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Covid-19. Crise atual pode ser muito pior do que a de 2008

Covid-19. Crise atual pode ser muito pior do que a de 2008

Bruno Gonçalves Jornal i 22/03/2020 19:24

Alerta é dado pelo economista Eugénio Rosa. Portugueses em casa e empresas paradas por muito tempo serão fatais para a economia.

O estado de emergência, declarado recentemente, “está já a causar efeitos graves no funcionamento da economia, até porque muitas empresas foram obrigadas a fechar, a que acresceu o medo e o pânico que se instalaram nas pessoas”. O alerta é feito pelo economista Eugénio Rosa, que acrescenta que “é importante alertar os portugueses para os riscos elevados que enfrentamos, assim como para a insuficiência das medidas que o Governo tomou, devido à escassez de 
recursos que resulta da fragilidade da economia e do forte endividamento do Estado e da Comissão Europeia, dada a falta de solidariedade entre os países da UE”.

Eugénio Rosa é claro e defende que é necessário que os portugueses entendam que “se o país se mantiver em casa e parado demasiado tempo, a recessão económica será inevitável e grave”, bem como será inevitável a elevada destruição de emprego. “Compreendemos a necessidade de ficar em casa, mas a economia não perdoa nem há milagres na economia”, defende.

E é exatamente por isso que Eugénio Rosa garante que a destruição do emprego causada por esta crise será muito mais rápida e acentuada do que a crise de 2008, “se o país se mantiver em casa e parado durante muito tempo”.

Para explicar melhor o que pode vir a acontecer, Eugénio Rosa recorre a dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o período entre 2008 e 2013, recordando que nesses anos foram destruídos 769 mil empregos em Portugal, uma vez que o emprego diminuiu de 5 198 000 para 4 429 000. 

No pico da crise, entre 2011 e 2013, o desemprego oficial aumentou em 428,1 mil. No entanto, o desemprego real obtém-se “adicionando ao desemprego oficial os inativos disponíveis - ou seja, os desempregados que no período em que o INE fez o inquérito não procuravam emprego, e o INE, por isso, não os considerou como desempregados, apesar de realmente o serem - e aumentou em apenas dois anos em 636,1 mil”. 

E é pegando nestes dados que o economista explica a diferença entre essa crise e a atual: “Se não forem tomadas medidas que tenham em conta a fragilidade da nossa economia, e se não se combater o medo e o pânico, que afetam muito a economia, verificar-se-á a mesma destruição de emprego, ou mesmo maior, mas de uma forma rápida, pois não vão ser precisos dois anos para se atingir mais de um milhão de desempregados, como aconteceu em 2013, na crise de 2008”, alerta.

As previsões de Eugénio Rosa não são animadoras: “É de prever que, com esta crise e com as medidas insuficientes anunciadas pelo Governo e pela Comissão Europeia, que vão ser demoradas de pôr em prática, como é habitual no país, se as empresas continuarem fechadas, a destruição de emprego será mais rápida e maior”. E, tal como aconteceu na crise de 2008, as micro e pequenas empresas e os seus trabalhadores são quem vai sofrer mais com a atual crise. “Muitas vão desaparecer”, avisa o economista.

No que diz respeito aos despedimentos, Eugénio Rosa aproveita o estudo para atacar o Governo. “É preciso proibir os despedimentos durante a crise, como alguns países europeus já fizeram, mas, infelizmente, a ministra da Presidência deste Governo, confrontada com essa pergunta, já disse que o Governo não tenciona proibir os despedimentos, o que, na prática e objetivamente, pode ser interpretado como um convite para que os façam”, lamenta. 

Para o economista, é isso que confirmam as medidas anunciadas pelo Governo. “Em relação aos trabalhadores cujas empresas fechem ou tenham uma quebra grande nas vendas, as empresas poderão pedir o layoff, em que o trabalhador perde 33% do seu salário líquido, sendo os restantes 70% suportados pela Segurança Social e 30% pela empresa”. As empresas que não vão poder despedir, explica, são as que utilizarem a linha de crédito de três mil milhões anunciada pelo Governo.

Os trabalhadores precários são os mais vulneráveis a esta crise e, por isso, serão os primeiros a ser despedidos se nada for feito para o impedir. E essa necessidade de despedimento afetará também o Estado. “Os recursos de um Estado fortemente endividado, como o nosso, e de uma Segurança Social que paga pensões de miséria são limitados, até porque esses meios financeiros dependem da atividade económica e, se esta se afundar, as receitas de impostos 
diminuirão significativamente e os descontos para a Segurança Social também cairão com o fecho de empresas. A capacidade do Estado e da Segurança Social para apoiar os trabalhadores e a economia diminuirá também significativamente”, alerta Eugénio Rosa

As preocupações do economista vão mais longe uma vez que, se o país for atingido por uma “forte depressão económica” e se existirem setores a colapsar devido ao prolongamento da crise e ao estado de emergência, “é previsível que enfrentemos de novo uma situação muito mais grave do que a da crise de 2008, porque está associada a uma pandemia geradora de medo e pânico, sendo, por isso, os seus efeitos a nível económico provavelmente mais rápidos e devastadores”.

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