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Carlos Zorrinho 26/03/2020
Carlos Zorrinho
opiniao

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Coronabonds

Tenho a convicção profunda de que, se voltar a repetir-se um cenário similar ao que se sucedeu à crise financeira do início da década, o euro soçobrará e, com ele, o próprio projeto europeu.

Se a União Europeia não der uma resposta globalmente positiva à crise da covid-19 poderá ser ela própria, enquanto parceria de paz e liberdade, uma das suas vítimas letais.

Não escrevo isto de ânimo leve. Tenho a convicção profunda de que, se voltar a repetir-se, depois da pandemia que estamos agora a sofrer, um cenário similar ao que se sucedeu à crise financeira do início da década, com resgates e punições aos países mais frágeis da zona euro e divisões e fraturas expostas norte-sul no plano moral e económico, o euro soçobrará e, com ele, o próprio projeto europeu, para gáudio dos nacionalistas e populistas que têm vindo a tentar sem sucesso que isso aconteça há vários anos.

É por isso que agora, sem prejuízo da prioridade que é preciso continuar a dar ao combate à propagação da infeção sanitária, ao suporte aos serviços e aos profissionais de saúde e à manutenção dos sistemas básicos, para evitar uma gangrena económica e social, somos chamados também a fazer uma outra escolha vital.

Queremos continuar a lutar pela União Europeia e por uma globalização justa e sustentável, ou, pelo contrário, desistimos dela e voltamos cada um ao nosso castelo e à nossa fortaleza até que as condições fermentem para, como a História nos ensina, começarmos todos de novo à espadeirada, mais ou menos cibernética, biológica ou física, uns contra os outros?

O momento não é propício a retóricas nem a respostas dúbias. A Comissão Europeia soltou as amarras do Tratado Orçamental e o Banco Central Europeu, após as hesitações iniciais, avançou com a primeira fase dum robusto plano de garantia de liquidez para a zona euro. A gravidade dos impactos da crise não permitirá contenções nestes mecanismos. Num cenário moderado quanto ao tempo de controlo da pandemia, não há na União Europeia falta de dinheiro nem condições políticas para não o fazer circular.

O debate sobre as opções deve ser curto, mas claro. Somos uma democracia e, em democracia, as decisões são escolhas baseadas em valores, princípios e programas. Os grupos políticos europeus, unidos no combate à pandemia, terão o desafio e o dever de deixar a sua marca no que for feito. No caso do grupo dos Socialistas e Democratas (S&D), que integro, esse trabalho tem vindo a ser realizado com recurso aos novos meios de trabalho em redes não presenciais, preparando propostas concretas de ação imediata na saúde, na economia, no tecido social, na ciência, na transição energética e digital e nas condições para salvaguardar uma globalização justa e sustentável.

Cooperação e solidariedade, até por terem estado pouco presentes no início da resposta europeia à crise, serão agora as linhas de força de todos os discursos. Mas o algodão não engana. Se a mutualização da dívida e da gestão das taxas de juro não for assegurada, toda a cooperação e solidariedade imediata se desmoronará como um castelo de cartas no momento seguinte.

Completar a União Económica e Monetária e lançar um programa de estímulo à economia através dum mecanismo de colocação de eurobonds com garantia do Banco Central Europeu são medidas críticas de prevenção da fratura económica e social da UE pós-crise que, se não for evitada, conduzirá ao seu progressivo enfraquecimento até à irrelevância e à morte.

 

Eurodeputado

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