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Eduardo Oliveira e Silva 25/03/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Sabemos que pouco ou nada sabemos

A evolução da pandemia é alarmante a todos os títulos.

Não vale a pena iludirmo-nos. Podemos minimizar os efeitos da pandemia mundial com um combate médico, sanitário e económico, mas não temos nenhuma evidência que indique a forma como as coisas vão evoluir em qualquer destes aspetos.

O facto óbvio é que a sociedade mundial e as nacionais estão a colapsar com maior ou menor rapidez e com estrondo, criando uma desordem crescente que é preciso controlar para evitar o pânico e o caos – e objetivamente, nós, portugueses, temos menos meios materiais e humanos per capita do que a Espanha e a Itália.

Portugal pouco ou nada anteviu. O que podemos esperar é uma evolução da pandemia sensivelmente igual à de Itália e de Espanha, eventualmente com menor intensidade porque os portugueses souberam resguardar-se com ligeira antecedência. Mérito da população mais consciente ou mais informada.

Os mais velhos e desprotegidos, nomeadamente os que estão em lares, encontram-se mais expostos e correm riscos enormes e também de abandono, como está patente. A ministra da Saúde foi, aliás, particularmente insensível quando criticou um lar por não ter equipas em espelho que se revezem e medidas de contingência, que ela não soube tomar no setor público. É desconhecer a realidade totalmente. Os casos em residências de idosos são dramáticos. Valeu a imprensa para forçar à ação. Nestes tempos, os jornalistas informam, mas sobretudo vigiam e controlam. É claro que há ainda muito sensacionalismo. Mas ele é preferível à ausência de notícias. É como as redes sociais. Muita mentira, muito boato, mas, feitas as contas, são uma coisa boa que a internet gerou. E nesse ponto é importante referir que precisamente a net liga o mundo e mantém-no a trabalhar em tudo o que possa ser feito à distância, evitando mortalidade. A comunicação oficial portuguesa tem sido hesitante e contraditória. Falta um porta-voz permanente e centralizador, como sucedeu a certa altura aquando dos grandes incêndios.

Cá e em muitos sítios do mundo procura-se manter a sociedade em movimento e a esperança de tempos melhores, no meio da certeza de que tudo vai piorar ainda antes de eventualmente recuperarmos, sendo óbvio que haverá segundas vagas pandémicas.

As nações organizadas sob a forma de ditadura, como a China, ou altamente disciplinadas, como a Coreia e o Japão, são as que mais depressa minimizam os danos. Contam também com uma cultura de distanciamento social que as diferencia dos ocidentais e ainda mais dos ocidentais latinos, que têm contactos físicos afetivos muito maiores, através de abraços, beijos e apertos de mão. Da Coreia do Norte não há notícias, pelo que se espera o pior. Dos países mais pobres do mundo, também não, mas a palavra catástrofe deverá ser a mais indicada quando a pandemia ali se instalar, longe dos média e no silêncio do abandono. Apesar de a doença não escolher entre ricos e pobres, o facto é que sabemos só o que se passa no mundo mais rico.

Idiotas como Trump, Bolsonaro e Boris Johnson tentaram inventar uma via diferente para minimizar o problema e acabaram por agravá-lo fortemente. Têm outros discípulos espalhados pelo mundo, mas que não têm o foco da imprensa em cima.

A União Europeia superou as expetativas e mostrou finalmente alguma coesão, muito por força da sua atual presidente, Ursula von der Leyen, que retificou o tiro de partida dado por Lagarde, que mostrou mais uma vez ser arrogante e incompetente. O que se ganhou na União com a saída de Juncker perdeu-se no BCE com a substituição de Draghi pela francesa. O caminho menos mau é injetar dinheiro na economia e criar os “coronabonds”, que Merkel não rejeita liminarmente. De outro modo, haverá novamente a tentativa de discriminar os países com mais dívida pública, em que Portugal é campeão. A boa notícia é que Centeno fica nas Finanças, e também na liderança do Eurogrupo mais uns tempos. É um elemento essencial, tanto interna como externamente.

Voltando a Portugal, há que não esconder que as medidas sanitárias, os socorros e os meios económicos são insuficientes e descoordenados. Não estávamos minimamente preparados. Faz-se o que se pode com grande generosidade, com um civismo notável, mas não são de esperar boas notícias. A verdade é uma só: perante este cataclismo, ninguém sabe o que vai acontecer. Não há ciência que valha para já, não há economia. Estamos a navegar à vista até se chegar a um porto em que os que aguentarem possam desembarcar e recomeçar a viver, da forma como for possível. As medidas económicas conhecidas são paliativas e de pouco ou nada servirão para evitar o caos, se a crise sanitária não passar. Quando não houver dinheiro, a segurança será inevitavelmente posta em causa. Esse é um momento que teremos de evitar que aconteça.

O nosso Governo cometeu erros crassos com as fronteiras, o Presidente já voltou, depois de uma ausência excessiva, a oposição esteve à altura da crise, nomeadamente o PSD, como partido alternativo de poder, liderado serenamente por Rui Rio. Mesmo assim, António Costa esteve bem. Não propriamente pelo que fez. Talvez mais pela forma como o fez, mostrando calma e segurança. Representou mais do executou. Andou sempre a reboque da sociedade e dos factos. Mas há que lhe reconhecer mérito porque, realmente, a situação é dramática em Portugal e planetariamente. No campo económico, aposta no compromisso entre manter alguma economia e impor restrições de circulação. É sensato. Não segue as políticas dos editoriais do Economist, que alguns pacóvios opinadores de cá seguem, como os sauditas fazem com o Corão. E também não atua no sentido da nacionalização da economia, como outros extremistas de esquerda reclamam. Entre neoliberais e marxistas-leninistas há de estar a solução para controlar e retomar uma vida mais ou menos normal, mas que forçosamente terá de ser muito diferente.

Escreve à quarta-feira

 

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