25/5/20
 
 
Um suplemento que agita as águas do esquecimento

Um suplemento que agita as águas do esquecimento

Diogo Vaz Pinto 30/03/2020 13:26

A desmemória e o descaso são os géneros literários que mais vingam entre nós, o que convém: ajuda o escriba a não se sentir esmagado e a não suspeitar que os fantasmas mofam dos seus esforços. Mas quando é congeminada uma edição como a que acaba de resgatar os 26 números do magazine & etc, que se publicaram com o Jornal do Fundão há mais de 50 anos, o pior é que se assobie para o lado, quando o passado invade o presente, e lhe dá sinais de uma força de que nem suspeitava.

Já lá vão 50 anos, e mais uns quantos, nessas contas de muito perder: vidas, entusiasmos, aventuras para que bastavam umas letrinhas em distâncias muito medidas, quando tudo era difícil, fazer um jornal ou um suplemento de cultura era o cabo dos trabalhos, exigia outro estofo. E valia, então, alguma coisa o ter-se estado horas, muito quieto às vezes, sozinho, enfrentando uma garrafa, nuns ânimos de lhe arrancar viagens secretas, circum-navegações que tanto se podiam ficar só pelo quarto, mas fervendo na panela da imaginação que visões? Hoje, nem o sal, que se arrisca dar um baque no coração. E se não faltam veleidades, cascos varados, velas sobre as águas, menos são os que arriscam alguma coisa, e a poucos lhes diz, senão como anedota, essa ideia de um tempo em que “se escrevia gratuitamente pelo prazer de poder comunicar, de, por mérito, pôr em relevo quem a censura do lápis azul procurava desalmadamente aniquilar” (Liberto Cruz). E não era tudo servilismo em torno do ego, propaganda amatilhada, havia um respeito pela inteligência de quem viesse a ler os textos, um princípio de que o leitor não era parvo, e podia até saber já o que lhe dizíamos e até mais. Por isso, “não havia fretes nem benesses”, por isso também, como garante Liberto Cruz, o que se escrevesse nos jornais tinha repercussão. Havia a quem, e levava-se troco, que é o mais difícil hoje.

E isso talvez explique que cada um busque o seu poço, para se gritar lá dentro e contentar-se, achando que o mundo pode ser só aquilo. O regresso de Vitor Silva Tavares a Lisboa fora já ditado por a sua liberdade ter abespinhado quem tinha o dever de se arrepiar com tudo o que fossem sinais de ânimo, vida. “E não demorou que tudo quanto ele escrevesse, mesmo benévolo, mesmo macio, fosse devolvido com um risco raivosamente vincado a tinta azul”, conta Aníbal Fernandes. Já por cá, não demorou muito a radiografar o esquema, a ter o labirinto cheio de anotações, as saídas, os jornais onde ia dando para se fazer tremer os juízos, espalhar pólvora pelo fundo falso a fingir de horizonte. E há depois a decisiva passagem pela Ulisseia, onde fez escola, gizando um programa de insubordinação, e surge então o suplemento & etc, pela sua mão e com alguma orientação de José Cardoso Pires (que mais tarde levaria Vitor para o Diário de Lisboa), e o apoio incondicional de António Paulouro, director do jornal. A 26 de Fevereiro de 1967, sai o primeiro número da folha cultural do Jornal do Fundão, e, com vários percalços, interrupções pelo meio, quatro anos depois, a 11 de Abril de 1971, aparece o último dos vinte e seis números. E é tudo isso que agora se reúne numa edição fac-similada antecedida de um dossier com uma impressionante diversidade de estudos e testemunhos que ajudam a situar esta tão peculiar e vivaz intervenção crítica.

Sem nenhum pó em cima, a primorosa edição faz mais do que recuperar o suplemento, surge-nos apontada ao futuro, traçando o diagnóstico de um vazio, um campo de treino e laboratório deixado devoluto, e diz-nos que está na hora da literatura, “esse triste caminho que pode levar a tudo” (António Maria Lisboa), recolher as tantas redes que pôs debaixo de si, em que se deixou enlear, e avançar funambulescamente pelo fio tenso entre o passado e os nossos dias sem pedir amparo. Se outros o fizeram em condições bem mais complicadas, que justifica tanta hesitação hoje? Logo no texto que dá o toque de clarim para o longo e retalhado prefácio que se vai cosendo entre contributos de gente tão diversa, entre antigos colaboradores do suplemento e leitores que a ele chegaram muito mais tarde, logo na primeira frase desse primeiro texto escrito a quatro mãos, por Rui Pelejão e Joana Morão (respectivamente do Jornal do Fundão e da Canto Redondo, irmanados na tarefa de desencantar dos arquivos este suplemento), se deitam vinte dedos à insanável ferida do virar de costas entre o jornalismo e a literatura. “Houve um tempo em que jornais e literatura eram irmãos. Por vezes desavindos, contraditórios, quesilentos, brigões, mas irmãos.” Não é difícil supor quem faz de Caim e mata Abel nesta história, mas o certo é que esta ferroada certeira, a constatação de um corte que se tem radicalizado, esvaziando a potência dos dois lados da equação, e isto logo a arrancar sem passar verniz nem soprar as unhas, é um sinal de clareza e um repto que de imediato nos corrige a postura. “O jornalismo na sua labuta do quotidiano, pela informação, pela história que se destaca na espuma dos dias. A literatura desprendendo-se do rigor mortis das notícias e fazendo do efémero o perpétuo da condição humana.”

Aí está, sem rodeios, a questão da degenerescência de dois géneros que sempre se alimentaram da rivalidade entre eles, da fecundidade das trocas, do que um aprendia com o outro, entre ganhar proximidade e gerir uma distância, a capacidade de fazer a exumação dos factos entre a confusão dos dias, por um lado, e, por outro, a possibilidade de não se ficar pelo osso, mas revesti-lo de uma carne avantajada, entre o vigor erótico e um certo perfume de fantasia. “Jornalismo, literatura e liberdade, nos dias em que a liberdade era côdea de pão negro que se escondia nos bolsos. A dentada era arte subtil e necessária.” E se hoje, mesmo nas cidades sitiadas por uma pandemia, não tem faltado pão (e do circo nem se fala), o certo é que os jornais nos castigam com a urgência de uma informação que diz mais e menos do que o que importa, que ajuda a propagar vícios de consciência, falhas de apreciação. E tudo com uma rapidez devastadora, sem que nada seja visto à luz de um entendimento mais do que comum, vulgar, sem que o espírito tenha hipótese de levantar as pistas, estudar a anatomia de seja que crime for. As tentativas arriscadas, os erros sérios e comprometidos, em nome próprio, são banidos das páginas dos jornais, para que a opinião prossiga o seu assalto, entre a bulha e o melodrama, cada vez mais estéril, vai-se perdendo a lembrança do tempo em que os jornais “davam santuário e voz” aos escritores, sendo também uma linha da frente para noções menos ansiosas por dividir o espaço em barricadas, conquistar um público que não se estenda desdenhoso no dossel, nuns espreguiçares de imperador, observando os colunistas a brincar aos gladiadores, para cativá-lo, e vê-lo esticar o polegar, fingindo que, os seus humores, decidem alguma coisa.

Nas páginas que se seguem, dispõe-se um verdadeiro enxoval de textos de apresentação ou memória, uns mais pertinentes, outros puxando brasas, alguns mais extensos, mais chatinhos, uns ensaios a demorar-se em minudências, para provar o que se investigou (“Ah, os doutores”). Há muita redundância também. E se se nota que o mito foi bem ensaiado, e as versões não variam muito, cai-se um pouco no desgaste de certas palavras: é a subversão para aqui, a irreverência para ali... Há muita exaltação da coisa em geral, de como nas oito folhas do suplemento se ensaiava uma fértil desordem, uma sabotagem das coordenadas ideológicas, dos alinhamentos num país que, ou bem que via os seus virarem-se para ir arranjar confusão mundo afora, ou, trancados uns com os outros, logo reduziam a grande guerra à escala da mesquinhez, desfazendo-se em rancores e perseguições paralisantes. O que fica a faltar, mais do que vénias para o elenco, mais do que espreitadelas panorâmicas, são leituras mais centradas no que foi aparecendo no suplemento cultural. A maior falha é a eterna preguiça em realmente se deter nas coisas, assinalar no mapa essas inflexões que, em conjugação ou por si mesmas, justificam a fama e infligem o seu proveitoso golpe dos dias de lá até aos de hoje. Faltava, portanto, mastigar um pouco do que lá está, dos tantos textos que exigem uma leitura atenta, crítica; no fundo, provar que se leu, não deixando a ideia de que aquilo é bom mais para folhear, fazer da folheca um canudo para se avistar as grandes naus. Porque temos ali, de facto, assombrosas participações, actos de denúncia e guerrilha, o cheiro a pólvora dos saudosos panfletos e das mais assanhadas prosas. Há alguns exemplos de sangria dos bonzos “rescendendo o mais enjoativo almíscar literário”, figuras não muito diferentes das que temos hoje, um pouco mais cultas, um pouco mais orgulhosas, mais ácidas, disfarçando melhor o seu desejo de que tudo se mantivesse na mesma. Temos ali um Alfred Jarry, sim, e um Henry Miller, também um Lorca a pôr Buster Keaton de bicicleta, homenageando os surrealistas franceses. E temos a linha avançada da poesia lusa, Luiza, Herberto, O’Neill, os antecedentes, pré-publicações de novelas, de alguma da melhor prosa moderna nesta língua (Virgílio Martinho, por exemplo), os ensaios penetrantes de Ernesto Sampaio, ou vândalos de Luiz Pacheco, Pedro Oom, Manuel de Castro. Temos, acima de tudo, gente que vem de todas as partes, diversidade de registos e vozes, mundo-mas-mundo, e apontamentos breves, pérolas desse alento que se arranca a ferros à composição das horas mortas, mistelas bem fermentadas, aquela água de cana, de que fala Cardoso Pires num dos seus textos, o gosto decantado que andou numa garrafa que nos chega às mãos vinda da tal ilha maldita que ficou voejando nas correntes lacónicas do passado.

Assim, se é importante dar algumas lições de História, fazer justiça àqueles que, com o apoio e o incitamento de António Paulouro, e seus generosos modos e bolsos, subiram e desceram os rios, navegando por águas longe e pelo nevoeiro, e nem só pelo gosto de pregar sustos nas esquinas, se vale a pena situar historicamente o suplemento, a ordenha das circunstâncias que vem à baila, numa Europa do pós-guerra, com o Maio de 68 à espreita, umas vezes dá uma ideia de estrutura e outras mais de paisagem. Mais significativo é saber como entre cada inspiração e a frase caída como sombra no papel esteve metida a estupida sensibilidade do imenso nariz da censura. “Em situações extremas”, conta-nos Júlio Moreira, VST revestia-se com a cota de malha da sua subtileza para enfrentar em torneios corpo a corpo o cavaleiro defensor do regime, pouco treinado nesse género de combates, que frequentemente cedia zonas estratégicas do terreno, iludindo-se com cortes, em geral já previstos, nas franjas do seu território”. E a compreensão dessa esgrima em que se enreda e se grita dores fingidas para satisfazer o adversário, diz-nos muito do faro que VST desenvolveu, tendo o editor afirmado, num texto escrito em homenagem a Paulouro, em Maio de 2015, poucos meses antes da sua morte, que esse “foi momento alto da minha já longa trajectória por território da Galáxia Gutenberg”. Por si só, o testemunho de Aníbal Fernandes vale como se cada carácter nos deixasse no bolso um dente de ouro, a descrição impagável de um VST “quase adolescente de cultura e inteligência que o subiam acima dos que lhe davam passos em volta”. Aquele miúdo da Madragoa que desaguara numa Benguela que era, por esses dias, um “paraíso” colonizado de Salazar, extraído às origens pela promessa de um papel num filme que não houve, e como assim, para se safar, deu por si num lugar de amanuense na repartição de Obras Públicas, iniciando-se também nos prazeres do jornalismo em O Intransigente (título com um quê de prenúncio na carreira deste “reacionário de esquerda”). Assim, nesta experiência vão-se vendo os trejeitos e instintos, a acutilância, aquele sumptuário bom gosto posto no detalhe, esse que rasga um sorrisinho todo dentes de fora e que logo inspira cuidados. Há “a escorrida escorreita repensada prosa a tira-linhas” quando faz ele o gosto de de colorir dentro e fora das linhas do idioma, e em tudo se nota o denodo, vêem-se as marcas da inteligência, do fazer correr entre as colunas de texto a água de um olhar multiplicado, experiente, o sentido da composição, que permitiu a VST criar um bairro mental arejado, em que as relações de vizinhança levam a que os gritos de janela a janela se tornem inflamáveis. E vê-se a pontaria, as coisas miúdas que se afinam contra o tédio, as manhas para se dar a volta à gramática como ao coreto, essa vida interior que hoje falta, por haver tanto de que se ocupar, e nada que realmente se deixe afectar. E, assim, vamos percebendo o caminho feito por VST, com a censura à perna, e como isso lhe deu “razão de luta, adrenalina, quiçá um espírito de missão”, como isso se integrou na sua identidade: “senti-me livre, e melhor: a gostar de ser português”. Como o andar para cima e para baixo, estabelecer as linhas de contacto, nessas viagens Lisboa-Fundão, carregado de barras de chumbo para as máquinas tipográficas, como isso tudo lhe deu aquela capacidade de se interessar pela vida com a gente que lá anda, às vezes muito mal, carregando os seus infernos, gente-gente, alguma escrevente, outra com dotes de natureza diversa, pobres diabos capazes de embalar no éden da palheta, contando as suas estórias, fúrias, lérias, como solistas que ele sabia organizar nessa orquestra em diferido que veio a ser o & etc, editora do subterrâneo. E isso tudo nos diz da formação que fez e trazia VST, e porque conseguia topar um piolho na cuca de um escriba que viesse a subir a rua com vontade de lhe passar uns papéis pelo olho, anti-míope, aqueles olhos exploradores de infinidades.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×