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Deixem os Discos Girar #1. Endless Voyage dos Sunflowers
Sunflowers

Deixem os Discos Girar #1. Endless Voyage dos Sunflowers

Sunflowers Rita Brandão Hugo Geada 24/03/2020 20:11

O terceiro álbum dos Snuflowers é uma batalha épica entre o bem e o mal. Carlos de Jesus, vocalista e guitarrista, mostra-nos como derrotar o Studiomaster.

Antes de falar do disco propriamente dito, impõe-se explicar o que é afinal esta nova rubrica, Deixem os Discos Girar. Sem me esticar numa descrição demasiado longa, é um espaço onde bandas e artistas podem falar sobre os seus discos, faixa a faixa, descrevendo os processos de gravação, o contexto em que surgiram as músicas ou o que bem lhes apetecer.
A primeira banda a figurar no Deixem os Discos Girar são os Sunflowers. Depois de flirtarem com o garage e o surf rock dos distantes anos de 1960 no seu primeiro álbum, The Intergalactic Guide to Find the Red Cowboy, e de mostrarem as suas influências mais modernas e neopsicadélicas em Castle Spell, adequado a fãs de Thee oh Sees e King Gizzard & The Lizard Wizard, a banda do Porto decidiu ser mais arrojada.
O seu terceiro álbum, Endless Voyage, é também o mais complicado de definir e aquele em que o conceito por trás do álbum mais rugas cria no cérebro, numa narrativa do bem, representado pelas guitarras elétricas, luta contra o mal, interpretado por sintetizadores.
Carlos de Jesus, vocalista e guitarrista da banda, guia-nos neste confronto e conta-nos como foi a batalha contra o Studiomaster e o segredo para o vencer.

Prologue

Quisemos que o álbum começasse como se estivéssemos a acordar. A melodia é flutuante e frágil enquanto cresce e preenche o silêncio que estava instaurado. Começa a viagem.

Defective Machine

Esta música nasceu de uma piada que o Fred e a Carolina tinham. Não me lembro se foi algo que eu disse e eles acharam piada, sei que, enquanto eles tocavam isso, pus-me a brincar com os efeitos e sintetizadores que tinha na sala e surgiu a parte inicial da música. Estávamos todos numa onda de improvisação e, sem pensar muito, fomos para o que nos era natural. O nome da música vem da mesa de mistura com que gravamos a demo que tinha alguns faders estragados e knobs perros. Nem sequer pensamos em juntar vozes e fun fact: tornou-se a primeira música instrumental de Sunflowers.
Esta música foi uma das que foram gravadas por nós em Arouca no Verão de 2018, antes de arrancarmos em tour europeia. Mais tarde regravamos na ARDA Recording Co.

Forest Winds (Interrupted)

O riff desta música foi feito na brincadeira, a tentar simular as bandas sonoras de RPGs de quando era miúdo. Um dia a Carolina estava a brincar com Casiotone e começou a tocar a música com uma batida por cima. Ficou tão bem que fui a correr montar as coisas para gravarmos a musica, antes que ela se esquecesse. Depois foi só brincar nos overdubs.

A Conflict Taking Place

A primeira faixa com voz do disco e a que, de uma certa maneira, conta a história do conflito que quisemos criar: a máquina maléfica Studiomaster e o herói adormecido preso na simulação.
Achei que ficava bem se a maneira como o narrador conta a história fosse um pouco teatral, um bocado inspirada naquelas personagens onde um homem considerado louco diz que o mundo vai acabar, mas toda a gente passa e ignora, totalmente desconectado da realidade que o assombra. O final abrupto mostra isso, passando do caos para a próxima música...

Dreaming of Distant Shores

Presos na simulação novamente, tentando esquecer os azares da vida e pôr a cabeça noutro lugar. Penso que esta música é perfeita para sonhar acordado. Também é um óptimo ringtone para estares em espera. Também é boa música de supermercado. Também é um óptimo despertador. Também é... vocês perceberam.

Dreamweaver

Nós fizemos esta música em 2016 ou 2017 e era a nossa música de soundcheck. Na altura não tinha letra e só dizíamos "Pa pa pa pa". Quando estávamos a gravar as demos em Arouca, decidimos pegar na música com outra perspectiva, mais englobada no conceito do disco. Dreamweaver vem do verbo weave, que significa tecer. Neste caso, é um tecedor de sonhos. Referindo-se ao nosso vilão, claro.

Marble Gallery

Esta música foi inspirada numa experiência que tive ao ler o Sirens of Titan do Kurt Vonnegut enquanto ouvia o Láctea do Tó Neto. Criou-me uma imagem mental de uma galeria grega em Titã, lua de Jupiter. Um corredor interminável e deserto na vastidão do espaço. Não sei se conseguimos obter essa vibe mas estamos bastante orgulhosos do resultado.

Oscillations

Talvez tenha sido a única demo que tocámos ao vivo antes de a gravarmos. Uma espécie de teste drive antes da compra. Pulsante e hipnótica qb, acabamos por entrar num transe a meio da batalha e não conseguimos recuperar o fôlego. Há um pormenor na demo que não conseguimos passar para a versão do disco e isso ainda é algo que me chateia um bocado quando ouço a música, mas é uma das minhas músicas favoritas do disco e é super divertido tocar, com as condições certas acabamos mesmo por entrar numa espécie de transe. É o poder da música.

Contemplation

Acho que foi aqui que fugimos mais da identidade de Sunflowers. Basicamente, eu a Carolina criamos um muro com sintetizadores e uma drum machine na nossa sala em casa e começamos a experimentar com os sons. Ela criou uma batida e a partir daí fomos naturalmente acrescentando camadas. Quando acabamos a música ouvimos em loop umas 20 vezes. Foi um momento de contemplação total e é daí que vem o nome da música.

Endless Voyage I

Acho que acabamos esta música umas horas antes de começarmos a gravar. Mais uma vez decidimos usar uma linguagem mais teatral, mas desta vez inspirada num Jello Biafra [ex-vocalista dos Dead Kennedys] completamente alucinado. O contraste da minha voz com a da Carolina é um jogo desconcertante e cria toda uma atmosfera sombria à música. A ideia dos coros foi com essa mesma intenção, de deixar as pessoas um bocado desorientadas no meio da viagem.

Endless Voyage II

Esta música aconteceu quando estive a brincar com loops e samples da Endless Voyage I. Foi aqui também que quisemos que houvesse a maior quebra do disco e ficou uma camada noise/ambient por cima da tempestade. Um pouco como um aftermath da batalha, em que o herói pára um momento para respirar.

Epilogue

Gravada totalmente em Arouca. Foi tudo improvisado. Primeiro a Carolina fez a batida e percussão, depois o Fred juntou o baixo e eu juntei os teclados. Foi algo mesmo espontâneo. Serve como a conclusão da história, o momento em que o herói se transforma no vilão e há um fecho do ciclo.

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