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Banca. “Não sei se os empresários vão endividar-se para pagar salários”

Banca. “Não sei se os empresários vão endividar-se para pagar salários”

Miguel Silva Sónia Peres Pinto 27/03/2020 14:04

Economistas ouvidos pelo i aplaudem ideia de Mario Draghi, que defende garantias de Estado para que bancos emprestem a custo zero a empresas. O spread vai variar entre 1% e 1,5%, mas a este valor é necessário acrescentar comissões que podem chegar aos 3%.

“Não sei se os empresários vão endividar-se para pagar salários”. Quem exprime esta dúvida é João Duque, que considera que o sistema financeiro “não vai ganhar fortunas com as linhas de financiamento” no valor de três mil milhões de euros acenadas pelo Governo.

Ao i, o economista admite que as instituições financeiras “estão a ser empurradas para emprestar o dinheiro com a esperança de que vão recuperar esse valor, sem saberem bem como”.

E João Duque acrescenta: “Não sei se os bancos estão muito interessados em emprestar dinheiro para um negócio que pode não ser viável. Os bancos não são a Igreja”.

Em causa está o financiamento que será disponibilizado pelas várias instituições que irão oferecer um spread de 1% a 1,5%, tal como o primeiro-ministro já tinha anunciado. No entanto, os bancos poderão cobrar uma comissão de garantia mútua que pode ir até 1%, valores aos quais se acrescem, além disso, 0,5% de comissão pela gestão do dossiê que o banco pode cobrar, o que eleva os encargos para quase 3%.

Também Filipe Garcia, economista da Informação de Mercados Financeiros (IMF), admite que os bancos também têm riscos ao emprestarem dinheiro às empresas. “Ainda não se sabe bem qual vai ser a garantia do Estado, tudo indica que será até 90%, mas há sempre uma percentagem de risco para os bancos”, refere ao i.

Recorde-se que o líder do Executivo garantiu que entre 80% e 90% do empréstimo poderá beneficiar de garantia de Estado, “consoante o montante”, e que haverá um período de carência de um ano.

“Sem a garantia total do Estado, os bancos não estarão muito interessados em correr esse risco. O que devia ser estabelecido era um limite de valor e por setor”, defende Filipe Garcia.

O responsável aplaude a ideia do ex-presidente do Banco Central Europeu, que defende que é urgente evitar a perda de empregos e de capacidade produtiva, pelo que os bancos devem emprestar dinheiro às empresas a custo zero com garantias estatais a esses créditos. Num artigo de opinião publicado no Financial Times, Draghi defendeu que é necessário mobilizar todo o sistema financeiro face ao choque económico (mercado de dívida, sistema bancário) causado pela covid-19 e que tem de ser feito urgentemente, sem atrasos burocráticos.

Segundo Draghi, esta pandemia é uma “tragédia humana potencialmente de proporções bíblicas” e se são necessárias as medidas tomadas pelos governos para proteger vidas humanas, essas acarretam elevados custos económicos e uma “profunda recessão é inevitável”, pelo que o desafio agora é agir com força e rapidez suficiente para prevenir que a crise se transforme numa prolongada recessão com danos irreversíveis. “É claro que a resposta envolve um aumento significativo da dívida pública”, avisou, com os Estados a endividarem-se para absorver as perdas do setor privado.

 

Moratória avança

O Governo aprovou ontem uma moratória de seis meses no crédito das famílias e empresas. A medida, aprovada esta quinta-feira em Conselho de Ministros, significa que ficarão por pagar 20 mil milhões de euros neste período. “Foi aprovado um decreto-lei que estabelece medidas excecionais de apoio e proteção de famílias, empresas e demais entidades da economia social, para assegurar o reforço da sua tesouraria e liquidez, atenuando os efeitos da redução da atividade económica”, refere o Governo.

No entender no Executivo, “o sistema financeiro tem um especial dever de participação neste esforço conjunto pela sua função essencial de financiamento da economia” e, como tal, prevê a proibição da revogação das linhas de crédito contratadas, a prorrogação ou suspensão dos créditos até fim deste período, de forma a garantir a continuidade do financiamento às famílias e empresas e a prevenir eventuais incumprimentos”.

De acordo com Siza Vieira, esta medida “aplica-se a pessoas que estejam em situação particularmente difícil”, nomeadamente “em situação de desemprego, em situação de lay-off simplificado” ou “pessoas que trabalhem em atividades” que foram encerradas.

Esta medida para apoiar as famílias e empresas penalizadas pelo impacto do vírus é aprovada depois dos trabalhos realizados pela Associação Portuguesa de Bancos, a entidade que representa as instituições financeiras nacionais, e pelo Banco de Portugal.

Na quarta-feira, a Autoridade Bancária Europeia deu luz verde a esta solução, garantindo que não vai pesar nos rácios de malparado dos bancos europeus. O que certo é que, antes desta aprovação vários foram os bancos que já se mostraram disponíveis para dar estas carências de capital aos seus clientes. Foi o caso da Caixa Geral de Depósitos, Santander, BPI, Crédito Agrícola e, recentemente, o Bankinter.

 

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