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Deixem os Discos Girar #2. Miramar Confidencial de David Bruno
David Bruno

Deixem os Discos Girar #2. Miramar Confidencial de David Bruno

David Bruno Renato Cruz Santos Hugo Geada 31/03/2020 19:06

Uma série de graffitis em Miramar deixou a mente de David Bruno em alvoroço. Por todo o lado lia-se nas paredes desta localidade "Adriano Malheiro Caloteiro". Em vez de tentar perceber esta história, o músico criou a sua própria versão.

David Bruno, produtor de Conjunto Corona e músico a solo, tem uma missão. Oferecer uma banda sonora para a realidade que vive todos os dias. Em Último Tango em Mafamude (2018), o produtor nascido e criado em Gaia criou uma narrativa sobre um jovem romântico que vivia os seus dias na freguesia de Mafamude. No seu segundo álbum enquanto artista a nome próprio, Miramar Confidencial, virou-se para uma nova personagem que se encontrava no lado errado da lei: Adriano Malheiro, um empreiteiro caloteiro.

Juntamente com o seu guitarrista, Marco Duarte, os dois músicos criaram um dos melhores e mais aclamados álbuns portugueses, mas deixem o próprio David Bruno explicar o que é Miramar Confidencial.

Primeiro, o contexto:

Miramar e Confidencial podem parecer duas palavras que nada tem a ver uma com a outra mas, no meu disco, complementam-se. Miramar, para quem não sabe, situa-se na orla costeira da minha cidade Vila Nova de Gaia. Confidencial… vocês já vão entender.

Na abertura do meu teledisco vemos inscrições de Adriano Malheiro Caloteiro. Pinturas com as inscrições “Adriano Malheiro Caloteiro” surgiram com abundância em finais de 2018 nas paredes da região, numa extensa área multi- concelho que vai de Mafamude a Silvalde. “Paula-e-AdrianoMalheiro-Caloteiros-15.000euros“ ,”Adriano-Malheiro-Caloteiro“ ,”Casal-MalheiroCaloteiros-2500euros” são algumas das dezenas de inscrições que figuram nos muros da região: praia da Granja, rotunda na Feiteira, cemitério de Mafamude ou Nogueira da Regedoura são locais onde poderá ver o fenómeno com os seus próprios olhos. Muitas já foram apagadas, mas o/ a(s) autor/es/as tornaram a pintá-las por cima, no mesmo local.

A música e o vídeo são o suporte que eu utilizo para lhe contar a história que imagino na minha cabeça enquanto passava pelos supramencionados murais e que aqui lhe apresento neste “ Miramar Confidencial”, um álbum onde uma vez mais o sampling é o principal meio utilizado para dar corpo às ideias e conceitos imaginados por mim e onde quase todos os samples utilizados foram retirados de bandas sonoras de filmes de acção de artistas como Jean-Claude Van Damme ou Steven Seagal. O artwork da capa é inspirado no filme Above the Law - um filme de 1989 que catapultou o então jovem Steven Seagal para a ribalta. Estão agora mais ou menos a entender o “Confidencial”?

Neste disco tornei a trabalhar com o meu guitarrista favorito - o jovem e talentoso Marco Duarte de Barcelos – que aqui continua o seu percurso ascendente iniciado em O Último Tango em Mafamude como solista romântico. Alguns arranjos de teclas foram compostos por Bruno de Seda e tive outras participações que vou expor em baixo.

E agora as faixas:

Bebe e Dorme

Na primeira faixa convido o público a apreciar alguns dos pontos que mais me influenciaram em Miramar. Sítios como Chez Maurice, Bar do Bano e, obviamente, o mítico Horto Flor do Norte. Todos estes sítios estão também representados no teledisco, mantendo-me eu sempre fiel à realidade de Miramar. Depois do convite a viajar até ,Miramar é hora de jantar e o Adriano Malheiro, a personagem que eu represento, não brinca em serviço. “Baby, vem jantar comigo eu sou um bom ouvinte e no fim peço fatura com contribuinte”. Porque apesar de representar uma figura de caloteiro, não quero promover aqui fugas ao fisco.

Com Contribuinte

Segunda faixa do disco que acaba ainda com a última dica de após jantar: “Vamos para casa ouvir a TSF.”

Pausas (#1, #2 e #3)

Em Miramar Confidencial aparecem algumas pausas onde convido pessoas que fingem ser lesados do Adriano Malheiro. Na primeira pausa é o Samuel Úria que precisa com urgência dos 300€ que o Malheiro o emprestou em Monte Gordo para pagar umas scouts. Na segunda pausa é o Fernando Alvim que emprestou 500€ ao empreiteiro e precisa do dinheiro de volta para pagar a revisão da mota. Na pausa três aparece a interação de uma já figura quase pública chamada António Bandeiras, numa descrição da personagem e de uma conversa metafísica com o seu eu.

Aparthotel Céu Azul

Voltando ao que a música diz respeito, há uma faixa que dedico tanto a um local como a uma marca de bebidas que me diz muito. O Aparthotel Céu Azul, que dá nome à faixa, é o local, as bebidas são os sumos incríveis da Gruta da Lomba que eu bebia quando era mais novo. Aqui junta-se o prazer de beber as misturas de bebidas potencialmente foleiras (”Safari“ cola com “Coca da Gruta“ ,”Pisang Ambom” com ”Fruti Gruta“) com a beleza de estar no maravilhoso Aparthotel Céu Azul perto da praia de Miramar.

Interveniente Acidental

Segue-se no alinhamento onde, nesta faixa, convidei o Mike el Nite. Aqui é contada a história de alguém que envolve-se numa espécie de crime, mas que só esteve indiretamente ligado. Um interveniente acidental que, neste caso, é Adriano Malheiro, precisa de ajuda depois se ter colocado num negócio que correu mal, diz ele.

Moita Flores

Aproveitando o mote de participações lanço já também a outra música, Moita Flores, onde tenho um Alferes Malheiro (Minus) a participar. Antigamente era fã do Moita Flores, um agente da PJ que resolvia crimes. Para mim, isto era um tema perfeito para ter uma música num disco que falasse de burlas e de lesados.

N gosto K m Mentem

Uma faixa que me inspirei na época em que era mais novo e que tinha uns miúdos que tentavam roubar as crianças ao pedir o dinheiro para o lanche. Quando algumas crianças diziam que não tinham qualquer dinheiro, um desses miúdos costumava dizer a expressão: “olha, que eu não gosto que me mentem”. Isto ficou sempre na minha cabeça até que, ao construir este disco, lembrei-me desta expressão meio mafiosa que deu título a este tema. Esta faixa tem uma estética sonora muito influenciada nos anos 80, elementos como tarolas à Phil Collins, guitarras cheias de ’chorus‘ e sintetizadores com excesso de ressonância.

Serenata em Enxo1000

Para terminar o disco tenho mais duas faixas, a Serenata em Enxo1000 e o Fim, com a participação de Este Senhor. Dois temas a rematar o Miramar Confidencial, onde canto uma serenata ao "belíssimo" lugar que é Enxomil em Miramar e é também contada outra história de um lesado do Adriano Malheiro que precisa de pôr um fim a estas dívidas todas, de acabar com esta história e se render.

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