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Afonso de Melo 24/03/2020
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Um nó na garganta

Como dizer um coração fora do peito?” Ninguém nos libertará desta distância se não houver poetas que saquem do coldre as armas da brandura e disparem flores sobre as quais caminharemos, sobre os nossos sonhos. Acredita e não desistas: este beijo tão carregado de amor.

Não sei se é a morte da ternura ou apenas um intervalo. Quem resolveu ter o direito de nos roubar os abraços? Porque não posso beijar a testa do meu pai com toda aquela meiguice que ele me ensinou, por completo, do princípio ao fim, toda por inteiro? E como encosto, agora, os meus filhos junto ao peito para que eles possam ouvir um coração que, por causa deles, teima em transbordar, e eu tão perdido? Quem ordena este assassinato do carinho? Respondam-me que não sei. Não te posso dar a mão e passear contigo pela rua como se o mundo fosse absolutamente infinito: tiraram-nos a rua, tiraram-nos as mãos umas das outras, por mais que as minhas chorem pelas tuas. Da janela pela qual olho, o Sado corre para parte nenhuma.

Pessoa ensinou-nos: “Há barcos para todos os portos menos para a vida não doer”. E eu aprendi com o Manuel Alegre que gostar de ti é um poema que não digo, nesta vida diferente que quer matar a poesia. Bem sei, bem sei, o coração transborda e eu sem navio. Mãe! Com ponto de exclamação. O tempo passou por ti, por mim, por nós todos. O teu tempo contado em anos: 80. Hoje mesmo, 24 de março. Um abraço que fica por dar. Mais um abraço que fica por te dar. É isso que nos mata de verdade, entendes? Este mal sem nome que os sábios não percebem, mas se transformou no vírus da maldade. Um beijo que fica por dar; mais um beijo que fica por dar. Quem nos devolve todo este carinho que nos roubam, hora a hora, sem fim à vista? Há vozes ao longe que prometem: é amanhã… tudo voltará ao seu lugar... Amanhã pode ser tão longe mas é já amanhã. Mãe! A profundeza de um nome. Onde está a tua ternura, aqui onde até já os pássaros desistiram de cantar? Penso em ti, no teu olhar claro, verde, de um verde transparente como tu. “

Como dizer um coração fora do peito?” Ninguém nos libertará desta distância se não houver poetas que saquem do coldre as armas da brandura e disparem flores sobre as quais 

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