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António Galamba 23/03/2020
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Não estávamos preparados para isto. Ninguém está

Podíamos ter feito muita coisa de forma diferente. Mas agora de pouco importa, o foco é no reajustamento dos comportamentos individuais, na contenção do surto e no apoio aos que precisam de ser tratados.

E, de repente, a ficção e a realidade teórico-longínqua dos grandes contágios entraram-nos pela vida adentro, logo a nós, confortáveis protagonistas das sociedades ocidentais, dependentes da luz, da net, das máquinas e de toda uma parafernália de bens e serviços, erigidos para a previsibilidade, o conforto e a qualidade de vida.

A normalidade da vida num território europeu, sem guerras, com ténues tensões, com livre circulação e com padrões de vida que, na generalidade, são muito acima dos fruídos noutras latitudes, remeteu a interiorização dos riscos para pontos remotos do azimute dos portugueses. Em tempo normal, não incorporamos o risco nas opções, nos comportamentos e nos ritmos da nossa vida, pelo que o nível de resiliência é inferior ao que devia ser, num território de riscos históricos, como os sísmicos, e de riscos emergentes associados às dinâmicas reais e digitais.

Os mesmos que, em cada fenómeno meteorológico extremo ou em cada expressão das alterações climáticas, perante os impactos negativos, nos interpelam a debitar de imediato os prejuízos, fustigam-nos com a pergunta se estamos preparados, se fizemos tudo e se temos capacidade de responder ao maior desafio de saúde pública dos tempos modernos.

A ânsia da tranquilização pelas palavras, mesmo que em divergência com a capacidade instalada ou com a fragilidade do conhecimento existente perante uma nova realidade, dinâmica e potencialmente letal, contrasta com a incapacidade própria para estancar as sangrias de leitores e para se adaptar aos novos hábitos de leitura de notícias e da configuração de canais próprios de informação, com as fontes que resultam de opções individuais de gosto e de aferição da fiabilidade.

Não, não estamos preparados, nem ninguém está.

Temos contra nós a normalidade, o ADN do desenrasca, a condescendência com a sustentada fragilização de pilares essenciais da preservação da vida, da saúde à emergência, a falta de rotinas de superação das quintinhas e outras expressões da habilidade, improviso e falta de exigência.

Temos contra nós um exercício cívico que se calibra pelo nível espelhado nas redes sociais, nos comentários mais ou menos anónimos de notícias online e na condescendência com quem exercita a responsabilidade política.

Mas claro que no meio de tanta configuração errada para os riscos e os desafios do nosso tempo, para os comportamentos que se impõem, há também a emergência do melhor dos sentimentos e dos comportamentos individuais e comunitários, quantas vezes a indicarem o caminho às decisões políticas que se impõem.

Precisamos do melhor de nós para enfrentar o maior desafio de saúde pública da nossa história recente, num quadro em que os cortes abruptos dos ritmos de vida exigem ajustamentos súbitos que alguns teimam em não acatar.

É tempo de ficar em casa, de sair para o estritamente necessário, de manter a ligação com os mais próximos e de o fazer por respeito a quem tem de sair para trabalhar, alguns na primeira linha do combate médico à pandemia, da venda de medicamentos aos cuidados hospitalares.

É tempo também de quem tem de preencher tempo de emissão ter o senso mínimo de respeito por quem está na primeira linha do combate à covid-19, não confundindo a árvore com a floresta, desesperadamente à procura de pequenos casos que afetam a dignidade e o trabalho de milhares que nas farmácias, no transporte de doentes, na segurança, nas enfermarias e nos estabelecimentos de saúde já estão exaustos, quando o pico da tormenta ainda está longe.

Podíamos ter feito muita coisa de forma diferente, ao longo de décadas, da última legislatura e das últimas semanas. Mas agora de pouco importa, o foco é no reajustamento dos comportamentos individuais que ainda não perceberam o que aí vem, na contenção do surto e no apoio aos que precisam de ser tratados.

As pujantes realidades de Itália e Espanha, com perfis comportamentais com convergências com o nosso registo em normalidade, contrastam com a situação da Alemanha, em que um elevado nível de infetados se traduz num menor nível de mortes quando comparada com outras longitudes.

Em boa parte, será tudo uma questão de caudal das necessidades de cuidados de saúde, da capacidade de resiliência do sistema de saúde e do nível de exaustão dos profissionais.

Ficar em casa, conter o surto e encontrar os equilíbrios domésticos e sociais adequados é vital para a dimensão da tormenta e as condições de saída deste desafio de saúde pública.

Com uma estratégia de graduação da resposta e das medidas em função da evolução e dimensão do surto, na procura de um equilíbrio entre combate à pandemia e manutenção de mínimos de funcionamento da economia e da sociedade, é bom que a concretização dos anúncios para as pessoas, as instituições e as empresas tenham uma eficácia nunca vista.

Quando até a Europa compreende a gravidade da situação, aciona cláusula de exclusão do Pacto de Estabilidade e Crescimento e elimina teto de 3% para o défice dos Estados-membros, é bom que em Portugal se recorra a tudo o possível para nos manter à tona da água deste tsunâmi.

Não se compreende, por exemplo, porque num quadro de necessidade de reforçar os rendimentos das famílias, alguns com reduções por ficarem em casa ou por perda de emprego, não se antecipa a devolução do IRS aos contribuintes. Se a ideia é guardar essa medida para o relançamento da economia, lá para junho ou julho, não faz sentido. Em casa, com o horizonte de incerteza que se posiciona, não é provável que essas quantias se esfumassem em consumo imediato, mas para alguns seria importante para esta fase de sobrevivência.

Portugal, a Europa e o mundo estão confrontados com um dos maiores desafios de saúde pública.

Este é o tempo para cada um fazer o que é adequado e que nos mandam, por respeito a quem está na primeira linha do combate e do fornecimento de bens e serviços essenciais, porque os exemplos disruptivos de desvalorização, egoísmo ou estupidez, em Itália, em Espanha, no Brasil ou nos Estados Unidos da América, tem as projeções visíveis no contágio e no número de vítimas.

Não podemos reescrever a História, mas podemos ditar o presente e o futuro. Fiquemos em casa.

 

NOTAS FINAIS

Anacrónico. Décadas de vivência democrática não permitiram a superação dos macaquinhos no sótão de alguns. Num momento em que o país precisava e precisa de um estado de emergência que modele comportamentos individuais e comunitários, o PCP e o PEV puseram-se de fora.

Extemporâneo. Querer esgrimir argumentos ideológicos no tempo presente é totalmente desprovido de senso e respeito pela exigência do desafio com que estamos confrontados.

Assertivo. Em sobressalto com a emergência, multiplicam-se bons exemplos de suprimento das necessidades de resposta à pandemia. Gostei de ver o SL Benfica e a Benfica SAD, numa iniciativa conjunta com a Câmara Municipal de Lisboa e a Universidade de Lisboa, doar um milhão de euros para compra de equipamentos médicos para o SNS.

 

Escreve à segunda-feira

 

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