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Eusébio. Perdido na solidão em busca do tesouro da Sierra Madre

Eusébio. Perdido na solidão em busca do tesouro da Sierra Madre

Afonso de Melo 30/03/2020 15:53

Quatro meses jogou Eusébio pelo Monterrey, numa das histórias menos conhecidas da sua vida. Marcou um golo na estreia, mas tornou-se infeliz.

Eis, um dia, Eusébio, transformado em emigrante. Em busca do dinheiro que as consecutivas recusas das direções do Benfica apresentaram às hipóteses que lhe surgiram de ir ganhar fortunas para Itália ou para Espanha, chegou a Monterrey. Só tinha 33 anos... Quem diria?

Monterrey: cidade industrial do norte do México, rodeada pela Sierra Madre, capital do estado de Nuevo Léon. A América logo ali ao lado. Ou, como eles gostam de dizer, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos. Ouço a palavra Monterrey e consigo imaginar Humphrey Bogart a fazer de Fred Dobbs no filme de John Huston, mendigando em redor até que o sonho amarelo do ouro o leva até à Sierra Madre. Tempos antigos do Cinema Paris, ali à Domingos Sequeira.

Para Eusébio, Monterrey também foi uma espécie de tesouro da Sierra Madre. ”Posso dizer que este é o melhor contrato de toda a minha carreira!”, consolava-se Eusébio, à chegada. Chegava de sorriso rasgado, sairia com lágrimas nos olhos. Os seus joelhos massacrados impediam-no, a cada dia que passava, de ser Eusébio por inteiro.

Mais de 60 mil pessoas encheram o Estádio Tecnológico para ver a estreia do Pantera Negra com a camisola do Club de Fútbol Monterrey, às riscas pretas e azuis: Los Rayados. Jogo particular, de festa, contra o Santos Laguna. Pouco importava. O povo estava ali por Eusébio, pelo grande Eusébio, pelo irrepetível Eusébio. Não deram o dinheiro do bilhete por mal gasto. Mesmo não estando em grande forma, Eusébio da Silva Ferreira teve pormenores formidandos. Gritavam-lhe “olés!” como nas touradas, pouco importa sol ou sombra. Resultado final: 2-2. Eusébio não desiludiu o público: num golpe repentino e colocado, com a cabeça, fez um dos golos da sua equipa. O povo explodiu numa ovação feliz. Eusébio prometera, Eusébio cumprira. Los Rayados estavam impantes de orgulho: Eusébio era seu!

Reencontro Foi Fernando Riera, que tinha sido treinador do Benfica em 1963, um cavalheiro chileno que aceitara o cargo de responsável técnico pelo Monterrey, que convenceu Eusébio a assinar pelo clube. Tentou o que pôde para o fazer feliz, entregou-lhe a braçadeira de capitão logo no jogo inicial, mas debalde.

Não pode considerar-se como fracasso, esse tempo de Eusébio na Sierra Madre. Quando muito, como diria Che Guevara após a aventura no Congo, foi um tempo em que esteve em parte nenhuma. Eusébio chegou a Monterrey e o clube foi campeão da primeira fase, ou fase estadual, do campeonato. Na fase seguinte, já a eliminar, ultrapassou o Cruz Azul nos quartos-de-final (7-2 no conjunto das duas mãos), sendo eliminado nas meias finais pelo Guadalajara (2-3 no conjunto das duas mãos). Eusébio disputou dez jogos com a camisola do Monterrey e marcou um golo. Logo no primeiro jogo, como vimos. Aí sim, deixou o resto das promessas por cumprir. Porque para toda a gente, Eusébio e golo eram sinónimos.

Não ficou muito mais tempo no clube. Estávamos em 1975, sentia-se livre, ansiava por experiências, procurava dinheiro. O tesouro da Sierra Madre não fora bem como ele imaginara. Um certo dia, numa daquelas conversas que se prolongavam pelas horas pós-prandiais, confessou-me: “Talvez tenha sido o pior bocado que passei em toda a minha vida: quando, a certa altura, entrei no estádio deserto para me treinar e me vi sem ninguém, sem amigos, sem companheiros de trabalho, tudo por causa de um problema estúpido com a direção do clube, senti-me profundamente infeliz. Era eu e a minha solidão. Ia ali, àquele campo modesto, perto de minha casa, só para me treinar, pois as minhas relações com o clube estavam más. Queriam pagar-me menos do que estava no contrato e eu não estava disposto a aceitar. Para não perder a forma, saía de casa, metia à montanha e corria, corria, sozinho com os meus pensamentos. E quando corria, pensava: ‘Sou um tipo chamado Eusébio, andei no futebol maior, fui aplaudido por multidões, e estou agora no México, abandonado, incompreendido, longe dos meus, com a minha família desambientada. Isto merecerá a pena? Em que vim eu meter-me?’”

O braço-de-ferro com os dirigentes do Monterrey não se resolveu. Desistiria do México, desistiria de Monterrey, assinou contrato pelo Toronto Metros-Croatia por quatro meses.

O destino tem destas curiosidades ínvias. Eusébio jogou no México muito antes de imaginar sequer que um dia assinaria contrato com um clube mexicano. A primeira vez foi no dia 23 de agosto de 1966, e defrontou o América do México, na Cidade do México – vitória do Benfica por 3-0, dois golos de Eusébio. Voltaria no ano seguinte, em 1967, para jogar novamente na Cidade do México, desta vez num encontro que opôs o Benfica à seleção mexicana. Vitória do México por 4-0. No dia 31 de julho de 1974 ficou finalmente a conhecer a cidade de Monterrey. O Benfica venceu o Monterrey por 4-2 e Eusébio marcou um golo à sua futura equipa. No dia em que abandonou de vez Monterrey foi como se tivesse voltado a marcar-lhe um golo...

 

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