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Covid-19. Os EUA temem "múltiplas vagas" da pandemia

Covid-19. Os EUA temem "múltiplas vagas" da pandemia

AFP João Campos Rodrigues 19/03/2020 21:15

Nota-se a escassez de testes nos EUA. Já Bolsonaro mudou de atitude da covid-19 e Macau fechou as portas a portadores de vistos: quem mais sofre são os portugueses.

Com mais de 230 mil casos registados em todo o mundo, que já causaram quase 10 mil mortes, a pandemia de covid-19 veio para ficar. Na origem do novo coronavírus, a China, a situação estabilizou - ontem, pela primeira vez desde o início da crise, não foi registada nenhuma transmissão local. Contudo, agora é a Europa que está a braços com o problema, enquanto as autoridades dos Estados Unidos se preparam para a possibilidade de a pandemia durar até 18 meses, com “múltiplas vagas da doença”, segundo documentos obtidos pela CNN.

Com mais de 150 mortes devido à covid-19, os EUA já têm mais de 10 mil casos registados. Só o estado de Nova Iorque já ultrapassou os quatro mil infetados, duplicando o número de casos registados de terça para quarta-feira, após serem efetuados quase oito mil testes. “Quando se fazem oito mil testes, os números sobem exponencialmente”, resumiu ao canal norte-americano o governador do estado, Andrew Cuomo. O caso pode ser indicativo do que se passa no resto do país: teme-se que o número real de infetados seja mascarado pela falta de testes à covid-19.

Apesar de a administração de Donald Trump ter anunciado um aumento nacional da escala dos testes - finalmente seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para “testar, testar, testar” -, continuam a faltar kits de teste e os seus componentes básicos. Muitas instalações de saúde enfrentam uma escassez de algodão para receber amostras de saliva e expetoração, ou pipetas descartáveis para transferir os fluidos, avançou o Politico.

A situação chegou ao ponto de a FDA, a agência encarregada de regular medicamentos e dispositivos médicos nos EUA, ter de recorrer ao Twitter para se manter informada dos stocks dos fornecedores - algo que estes, por lei, só são obrigados a divulgar no que toca a medicamentos. “A FDA sugere que as empresas tornem públicos os seus inventários e calendário de produção”, tweetou esta semana a número dois da agência para assuntos médicos, Anand Shah.

Mesmo que os norte-americanos consigam pôr-se a par de outros países a nível de testes de covid-19, já foram feitos muitos estragos. “Quando ficas para trás, é muito difícil recuperar”, lamentou Alberto Gutierrez, ex-dirigente da FDA. No início de um surto, identificar infetados e quem os contactou, isolando-os de seguida, é essencial para conter uma doença - mas impossível sem testes. “A contenção não foi muito bem feita. Neste momento observa-se um crescimento exponencial”, explicou à New Yorker.

Não ajuda que a pandemia não seja levada a sério por muitos norte-americanos. Dois terços dos 859 passageiros do cruzeiro Grand Princess, de quarentena numa base aérea na Califórnia, recusaram ser testados. À medida que se aproxima o fim da quarentena obrigatória - já na próxima segunda-feira -, não querem arriscar ter de ficar mais tempo, avançou o San Francisco Chronicle.

Entretanto, no resto da Califórnia, 9 milhões de pessoas receberam esta semana ordens para ficar em casa tanto quanto possível - já há 16 mortes e quase 900 casos no estado.

 

Mudança de planos Na América do Sul, o Brasil é o país com mais infeções por covid-19, com mais de 500 casos registados e seis mortes. Após minimizar a crise, o Presidente Jair Bolsonaro - chegou a acusado de espalhar pessoalmente a doença após ignorar as recomendações das autoridades, ao cumprimentar e abraçar apoiantes depois de ter estado em contacto com um assessor infetado - fez uma viragem na sua abordagem, na sequência de protestos e “panelaços” em cidades por todo o Brasil.

Há dias, Bolsonaro dizia que “a covid-19 não pode ser superdimensionada”, mas ontem anunciou o encerramento de quase toda a fronteira terrestre do país a estrangeiros, à exceção do Uruguai, o que ainda estará a ser negociado.

Contudo, continuam a funcionar os voos vindos do estrangeiro, não tendo sido explicada esta discrepância. Mesmo assim, estes voos foram reduzidos, não por exigência do Governo, mas por falta de procura - a Associação Brasileira das Empresas Aéreas registou, em média, uma redução de 85% dos voos internacionais face ao mesmo período do ano passado.

O tom do Presidente brasileiro quanto à crise também está diferente: ainda esta quarta-feira deu uma conferência de imprensa de máscara, sem nunca se referir à pandemia como “histeria”, “fantasia” ou “neurose”, como fez anteriormente.

 

Algumas medidas duras, outras não Outro país que proibiu a entrada de estrangeiros foi a Austrália. Mas o Governo de Scott Morrison foi ainda mais longe: a proibição aplica-se também a pessoas com vistos para estudar ou trabalhar no país, que ficarão impedidas de regressar indefinidamente.

“Cerca de 80% dos casos que temos na Austrália são ou resultado de alguém que contraiu o vírus no estrangeiro ou que teve contacto direto com alguém que regressou do estrangeiro”, justificou o primeiro-ministro australiano, que proibiu eventos em espaços interiores com mais de 100 pessoas, ou com mais de 500 ao ar livre.

“Este é um evento do tipo que só acontece a cada centena de anos”, acrescentou Morrison, cujo país ultrapassou os 700 casos - foram mais 113 ontem. “Não vimos este género de coisas na Austrália desde o final da i Guerra Mundial”.

Ainda assim, apesar das medidas sem precedentes quanto aos estrangeiros na Austrália, o Governo de Morrison continua sem fechar as escolas, apesar das súplicas de muitos professores. “Somos os cordeiros sacrificiais”, lamentou à 9News Jane, uma educadora de infância australiana. “O distanciamento social não funciona com crianças do infantário. Ainda estamos a ensinar-lhes os cuidados básicos de higiene e eles não estão a apanhar”. Outros professores contaram chegar a casa em lágrimas ou com crises de ansiedade: as crianças mostram sintomas mais ligeiros de covid-19 que os adultos, mas são igualmente portadores da doença. “Digo-lhe, como pai: estou contente por os meus filhos irem à escola”, respondeu Morrison. 

 

O drama dos portugueses O território administrativo especial de Macau também proibiu a entrada de todos os estrangeiros, incluindo portadores de vistos de trabalho ou estudo: ontem foram registadas apenas duas novas infeções de covid-19 em Macau, todas vindas do estrangeiro. Uma delas foi de uma trabalhadora indonésia, não residente em Macau, outro de um macaense que estuda no Reino Unido e regressou.

No caso do fecho de fronteiras em Macau, entre os principais afetados estarão portugueses, queixou-se à Lusa o conselheiro das comunidades portuguesas, José Pereira Coutinho. “Em primeiro lugar, há um tratamento discriminatório; em segundo lugar, o que é mais grave, é que o coronavírus não vai ver ao passaporte a nacionalidade para atacar”, assegurou. Muitos portugueses que trabalham em Macau estão de férias e não poderão voltar para trabalhar. “Estão numa situação dramática, precisam do trabalho, têm as suas famílias cá”, lamentou o conselheiro, salientando que Macau só tem 17 casos de covid-19. 

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