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Coronavírus: no início da viagem e já todos com falta de ar

23/03/2020 15:52

Sendo médica, cidadã, gestora, filha, prima, amiga, neste momento, alerto toda a comunidade para quatro premissas importantes:

1. Todos os indivíduos estão infectados até prova em contrário.

2. Os seniores têm mais risco de morrer da doença.

3. Os jovens terão mais risco de morrer das consequências económicas.

4. Todas as outras doenças sazonais, como a gripe, as amigdalites, coexistem com o COVID-19.

5. Todos os outros motivos de urgência, como enfartes AVC’s, continuarão também a existir. No meio deste caos, como serão os cuidados de saúde necessários a estes casos?

O primeiro ponto parece um pouco alarmista, mas é a verdade. São diversos os relatos de colegas meus, médicos, referindo que utentes assintomáticos, que se encontram ou recorrem a serviços de saúde por outros motivos, e que não referem sintomas de COVID-19,  apresentam achados clínicos que, após realização do teste, positivam ao novo coronavírus. A boa noticia é que, no ambulatório, a maioria dos casos apresentam sintomas ligeiros. No entanto, não sabemos ainda, apesar de identificados alguns dos factores de risco, aqueles que evoluirão para uma doença mais grave e, portanto, com necessidade de cuidados hospitalares. Neste sentido, é clara a importância do controlo de sintomas de cada indivíduo. Nesta fase da epidemia, todos sobejamente conhecemos as principais medidas a tomar, podendo, no entanto, ser consultado no meu artigo anterior.

Do ponto de vista operacional, um utente que apresente sintomas, recorre às linhas da Direção Geral de Saúde. O primeiro obstáculo é o atendimento. As linhas estão sobrecarregadas e os utentes não obtêm resposta. Ficam em estado de alerta e ansiedade. Por este motivo, com ou sem sintomas válidos, recorrem, erradamente, aos Cuidados de Saúde Primários (centros de saúde).  Estas estruturas não estão preparadas para receber utentes infectados, a começar pelo equipamento usado pelos próprios profissionais de saúde. Assim, neste momento,  existem centros de saúde encerrados, uma vez que toda a equipa se encontra de quarentena, devido á existência de profissionais infectados pelo vírus.

Numa boa jogada de sorte, vamos supor que as linhas da Direção Geral de Saúde  dão resposta, atendendo o telefone. O utente refere os sintomas e são validados os critérios clínicos (mesmo estes desatualizados, já que existem sintomas que começam a ser descritos agora e não estão contemplados nestes critérios).  O utente fica contente porque valida todo o inquérito, mas: surpresa (!!!); como não são validados os critérios epidemiológicos (contacto PRÒXIMO com COVID-19 positivo ou viagem a país do cordão sanitário), o caso do utente não é validado e, portanto, não realizará o teste. Caros, cabe-me dizer que neste momento e, indo de encontro ao ponto um supracitado, todos estamos em contacto próximo com alguém infectado, ou em locais de risco (estudos recentes esclarecem em que espaços e com que duração o vírus sobrevive, sendo ainda controverso). Acresce, ainda,  que todos “estivemos”  num país do cordão sanitário, sabem porque? Porque vivemos nele! Portugal está no foco da epidemia.

Em suma, o doente que apresente sintomas deve fazer o teste, independentemente de ter viajado, ou de ter estado em contacto próximo com alguém COVID-19 positivo. Portanto, a validação do caso clinico terá que ser  independente do preenchimento dos critérios epidemiológicos. Estudos recentes, vindos da população chinesa, indicam que 79% dos doentes positivos a COVID-19 têm origem desconhecida, corroborando o desajuste dos critérios epidemiológicos. No entanto, não se pode esquecer que doentes que não tenham sintomas apresentam uma taxa importante de falsos negativos, dando uma falsa sensação de segurança. Desta forma, os testes de diagnóstico apenas se aplicam aos utentes que apresentam sintomas.

De acordo com a realidade que neste momento vivemos, é lógico, para todos, que não fará sentido ser apenas os profissionais de saúde das linhas da Direção Geral de Saúde a validarem os casos candidatos à realização do teste. Qualquer médico, principalmente o especialista em Medicina Geral e Familiar, deveria poder dar acesso à realização do teste de diagnóstico a toda a população clinicamente válida. Existem casos clínicos evidentes de infecção COVID-19 que, nós, médicos de família, não conseguimos validar. Isto implica que não conseguimos preencher as baixas médicas ao abrigo da quarentena (aqueles documentos que permitem a ajuda do estado e da segurança social) e , portanto, os nossos utentes contam com a boa vontade e compreensão do seu médico assistente e da sua entidade patronal. Caso não haja este entendimento, os próprios utentes, que são os recursos humanos das empresas, irão para os seus próprios postos de trabalho, correm riscos de saúde e colocam em perigo todos os seus colegas.

Entidades privadas têm desenvolvido linhas de apoio e esclarecimento à população. O que ajudará a descongestionar as linhas centrais.

É importante, por isso, deixar um recado:

  1. deixem cair por terra os critérios epidemiológicos.
  2. possibilitem que especialistas em Medicina Geral e Familiar, e os restantes médicos, validem os casos suspeitos a COVID-19
  3. incluam a teleconsulta

Estou certa de que chegaremos a bom porto, se todos nós fizermos a nossa parte e se vivermos o dia a dia, segundo as normas de segurança. Não fomentem as fake news, saibamos reagir assertivamente, esperemos pelas informações de estudos credíveis e pela experiência dos profissionais de outros países. Em jeito de piada, e a propósito do “COVIDIZER”, como diz o mais carismático dos ex-traders do mercado: “Diz um amigo de um amigo meu: sabes o que vai acontecer amanhã? Não tenho uma bola de cristal.” Nem eles, nem as folhas de Excel.

Fiquem em casa.

 

Especialista em Medicina Geral e Família

 

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