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José Cabrita Saraiva 24/03/2020
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Guerra e paz

Para quem possa dar-se a esse luxo, talvez seja altura de procurar a paz na sua casa e no seu espírito. Altura de desacelerar. Será que faz sentido continuar a ver o mundo como uma corrida desenfreada em que todos querem ser os primeiros, mas chegam à meta e não encontram lá o que procuravam?

Nos últimos dias tem sido repetido à saciedade que está em curso uma verdadeira guerra. Uma guerra não de homens uns contra os outros, mas contra um inimigo comum, microscópico e invisível. De facto, na linha da frente – nos hospitais, mas também nas redações da comunicação social, nos supermercados ou nos centros de atendimento do SNS24 –, o cenário é de conflito: “soldados” combatem até à exaustão esse inimigo que provoca baixas e semeia a morte.

Mas isso será na frente de batalha.

Graças ao recolhimento forçado, a vida assumiu na retaguarda uma feição de calmaria, um ritmo distendido, uma paz que faz pensar em épocas mais recuadas. Porventura enganadora, mas paz. Uma paz como muitos nunca tinham sentido nas suas vidas.

Mas todos precisamos de emoção para quebrar a monotonia. Seja por isso, seja por solidariedade para com os que estão na frente de batalha, há quem na retaguarda opte na mesma por manter-se em estado de permanente alerta. Quem não prescinda de consultar freneticamente o telefone à procura das últimas notícias, da mais recente tragédia, dos números da calamidade.

É perfeitamente legítimo. Todos queremos estar informados – e temos excelentes motivos para isso. Mas o estado de alerta permanente gera, evidentemente, ansiedade – se não paranoia –, além de uma dependência cada vez maior dos pequenos ecrãs luminosos.

Para quem possa dar-se a esse luxo, talvez seja altura de procurar a paz na sua casa e no seu espírito. Altura de desacelerar. Será que faz sentido continuar a ver o mundo como uma corrida desenfreada em que todos querem ser os primeiros, mas chegam à meta e não encontram lá o que procuravam?

Esta talvez seja a maior oportunidade das nossas vidas para dedicarmos mais tempo à reflexão, à família, aos amigos (ainda que à distância),_ao lazer. Também ao trabalho, claro – fazendo coisas bem feitas, duradouras e com um propósito.

Todos aqueles que têm a sorte de estar longe da frente de batalha podem ocupar-se com atividades pacíficas e enriquecedoras. Como a leitura de jornais, de revistas ou de livros: seja o i de hoje, seja o romance de 1869 de Tolstoi, que curiosamente até foi o primeiro repórter de guerra, quando cobriu o conflito da Crimeia.

(P.S. Se me senti autorizado a reproduzir o título da obra do grande escritor russo foi porque também este se inspirou no livro homónimo de Pierre-Joseph Proudhon, La Guerre et la Paix, de 1861.)

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