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José Paulo do Carmo 20/03/2020
José Paulo do Carmo

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Longe dos meus pais

Ontem, quando liguei ao meu pai para lhe desejar um feliz Dia do Pai, deu-me um aperto no coração. Para aligeirar o sentimento saiu-me um ‘ó pai, temos de ver de forma positiva, mais vale estarmos todos separados e vivos do que todos juntos e mortos’. Não era bem o que queria dizer, mas é reflexo do nervosismo que as saudades me infligem. Eles sabem muito bem o quanto os amo e eu sei o quanto é recíproco.

Hoje, o meu pai faz anos e, se não me engano, esta é a segunda vez que não estou com ele nos meus 37 de existência. Quis o destino que o seu aniversário se celebrasse sempre um dia após o Dia do Pai, o que motivou sempre festa a dobrar lá em casa. Por estes dias, penso nos momentos que passávamos juntos quando era mais novo. De quando a minha mãe ia acordar-nos bem cedo e eu e a minha irmã, ainda ensonados mas cheios de vontade de fazer uma surpresa, lá íamos para o acordar, a segurar um tabuleiro a meias, enfeitado com um guardanapo bonito e com tudo o que ele mais gostava num pequeno-almoço. Umas vezes fingia que ainda estava a dormir, para não nos fazer desfeita, o que nos fez (ao apercebermo-nos disso) começar a acordar ainda mais cedo, quase obrigando-o a madrugar, para o apanhar desprevenido. Tenho hoje a perfeita noção de que muito lhe apetecia ter dormido mais um pouco naquele dia que era seu, mas sempre nos recebeu com um sorriso de alegria e um beijinho de agradecimento e carinho.

Lá em casa, sempre nos demos e continuamos a dar muito uns aos outros. Como tal, estes dias sempre foram passados em especial alegria e harmonia, com rituais muito próprios, até no facto de o meu pai se queixar sempre que, quando a minha mãe lhe servia o arroz, o alho lhe calhar invariavelmente a ele. A minha irmã oferecia-lhe desenhos e presentes muito bem enfeitados, e eu, com a minha falta de jeito, lá lhe dava de vez em quando uma cassete de músicas escolhidas por mim que sabia serem ao gosto dele. Mas o que ficou sempre foi a magia dos momentos que eram criados com genuína naturalidade. Era bom estarmos juntos e pronto. Isso era o suficiente e, na realidade, o que mais prazer nos dava.

Neste tempo de quarentena forçada, do que mais sinto falta é deles. Decidimos ficar por casa, mesmo não tendo sintomas, para que não exista a mínima probabilidade de sermos nós os veículos do vírus sem saber. Já me estava a imaginar a passar uns dias por lá, com muito mais espaço e coisas para fazer. Sentado no sofá a ver filmes, a falar de negócios ou a discutir esta problemática com o meu pai, enquanto a minha mãe nos empanturrava com a melhor comida do mundo. A trabalhar na mesa da sala ou a apanhar um bocadinho de sol no terraço. Ali parece sempre que o tempo para e conseguimos ser felizes só assim. É uma felicidade que não é descritível e um estado de perfeição que se atinge que, como diz a minha avó, “não tem explicação”. Também tenho saudades dela e do resto da família que se reúne na Piccolina para beber café, enquanto partilho um rim de chocolate com a minha mãe.

Ontem, quando liguei ao meu pai para lhe desejar um feliz Dia do Pai, deu-me um aperto no coração. Para aligeirar o sentimento saiu-me um ‘ó pai, temos de ver de forma positiva, mais vale estarmos todos separados e vivos do que todos juntos e mortos’. Não era bem o que queria dizer, mas é reflexo do nervosismo que as saudades me infligem. Eles sabem muito bem o quanto os amo e eu sei o quanto é recíproco. Não estamos bem assim e a celebração este ano não terá seguramente o mesmo encanto, mas é por uma boa razão. Mais tarde teremos oportunidade de nos desforrarmos e fá--lo-emos, indubitavelmente. Por agora, vamos falando com recurso às novas tecnologias e aproveitando para aumentar essa barra das saudades que não para de crescer. Se calhar, para nos mostrar o quão afortunados somos por nos termos uns aos outros. Desejo por isso a quem, devido aos constrangimentos atuais, está separado das suas famílias, um regresso rápido à normalidade. E que este tempo sirva também para percebermos o quanto nos fazemos falta. Para os que têm a sorte de estar juntos, aproveitem. Não terão oportunidade semelhante. Em breve seremos completos outra vez…

 

Parabéns, pai!

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