sueco, ter sido humilhantemente apanhado com álcool a mais no sangue e ter sido o primeiro eliminado por dopagem. Liljenwall bem pode ter jurado a pés juntos que apenas bebera duas cervejinhas para acalmar os nervos, mas já ninguém lhe tira essa nódoa de medalha.

Encontram-se, portanto, os gauleses perante um dilema moral que, na essência, põe a causa os alicerces da sua ética: ou seja, a de obterem tudo em geral à custa de um produto que os faz superiorizarem-se aos outros. “Doping”, sim, a palavra mais do que correta para ser sinónimo da famosa poção mágica. Aliás, quando se vê encostado à parede por Mordicus, o centurião romano, que os acusa de serem batoteiros, Abraracourcix responde lá do alto da altivez do seu escudo carregado aos ombros por dois desgraçados: “Ninguém nos impedirá de participar. E vamos ganhar! É o essencial!” Vendo bem, para o gordalhão chefe da aldeia, que se quilhem os princípios sagrados do Barão de Cubertain.

Quem gosta da obra de Goscinny e Uderzo, que nada tem que ver com esta nova edição de livros vindos à estampa desde a morte do primeiro, em 1977 – depois Uderzo ainda escreveu quatro álbuns sozinho antes de deixar os infelizes gauleses nas mãos da dupla Jean-Yves Ferri/Didier Conrad –, não pode deixar de olhar para Astérix e os Jogos Olímpicos como algo à parte. A única prova em que Astérix participa é de velocidade. A poção mágica está pronta, num barracão que niguém vigia durante a noite, com o caldeirão sem qualquer protecção. O boato espalha-se pela Aldeia Olímpica. Vai de orelha em orelha até a um dos romanos...

Alegremente, Astérix ainda se mantém na frente da prova quase até ao fim antes de ser ultrapassado pelos romanos que chegam todos ex-aequo. Se os gregos tinham vencido todas as outras modalidades, era um grande motivo de orgulho. Só que Panoramix queixa-se ao juri de que os atletas de Roma estão com as línguas azuis. E isso só pode ser porque, durante a noite, entraram num barracão sem vigilância e abusaram do conteúdo de um caldeirão sem protecção. Todos eliminados! Astérix tem direito à sua palma de ouro.

Em La France de la Ve République: 1958-2008, Jean Garrigues afirma que Os Jogos Olímpicos matam definitivamente o “complexo-Astérix”. Ou seja, finalmente vêmo-lo vencer sem poção mágica. Ou sem “doping”. Essa maldição que nos tem feitos no últimos anos vermos os grandes heróis do nosso empo abandonarem de ves o Domínio os Deuses...

 

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