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Crónica de uma morte anunciada

Crónica de uma morte anunciada

Eduardo Baptista Correia 20/03/2020 11:08

Necessitamos de rever o modelo de governação, trazendo para a gestão das competências necessárias à proteção e desenvolvimento do país quem tenha dado provas e fortes demonstrações de competência e saber.

Portugal viu, finalmente, as medidas necessárias para conter a pandemia e garantir que ganhamos a batalha contra a infeção. Escrevo deliberadamente a palavra finalmente por considerar que aqui chegámos de forma atabalhoada e com várias semanas de atraso. Fundamento a minha posição extremamente crítica relativamente à reação do Estado português na análise da evolução e impactos desta pandemia nas declarações, desde janeiro, dos responsáveis pela DGS, do Conselho Nacional de Segurança, do presidente da Câmara de Lisboa e do Governo. Não posso também aqui, e hoje, deixar de mencionar a surpresa com que assisti à ligeireza no modo como o Presidente da República abordou ao longo das semanas esta matéria. As declarações de ontem (escrevo no dia após a declaração por parte do PR do estado de emergência) apenas serviram de enquadramento legal a medidas, quase todas elas, anunciadas e praticadas nos dias anteriores. O Palácio de Belém pareceu-me voltar, nesta fase difícil da vida dos portugueses, ao modelo neutro que tanto vigorou nos mandatos do Presidente Cavaco Silva.

Dirão os céticos que hoje é fácil falar. A verdade é que houve em Portugal responsáveis de instituições que, em face da apatia demonstrada pelas autoridades competentes, tomaram medidas muito antes. Refiro-me, por exemplo, às universidades de Lisboa e de Coimbra. Daqui envio os meus parabéns aos respetivos reitores por terem reagido muito antes das autoridades competentes. Atempadamente sugeri também, e no caso das universidades, a outros responsáveis que o fizessem – nem resposta obtive.

Enalteço também aqui o papel de vários presidentes de câmara que foram, dentro das respetivas competências, tomando medidas onde se foram substituindo às funções do Estado central. Também no Taguspark, de que sou responsável executivo, tomámos medidas que incluíram o encerramento total dos espaços de restauração, o cancelamento de todos os eventos, o cancelamento do mercado tradicional e o reforço do teletrabalho e de medidas de desinfeção, limpeza e salubridade do espaço público, antes das autoridades competentes terem acordado para o potencial da calamidade. Escrevi inclusive um artigo publicado no Dinheiro Vivo intitulado “Soldadinhos de chumbo no lugar de generais e estadistas”.

Toda esta situação me faz lembrar um belo livro com uma história triste escrito por Gabriel García Márquez, intitulado Crónica de Uma Morte Anunciada.

Antes de finalizar este artigo, não podia deixar de reforçar aquilo que é evidente para todos: a admiração pelos profissionais de saúde, segurança e bombeiros que, nesta situação, são simultaneamente os mais negligenciados nas condições materiais e humanas com que trabalham, os que mais riscos correm e os que mais contribuem para a preservação da vida humana.

Também os portugueses foram ao longo dos dias, e logo que se aperceberam da efetiva gravidade da situação, assumindo, antes do anúncio, o estado de emergência. Grande povo, fragilmente governado. Efetivamente, e como é hábito, não temos governantes capazes de pensamento estratégico. Tivemos tudo para transformar esta ameaça global numa oportunidade para aproveitar as vantagens que tínhamos: informação quanto à evolução da pandemia (os casos da China, Irão e Itália foram excessivamente elucidativos) e a posição geográfica de Portugal (longitude a oeste dos primeiros focos, uma única fronteira terrestre e a reduzida dimensão populacional e territorial do país). Em vez disso, os responsáveis políticos e técnicos entretiveram e baralharam os portugueses com discursos paternalistas, falsas interpretações e falsas conclusões.

Esta crise mostra de forma nua, crua e dura as múltiplas fragilidades da nossa estrutura pública e política que nesta coluna, ao longo do tempo, temos evidenciado e das quais destaco a impreparação da generalidade dos governantes para a governação do país, o desinvestimento na estrutura de saúde pública e a fragilidade da organização e capacitação do conceito de proteção civil. Quero aqui enaltecer o exemplo da Câmara de Oeiras nas medidas e investimentos solidários que tem vindo a anunciar e implementar nesta crise.

É evidente que necessitamos de rever o modelo de governação, trazendo para a gestão das competências necessárias à proteção e desenvolvimento do país quem tenha dado provas e fortes demonstrações de competência e saber. Em vez disso, andamos entregues a um grupo de amigos que se foram organizando à volta dos partidos políticos e que distribuem as diversas funções governativas e dirigentes entre si. São quase sempre os mesmos.

 

Professor de Gestão no ISCTE e CEO do Taguspark

Subscritor do “Manifesto: Por Uma Democracia de Qualidade”

 

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