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Recarei. O Vasco da Gama que veio do Brasil para viver longe do mar...

Recarei. O Vasco da Gama que veio do Brasil para viver longe do mar...

Afonso de Melo 24/03/2020 20:26

José foi ao Brasil casar-se com a sua prometida. Apaixonou-se outra vez: pelo futebol e por um clube que não recusava jogadores negros nem gente das classes mais humildes. Voltou à sua terra e fundou um quase igual.

Recarei: lugar de gente que torce mas não quebra. Pode ter poucas pessoas, cerca de 4600 habitantes, mas está repleto de histórias. Dizem que o nome vem da corruptela de Recaredo, ou de Ricardo. Antigo como a noite dos tempos, remonta, pelo menos, ao séc. xiii, foi campo de batalha da guerra civil entre os absolutistas de D. Miguel e os liberais de D. Pedro, ouviu nas serras que o rodeiam espalharem-se as lendas dos feitos de José Teixeira da Silva, repartidor de bens indivisos, que o futuro aceitou como Zé do Telhado.

O tempo passou. E como o tempo passa... Em 1924, um jovem da região foi envolvido pelas nuvens brancas da paixão ao mesmo tempo que se correspondia com a filha de um emigrante no Brasil, amigo de seu pai. Não demorou muito para que partisse no primeiro vapor onde arranjou compartimento em conta. Foi ao Rio de Janeiro e casou-se. Aproveitou para ver futebol, sobretudo jogos do Vasco da Gama, o clube dos portugueses. Assistiu a um momento único e irreversível: no dia 7 de abril desse ano, a poucos dias da boda, José Augusto Prestes, presidente vascaíno, tomou uma das posições mais francas do desporto mundial de sempre. A carta ficou famosa com o título de “Resposta Histórica”. A nova associação que organizava o campeonato Carioca ordenara ao Vasco que, se quisesse participar na competição, teria de excluir da sua equipa 12 jogadores. O critério baseava-se no alfabetismo desses jogadores sob o argumento canalha: “Controlar de forma mais eficaz a moral do desporto”.

Como não podia deixar de ser, os 12 vascaínos eram na sua maioria negros ou de classes muito humildes. Prestes não teve dúvidas. A “Resposta Histórica” foi uma recusa pura e dura da aplicação da medida absolutamente racista. O dirigente tornou-se uma das figuras mais respeitadas do Brasil.

Portugal José Augusto Prestes nasceu em Portugal, em Lisboa, na zona de Benfica, no seio de uma família abastada. Foi estudar Engenharia para os Estados Unidos e regressou a tempo de participar numa tentativa de derrube da monarquia, em 31 de janeiro de 1891. Passou a ser um homem marcado pelas autoridades, mas não esteve para aturar a perseguição e espionagem contínua. Atravessou o Atlântico em direção ao Brasil. Para não voltar.

Entretanto, José Ferreira da Silva, tomado de amores, casou-se com a sua prometida e manteve-se pelo Rio de Janeiro durante mais uns tempos. Nunca pensou entusiasmar-se tão absolutamente pelo velho desporto inventado pelos ingleses, mas a verdade é que dificilmente o afastavam de um campo de futebol, sobretudo quando o Vasco da Gama entrava em campo.

É no regresso de José a Portugal que a história ganha foros de curiosa. Em 1898, 63 rapazes, quase todos eles portugueses ou filhos de emigrantes portugueses, decidiram fundar um clube no Bairro da Saúde, junto da baía de Guanabara. Como se comemoravam 400 anos sobre a chegada de Vasco da Gama à Índia, deram-lhe o nome de Clube de Regatas Vasco da Gama. E contra o espírito da época, contrariando um snobismo muito próprio de um Rio de Janeiro a imitar o mais possível as grandes metrópoles internacionais, as suas equipas de futebol eram compostas por jogadores das mais variadas origens, negros, portugueses, mulatos, brancos, pobres da classe operária.

Do avesso José Ferreira da Silva deixou-se encantar pela filosofia vascaína. E virou a história do avesso. Em vez de termos portugueses a partirem para o Brasil e a iniciarem por lá as suas congregações sociais e desportivas, agora tínhamos um regressado do Brasil disposto a fundar na sua terra um sucedâneo do Vasco da Gama do Brasil.

Em 1930 deitou mãos à obra. Era sua intenção criar uma organização que atraísse sobretudo a classe operária e lhe permitisse praticar desporto, neste caso sobretudo o futebol, como rapidamente se percebe pelos gostos de José. E assim nasceu em Recarei, antigo curato do arcediago de Aguiar de Sousa, O Vasco da Gama Futebol Clube.

Era indispensável que o novo clube tivesse ao peito a cruz de Malta, que embeleza as camisolas daquele que é uma espécie de seu pai carioca. Mas José Ferreira da Silva era, igualmente, um bairrista empedernido. Manteve a faixa diagonal dos vascaínos brasileiros, mas impôs as cores do brasão de Recarei, o vermelho de bordas de prata e branco, com três espetadelas em azul postas em pala e organizadas em faixas.

A caravela também não falta. Nem, sobretudo, a ideia arreigada de que o clube foi erguido sobre o princípio que serviria para juntar sob a mesma bandeira os rapazes humildes de uma terra de gente que trabalha em condições difíceis.

Filiado na Associação de Futebol de Paredes, o Vasco da Gama está, agora, mais parado do que o resto do país. Abandonou as competições e resta pouco mais do que um episódio supimpa para ir contando. A vida de um homem que partiu para o Brasil atrás do amor e regressou trazendo consigo as raízes de um clube único que merecia ter continuado a medrar. Porque as gentes de Recarei não conhecem nem a desistência nem o medo.

 

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