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As ressonâncias do que rói as unhas da incerteza

As ressonâncias do que rói as unhas da incerteza

Jornal i 23/03/2020 23:27

Por estes dias, das páginas dos livros de História ou das história alheadas daquilo que vivemos, os personagens deitam o seu olhar inquiridor, curiosos ou comovidos, alguns tendo vivido terrores piores, alguns fazendo-nos avisos, outros rindo-se da nossa sorte, enquanto temos de ficar quietos, escondidos, enquanto o vírus, lá fora, faz as rondas, e cheira as moradas tomadas pelo medo.

Talvez pudéssemos contar o que nos está a acontecer como se tivessem já passado alguns anos, mesmo décadas. Distanciarmo-nos friamente deste dias, e alinhar os eventos desta história verídica que não deixa que sobre ela se forme outra perspectiva que não a de uma certa incredulidade. Estamos a chegar perto de finais de Março, em breve estará aí o mês de Abril e com ele, com a mais estranha das Primaveras em muitos anos, os versos iniciais de "A Terra Devastada”, de T.S. Eliot irão adquirir uma profética razão: “Abril é o mês mais cruel, gera/ Lilases da terra morta, mistura/ A memória e o desejo, agita/ Raízes dormentes com chuva da Primavera./ O Inverno aconchegou-nos, cobriu/ A terra com o esquecimento da neve”... (Tradução de Gualter Cunha). Por estes dias, o que parecia certo deixou de o ser. Ninguém consegue saber que sentimento lhe inspira o futuro. Amanhã seria um dia igual a tantos, com a cidade agitando-se entre o movimento das pessoas indo para o trabalho, apanhando o eléctrico, o autocarro, metidas em intermináveis filas, dentro do carro, buzinando, diluindo-se em tarefas árduas, estaríamos distraídos, mergulhados “nessa grande mentira decente do trabalho, com esses pequenos gestos em que se concentra uma verdade muda, decorosa, na qual toda a epopeia da nossa existência se resume a uma pantomima diligente” (Éric Vuillard, A Ordem do Dia). Mas agora nem isso temos. As manhãs despertam e são mais os pássaros, que ganharam a cidade, enquanto o ruído se aligeira. Chega um livro pelo correio, o mais recente número da revista de poesia e tradução "DiVersos", onde pode ler-se um breve poema estranhamente apropriado ao momento: “Descrever a peste/ da alma pela língua,/ sua intérprete. Que isso/ aconteça não está/ no poder humano.” Quando o autor, Carlos Sousa de Almeida, escreveu este fragmento, não poderia supor a estranha ressonância que viria adquirir na altura da sua publicação. São os acasos que, no limite, decidem as nossas vidas. Vamos imaginar que tudo isto é uma história feita de histórias que agora ganham outros sentidos, oferecem-nos os seus avisos e um estranho conforto. Podemos tentar escrever ficções curtas, do tamanho de suspiros, para obrigar estes dias a confessarem o melhor e o pior, o fascínio diante de uma hora em que tudo parece incerto. Há já antecedentes que nos dizem que isso pode ser imensamente produtivo para os poetas. Entre meados de 1592 e o final de 1594, nos dias em que a peste assolava a Inglaterra, os teatros londrinos foram encerrados, e houve várias companhias que acabaram por falir. Shakespeare ficou confinado à sua residência, e não deu o tempo por perdido. Escreveu as peças “Vênus e Adonis”, “O rapto de Lucrécia” e o “Rei Lear”, e conclui o volume dos seus célebres sonetos. Não era certo que as suas peças viessem a ser encenadas, e o bardo concentrou as suas forças em arrebatar não o público que se acotovelasse na plateia, mas esse em pose displicente, que se debruçava sobre os seus versos desafiando-os a provocarem algum sobressalto. As duas primeiras peças deixaram-se desviar da acção, e Shakespeare quis provar o vigor da sua lira, mostrar que podia provocar uma hipnose no leitor silencioso e que julgava o teatro como algo de menor, uma forma de criação que não tinha muito a ensinar à literatura. Quanto aos sonetos, só em 1606 seriam publicados, e, por esses dias, apenas circulavam manuscritos entre os amigos de Shakespeare. Aqui fica um, o XIV, em tradução de Ivo Barroso, e que também salta todos estes séculos para se pôr diante de nós para nos fazer sentir mais fundo o que sempre soubemos.

Dos astros não retiro entendimento

Embora eu tenha cá de astronomia,

Mas não para prever a sorte, o intento

Das estações, ou fome, epidemia;

Nem sei dizer o que será do instante,

Prever a alguém quer chuva, ou vento, ou raio;

Se tudo há-de sorrir ao governante

Segundo as predições que aos céus extraio.

Dos teus olhos provêm meus atributos

E, astros constantes, leio ali tal arte:

“Que a verdade e a beleza darão frutos

Se em ti deixas de tanto reservar-te”;

Ou um vaticínio sobre ti revelo:

“Teu fim põe termo ao verdadeiro e ao belo.”

 

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