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Testemunhos. Filhos em casa, trabalhos dobrados

Testemunhos. Filhos em casa, trabalhos dobrados

jornal i 30/03/2020 20:07

Em tempos de isolamento social, muitos pais veem o trabalho dificultado: têm de dividir os dias entre o teletrabalho e os filhos,  que exigem atenção ao minuto.  De jornalistas a engenheiros, não  há histórias iguais. Alguns têm 
o “cérebro em papas”, outros alinham nas brincadeiras e até já aderiram aos famosos vídeos TikTok: cantam e dançam com os mais pequenos. No entanto, o sentimento é sempre o mesmo: se pudessem escolher alguém para passar estes dias entre quatro paredes, seriam  os filhos os nomeados. 

Joana Andrade. Um queque para apagar as velas  

Onde é que eu estava quando a minha filha fez quatro anos? Ao computador, o mesmo sítio onde estava quando a minha outra filha fez dois. Passou uma semana desde que estou em teletrabalho com três crianças e um marido (incansável). Parece que passaram no mínimo 365 dias. Cinco pessoas – três delas com menos de seis anos – confinadas num T2 com cerca de 100 m2. Se antes não percebia como um bando de pessoas se fechava numa casa a troco de 15 minutos de fama na TV, agora percebo ainda menos.

No primeiro dia de “quarentena”, o meu filho de cinco anos mandou a irmã de quase quatro anos (o aniversário da coitada era no dia seguinte), dizer que a mãe era um caralh*. Bolas, o primeiro palavrão do miúdo, e era logo para me chamar nomes. Contei a uma amiga – com quatro filhos –, que arrumou o assunto: “Diz-lhe que a mãe não é um caralh*, mas é do caralh*”. Ri-me muito, mas não por muito tempo. Novas crises de choro, novos artigos para escrever. Teletrabalho com filhos sabe a trabalhos forçados. E eu já não aguento mais as vozes da Ladybug, do Lego Ninjago ou da Peppa, e ai de mim se mudo de canal. Nem posso ver o Presidente a dizer aos portugueses que decreta o estado de emergência.

Estou no computador, mas devia era estar a brincar com eles, a fazer jogos, plasticina e todas aquelas coisas que psicólogos e especialistas – que não devem estar em modo de teletrabalho com filhos – aconselham. Mas isso simplesmente não é possível. Felizmente, o meu marido agora está em casa. 

Recorro à televisão para os entreter, mea culpa, e quando a mais nova – que fez dois anos a seguir à irmã e também só teve um queque para apagar as velas –, se põe a cantar “lericoooó”, a plenos pulmões, digo que é mesmo igual ao Let It Go do Frozen.

Ao sétimo dia, o meu cérebro já está em papa e raramente me lembro se lhes dei banho ou não. Um deles partiu o dente da frente e só reparámos à noite. No outro dia, a mais nova ficou com cocó na fralda mais de uma hora porque eu não conseguia fazer um intervalo do computador e o meu marido tinha saído. 

Tudo isto parece muito mau, mas não é bem assim. Não escolheria outros quatro para partilhar este tempo de sacrifício que nos é pedido. E a pedir sacrifício, que seja na Quaresma, um tempo em somos desafiados a refletir sobre ele. Já repararam que as cinco primeiras letras de quarentena e quaresma são as mesmas? Fiquem casa. Nós os cinco ficámos.

Filipa Chasqueira. Arrumar nestes dias é uma comédia 

Se o dia-a-dia de uma casa com um bebé e quatro rapazes – entre os três e os dez anos – nunca é fácil, nesta época ultrapassa por vezes os limites do razoável.

Além da agitação e exigência de atenção próprias destas idades – ainda hoje estive a limpar a casa de banho ao mesmo tempo que ajudava um deles a mascarar-se de múmia –, os disparates sucedem-se: na sexta-feira, num pequeno-almoço surpresa partiram meia dúzia de ovos, no sábado destruíram um rolo de papel higiénico e no domingo acabaram com o resto do desinfetante para as mãos. A despensa tem de estar sempre fechada à chave. A comida desaparece a uma velocidade vertiginosa – imagino quando chegarem à adolescência!

Felizmente, começaram as férias da Páscoa, porque os trabalhos que chegavam da escola todos os dias geravam uma pressão enorme. Ao mesmo tempo, o bebé adora estar pendurado no meu colo o dia todo – esteja eu a ajudar nos trabalhos da escola, a fazer o jantar, a aspirar ou a fazer ginástica com eles. Muitas vezes, a alternativa é deixá-lo desarrumar qualquer coisa. Aliás, arrumar, nestes dias, é uma comédia. Quando acabo de arrumar uma coisa, olho para trás e vejo umas dez a serem desarrumadas.

Poderíamos achar que a hora da sesta seria abençoada mas, além de não ter um minuto de sossego, ando com o coração nas mãos com receio de que os mais velhos acordem os mais novos. A juntar a tudo isto, o meu marido está a trabalhar a partir de casa, o que faz com que eu tenha ainda de controlar constantemente a barafunda.
Mas nem tudo são desgraças. Temos um jardim onde eles podem jogar à bola e gastar alguma energia. À hora do almoço, o meu marido levanta-se da secretária e comemos em família. Acho que é a altura do dia mais tranquila e apreciada por todos. Também conseguimos jantar os dois – ele só acaba de trabalhar quando estou a deitar a criançada e às vezes até dá uma mãozinha, o que é inédito durante a semana. A juntar-se a isto, os miúdos estão mais descontraídos, sem pressas, entreajudam-se, brincam uns com os outros, vestem-se como querem, ajudam nalgumas tarefas e têm imenso tempo para dar asas à imaginação. Temos a sorte de morar quase no campo e, com poucos passos, embrenhamo-nos por uma vereda verdejante. Feitas as contas, acho que esta quarentena tem sido uma oportunidade especial para todos.

 

Óscar Rocha. É difícil?  Não, é maravilhoso 

Vamos no quarto dia de isolamento, o quarto dia em que a minha filha não sai de casa, e estou desesperado…não, não mesmo! Os dias são diferentes, a altura é ímpar na nossa vida, expliquei, gosto de falar com ela e dizer o porquê das coisas. Penso ser importante, tem dez anos e uma maturidade pouco habitual para a idade, e falar com ela não é difícil. Sabe que estamos a proteger-nos, a nós e aos outros. Então, o que fazer? Rir, brincar, fazer os deveres e, depois, jogar. Alteramos, criamos rotinas, porque os tempos também são diferentes, não posso obrigá-la a horários e afazeres.
O acordar é livre, ou quase. Acordamos e tomamos o pequeno-almoço sem pressas, apenas a aproveitar a companhia e falando sobre o que gostávamos de fazer. Quase sempre incide em fazer ginástica, depois do meu treino em casa, e seguimos para posições de ginástica que ela põe no YouTube para nós imitarmos. E dura até nos doer os pulsos, as costas ou alguma das articulações que descobri que tenho. 

Entre tratar do almoço, falarmos e rirmos, chegam as 14h30, a hora da responsabilidade. Criei um mail próprio para ela (com a devida supervisão parental da Google), criei o Classroom, Hangouts, e está na hora dos trabalhos enviados pelos professores e das suas aulas diárias com apoio do centro de estudo. Pelas 16h30 acaba, e sabe que estou em teletrabalho, respeita, e vivemos. Existem dias em que me pede para jogar um pouco no PC, que também é importante, outros dias aprende novas coreografias de dança, mas o preferido é gravar vídeos TikTok e mostrar-me as suas façanhas. Às vezes consegue cravar-me para dançar numa pausa rápida, habitualmente antes do lanche, quando falamos e vejo as novas palhaçadas que viu e aprendeu. E a hora de jantar chega rápido com a alegria dela, e depois guerreamo-nos pelas vitórias no UNO, o nosso campeonato, que disputamos todas noites. E como não há regras, se não houver sono há filmes e gomas ou pipocas, que ela aprendeu a fazer e a regá-las com manteiga, seguindo-se um aninhar calorento nos braços até dormirmos. Mas nem tudo é fácil! Conseguirmos ter tempo para tudo, ter paciência porque não estamos habituados a esta nova fase da vida. E ovos mexidos… ela gosta de cozinhar e de mostrar como se faz sozinha, e é sempre ovos mexidos! Se é difícil? Não! É ser pai, o melhor emprego do mundo!

Marta Reis. Como as anémonas agregadoras 

Ainda não tinha contado, mas como a escola fechou na quarta-feira ainda antes da decisão oficial, cá por casa vamos no 19.º dia de isolamento. Nem nas férias grandes tínhamos passado tanto tempo seguido só nós. No fim de semana anterior fomos passear a Sintra e, agora, até ver filmes com pessoas na rua e a entrar em lojas começa a parecer um bocado estranho. A mais nova começou a andar há pouco tempo e tem vindo a adquirir competências motoras com grande rapidez. Aprendeu, por exemplo, a saltar em cima da cama e da mesa da sala, o que dá imenso jeito. Já temos boa parte das paredes de casa riscadas e um telemóvel foi parar dentro da sanita. Mudam-se as rotinas, com o cuidado de fechar portas, esconder vassouras, pás e baldes para evitar acidentes. E se acumular papel higiénico parece ter sido a preocupação mundial, por cá, o que se vai gastando como se não houvesse amanhã são os sacos do aspirador. Tentar manter alguma organização com o teletrabalho pelo meio é difícil. A hora de almoço derrapa, os trabalhos da escola precisam de acompanhamento, ideias para brincadeiras não faltam, mas o tempo, mesmo em casa, com tudo o que tem de bom para nos aproximar, continua sem esticar muito. Já as perguntas multiplicam-se: então mas a avó é o coronavírus?, perguntava logo ao início a mais velha, de quatro anos. O mundo não acaba, pois não?, quis saber da vez em que saímos para um passeio e andámos a abraçar árvores com a barriga para não sujar as mãos. Este fim de semana queria ir ao parque da Mónica e tive de lhe explicar de novo que não podia ser porque o coronavírus – tratamo-lo pelo nome – podia estar nos baloiços. “Mas em todos?”, retorquiu. Parece que sim. Respondeu com graça: “Já sei, faz cópias de si mesmo, como as anémonas agregadoras”, atirou. Digam lá que os desenhos animados não ensinam. Fazemos yoga de manhã, de uma página divertida que encontrámos no YouTube: Yoga Cosmic Kids, que adapta bonecos como o Homem-Aranha ou a Frozen. E que começa com o código supersecreto “namastê”. E já experimentámos uma receita caseira de slime, não pode ser só pão e bolos (amaciador, maizena, corante e óleo – funciona). Seguido de mais uma sessão de aspirador. Tem dito mais vezes que quando for grande quer ser médica – em que aflição devem andar esses pais e famílias. Ficamos em casa também por eles. Ao final do dia, lá volta a pergunta: quando abre a escola? Assim há de abrir mais depressa.

João Santos. Trabalhar primeiro. Brincar depois

Como recusar os apelos dos olhos suplicantes de uma criança de dez anos? Que apenas quer aproveitar a presença do seu pai. É como estar e não estar, tudo em simultâneo. “Trabalhar primeiro, brincar depois”, explico-lhe. Em algum momento do dia isto vai acontecer. E em algum momento do dia, cada pancada nas teclas do computador vem acompanhada por uma culpa abafada. Por estar a cumprir e estar a falhar, tudo em simultâneo – talvez a contenda moral mais adequada neste mundo virado às avessas. A situação é inusitada. E obrigou à redefinição de hábitos e comportamentos. Em teletrabalho, foi necessário criar um espaço próprio e exclusivo onde é permitido trabalhar com o mínimo possível de distrações. Construir uma “fortaleza”, dentro da “fortaleza”. O que nem sempre é fácil ou suficiente: física e emocionalmente. A presença da família dificilmente poderá ser ignorada por muito tempo. A minha filha vive esta experiência pela primeira vez, tal como todos nós. E também ela tem o seu próprio espaço, onde desenvolve as atividades escolares que, entretanto, decorrem à distância. Mas também ela ri, canta ou dança, sem se importar muito com as barreiras imaginárias do adultos. E ainda bem – as portas das casas de família não foram feitas para estar cerradas. São sons para que nenhuma redação nos preparou; e que ameaçam levar para longe a concentração. Existem horários, mas também a presença de uma ansiedade permanente, personificada numa hora de almoço e de jantar que me havia já esquecido de existir. É como se dois olhos espreitassem em permanência por cima do nosso ombro, contagiando-nos e afetando-nos: as crianças desejam sempre resgatar os pais aos seus trabalhos. É uma ótima sensação, não se duvide. Mas que confunde. Numa era em que o apoio dos pais é fundamental no percurso letivo das crianças ou em que as tarefas domésticas são partilhadas, todas as pausas servem para nos desdobrarmos nas missões que sobram: apoiar os nossos filhos, nas suas dúvidas e questões, brincar com eles, arrumar, limpar, lavar e voltar a fazer tudo outra vez. Nos intervalos do trabalho e, muitas vezes, ao mesmo tempo que ele. Tudo no mesmo espaço, durante um dia que começa tal como acaba.


Raquel Barbas. Depois da tempestade vem a bonança 

O Vasco de 2 anos e 10 meses e o Vicente de 9 meses. A idade dos meus filhos está a negrito, para se perceber o quanto está a ser difícil conciliar o trabalho de casa, trabalho da nossa profissão com a logística dos nossos filhos, já para não falar do rombo financeiro. Tento fazer uma rotina igual como se os meus filhos fossem para escola. Acordar, tomar o pequeno-almoço, fazer a higiene, vestir e proporcionar-lhes diferentes atividades ao longo do dia (como se estivessem na escola). O facto de não poderem ir aos baloiços, à rua, ao jardim, torna a tarefa mais difícil, mas tento explicar de uma forma positiva que não o podemos fazer por agora. Até aqui tudo bem. A verdade é que estamos os dois em casa. Mas estamos ambos a trabalhar. O Tiago, como prestador de serviços, perdeu cerca de 80% dos seus rendimentos e neste momento está na procura de soluções a partir de casa para que o rombo económico não seja tão catastrófico. E eu, mesmo estando em regime de apoio aos nossos filhos, continuo a fazer algum trabalho por casa, dentro do possível, para que não exista um impacto tão grande na empresa. Agora estão a pensar que enquanto um trabalha, o outro pode tomar conta dos filhos e vice-versa. Ora, na teoria é assim. Mas na prática não é verdade. Têm dois anos de diferença e os horários e as rotinas deles são bastante distintas. Acabam por nos ocupar aos dois. O que quero salientar, e resumindo, é que somos pais jovens, trabalhadores, empregados e empreendedores. E além de darmos apoio diário aos nossos filhos em tudo, sermos pais, família, educadores, amigos, estamos numa luta em busca de soluções dado que as nossas garantias salariais do momento não chegam para a nossa sustentabilidade mensal. Quero ainda deixar uma mensagem positiva. Quero acreditar que irá ficar tudo bem e como o velho ditado diz: “Depois da tempestade vem a bonança”. Estamos todos na luta e a esperança é a última a morrer. Pelo menos aqui fazemos todos os dias um esforço para tudo ficar melhor. É esta a mensagem que quero passar e é isso que nós, pais, transmitimos todos os dias aos nossos filhos. Positivismo.

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