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Carlos Gouveia Martins 19/03/2020
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

Dos alarmistas do WhatsApp à união em forma de aplauso

Vivemos dias que nunca vivemos. É mesmo, infelizmente é mesmo, como disse ontem à noite o Presidente da República, um tempo excecional. Não é por bons motivos que surge esta excecionalidade, e cada dia que passa são mais os que estão a menos no nosso planeta.

A pandemia da Covid-19 que nos trouxe um Estado de Emergência, que semelhança só tínhamos vivido a 25 de novembro de 1975, é a mesma que nos levou já dois portugueses até à data de hoje. São também 642 casos confirmados, que esperemos que todos recuperem tal como os já 3 casos recuperados que temos.

Os portugueses vivem em aflição, em convulsão social provocada pelo desconhecido desta nova situação social e sobretudo pela invisibilidade do inimigo que todos combatemos nas ruas estando confinados ao interior de nossas casas. É só assim que podemos enfrentar o coronavírus, não enfrentando.

Nem tudo na vida vai do 8 ao 80. Mas há exemplos que temos nos nossos dias longos de casa que vão, precisamente, do muito mau ao muito bonito.

Começo pelo inevitável da globalidade e da ligação que todos temos à vida “lá fora” através do nosso Wi-Fi de casa ou dos dados móveis do nosso telemóvel: Os idiotas, ou alarmistas, do WhatsApp.

Ao longo destas longas duas semanas, dado que Portugal registou o primeiro caso a 2 de Março, todos sofremos de uma doença grande: As fake news.

Infelizmente, todos já “caímos” no erro da doença que o WhatsApp ajuda a difundir em larga escala. Todos já ouvimos clipes de voz de quem diz ser Médico em funções em determinado Hospital e que alerta para as imagens que viu pelo Raio-X tórax de um doente da Covid em que o vírus ataca todo o pulmão. Todos já lemos o largo e longo texto de um dito qualquer coisa que tem um amigo que por sua vez tem um primo que é enfermeiro num Hospital e que “diz que disse” que o outro amigo radiologista lhe contou terríveis notícias através do que via dos resultados de doentes através da Tomografia Axial Computorizada (TAC). Todos nós recebemos vídeos reencaminhados no WhatsApp de alguém de bata branca que se diz profissional de saúde e tem conhecimento da “grande teoria da conspiração” por trás da pandemia da doença por coronavírus. Todos nós lemos que alguém disse que há mais casos de doentes do que são ditos porque o “amigo do amigo da prima do vizinho da ex-colega” tem a certeza que ouviu dizer.

É ridículo.

Todos nós, por estes dias, recebemos mensagens de algum alarmista do WhatsApp que, por iniciativa primária de algum idiota (com a abrangência de todo o seu significado) desta mesma rede social que entendeu espalhar o pânico, lançar boatos, criar estórias e mudar a história ou incentivar fake news… mas, sobretudo, fazer-nos perder tempo de vida útil a ler inutilidades.

É pena. É pena que em altura de guerra invisível tenhamos que ver tanta coisa desnecessária à vista. Este é o mau exemplo.

O bom exemplo, no polo oposto dos “amigos alarmistas do WhatsApp” chegou cá pelas 22:00 horas de um destes dias. Foi uma corrente que não se alastrou por reencaminhamento de mensagens mas também deve algo de benéfico com o passa a palavra das redes sociais, claro que sim, e ainda bem que têm essa força.

Quem não ficou com mais força e esperança ao ouvir a sua rua toda a aplaudir os profissionais de saúde às dez da noite deste dia 14 de março? Quem não ficou emocionado ao ver imagens de tantos portugueses unidos por um aplauso comovente aos profissionais de saúde que estão a lutar pela vida dos doentes que temos?

Essas imagens sim, merecem ser reencaminhadas. Por WhatsApp. Pelo Facebook. Pelo Instagram. Pelo pensamento real de cada um de nós.

Os vários vídeos que mostram como os portugueses responderam ao evento combinado via Facebook e saíram às varandas e janelas para aplaudir os profissionais de saúde que não têm tido tréguas na luta contra o coronavírus não é caso único. Felizmente.

Também não foi um surto local nem uma epidemia. Foi mesmo uma pandemia de união em som de aplausos. Aplausos para homenagear quem está na linha da frente. Aplausos que aquecem a esperança de todos nós em como a quarentena será menor do que aquilo que está pintado nos maus quadros.

Vimos as imagens e ouvimos o som em vídeo que também chegava de Madrid. Seguramente, ouvimos com emoção como o fortíssimo povo italiano canta em cada bairro, em sintonia com os vizinhos, para pela música vencer o silêncio do vírus maldito.

Que força. É essa imagem. É essa força que teremos de recuperar todos os dias. Iremos vencer esta Guerra que vivemos. Sabemos que sim.

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