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Manuel J. Guerreiro 27/03/2020
Manuel J. Guerreiro

opinião@ionline.pt

Hegemonia mental ou hemorragia verbal?

Devendo ser este um tempo de união e não de divisões estéreis, confesso alguma perplexidade perante o constante bate-post nas redes sociais promovido por todos aqueles que, arrogantemente, se acham o supra sumo da intelectualidade deste país e que são visceralmente contra todas as medidas de confinamento adoptadas por quase todo o mundo civilizado como forma de se combater, o mais eficazmente possível, este vírus letal e cuja profilaxia é-nos aconselhada ao mais alto nível por organizações - que sabem do que falam - como é o caso da OMS. Sendo aceites e partilhadas pela quase totalidade de médicos e cientistas especializados de todo o mundo. E, ainda para mais, corroboradas por previsões estatísticas feitas por gente académica, como matemáticos, entre outros, que têm provado, dia após dia, ter absoluta razão.

Tudo isto tem irritado de sobremaneira certas franjas da sociedade. Designadamente no que à política diz respeito - quer à esquerda, quer à direita -, vindo ao de cima, como azeite na água, os dogmas insuperáveis e castradores da racionalidade, do bom senso e da real importância que cada um desses agrupamentos intelectuais e ideologicamente ortodoxos dão às coisas, às ideias e às pessoas. A todos eles sem excepções.

Ou se preferirmos, é pela forma mais ou menos inflexível como se defendem certas coisas que nos possam parecer normais e razoáveis, que dizemos quem somos na verdade e o que pretendemos na realidade com a nossa própria acção política desenvolvida sempre que nos manifestamos publicamente. Independentemente de pertencermos ou não a um partido político. Não é necessário, nem obrigatório, ser militante partidário para se ser militante ideológico.

A esse respeito, é para mim totalmente incompreensível que muitos destes iluminados que querem que tudo volte a funcionar como se nada estivesse a acontecer - alguns até de quem me julgava relativamente próximo ideologicamente, não stricto sensu ou partidariamente falando, mas sim lato sensu ou do ponto de vista do espectro político -, estejam constantemente do lado oposto àquilo que me parece ser minimamente razoável e aceitável.

Mesmo quando são confrontados com reviravoltas incríveis de quem, inicialmente, tenha tentado ir por caminhos diferentes - tão aplaudidos por todos estes defensores da peregrina e muito dogmática ideia que tanto os aflige, da existência de uma espécie de hegemonia mental que é preciso, a todo o custo, quebrar -, para a seguir aos primeiros relatórios que apontavam para um desastre total caso se continuasse a prosseguir naquela direcção fazerem uma espectacular inversão de marcha...

Ou ainda, quando em nome do combate a essa maldita hegemonia mental se deixam 'liderar' por teorias bizarras como as da "gripezinha" e do "resfriadinho" acompanhadas da inqualificável imunidade ao "esgoto brasileiro" proferidas na primeira pessoa de um triste e profundamente ignorante Presidente da República do Brasil!

Por cá, tudo se começou a acirrar nas redes com a necessidade de se avançar com o "estado de emergência" que de resto não obteve um único voto contra no parlamento, mas obteve algumas abstenções que hoje têm uma leitura muito mais interpretativa do que um simples e cobarde "não me interessa", por não terem tido a coragem de votar de acordo com o que genuinamente ditam as suas consciências.

Parece hoje claro que há, entre nós, quem não se interesse nem se incomode nada com aquilo que todos os dias vemos nos telejornais e em especial mesmo aqui ao lado em Espanha e em Itália, onde a quantidade de vítimas mortais, pura e simplesmente, não pára de aumentar, de dia para dia e há semanas consecutivas, ascendendo já a mais de 15.000 pessoas que perderam o seu bem maior que é vida.  

Parece mesmo que há quem, entre nós, ache que isto é mesmo uma "gripezinha chinesa" sem importância e que os mortos são o que são e que isso não tem nada de especial nem de preocupante. Pois são só velhotes e além do mais custam dinheiro ao estado social que tanto detestam. E, além disso, morrem tantos ou mais de fome e de gripe. Não é assim?

Parece mesmo que há quem, entre nós, esteja mais disposto a estar ao lado dos seus "compagnons de route" ideológicos noutras latitudes europeias e ocidentais, do que estar ao lado do governo do seu próprio país na defesa dos legítimos interesses do seu povo na resposta dada a provocadores miseráveis que destroem o seio da União Europeia ou do que dela resta com as suas hemorragias verbais.

Parece mesmo que há quem, entre nós, não é capaz de, por uma só vez, deixar de ser partidário e ortodoxo nas ideias políticas, para ser magnânimo na defesa intransigente da vida dos seus próprios concidadãos, pondo sistematicamente em causa a bondade que existe no controlo epidemiológico que se pretende ser eficaz no combate ao odioso coronavírus.

É isto ser liberal? Sinceramente não creio.

Eu sou social liberal e não sou adepto de hegemonias de nenhuma espécie. Mas não sou refém de dogmatismos e menos ainda sou, adepto de hemorragias verbais que tendem a potenciar outras formas de hemorragias. Nomeadamente fatais!

Jurista.          

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