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Alguns faróis de cabeceira na hora do exílio

Alguns faróis de cabeceira na hora do exílio

Diogo Vaz Pinto 18/03/2020 13:27

A cada sombra de notícia degradante que a peste nos traz, o medo põe-se a cacarejar, e, fechados em casa, alguns estarão incapazes de recuperar o fôlego. Recebem as instruções sobre como escapar ao vírus, mas não escapam à paranoia. A alternativa seria desatrelar-se, não dar tanta audiência aos canais comuns, mas investir nessa paciência raivosa que se encontra nos grandes poetas, todos eles náufragos manobrando o leme das suas ilhas.

A devastação tem sempre uma forma curiosa de nos provar a sua inteligência. As civilizações envelhecem, mas a peste renova-se, engendrando cenários inquietantes a partir dos estudos que faz sobre as inquietações que definem cada época. Parece que Deus se deitou por um bocado, e que, descansando, a peste lhe leu os pensamentos. Assim, na era do frenesim, aqui nos tem de castigo, e a terra inteira parece estar a flutuar, suspensa, sem um prazo certo, as coisas adiam-se, e há uma distância espantosa entre os homens que têm vida interior e os outros, aqueles que não têm aparelhadas as suas ilhas, nem parecem capazes de recriar outra hora, outro tempo. Já os primeiros, a qualquer altura se darão por satisfeitos roendo a corda.

Dos trabalhos e dos dias da peste, depois de o medo ter varrido tudo, é possível imaginar que, no fim, contra os avanços e a esperança que se deposita na ciência, só fiquem os neuróticos supersticiosos, levando nos bolsos estátuas de sal em representação do deus da ironia. Mas pense-se na sorte que têm, nesta hora, os amantes, capazes de saltarem para os olhos um do outro e de se fecharem firmemente neles quando as coisas se tornarem feias. Zbigniew Herbert, Pier Paolo Pasolini, Antonin Artaud... poetas cuja feroz lucidez se ergue numa altura destas como uma espécie de farol, ajudando-nos até a pensar, sabendo nós como isso significa dar de frosques, não embarcar nas intrigas desses “espectros que querem comandar o real”. Assim, enquanto róis a tua ilha, agora reduzida a poucos metros de terra, ao menos podes valer-te dessas cartas de marear, desses livros de bordo cheios de terror e fantasia, de relatos essencialmente verdadeiros porque inventados, tão mais reais pela forma como representam esses aspectos invariáveis que delimitam a acção. “Vê como os corpos ascendem/ em todos os balcões da terra;/ a vida é vazia,/ está longe a cabeça. (...) No ângulo oblíquo dos tectos/ de todos os quartos que tremem/ acumulam-se os fumos marinhos/ dos sonhos mal concebidos” (Artaud).

Com estes, com outros, o que podemos é permitir-nos a liberdade de delirar um tanto numa hora em que por decreto, e a coberto de uma série de recomendações para o nosso próprio bem, para o Bem comum, as regras mudaram, e parece ter chegado a hora do exílio: “a hora em que um antigo daria realidade/ à realidade/ e a solidão amadurecida à sua volta/ teria a forma da solidão” (Pasolini).

Tal como a peste nos tem revelado o seu talento, a sua capacidade para ler essa diferença que só Deus sabe escrever no espelho da desordem, veja-se como, apesar de tudo, nuns poucos versos, que justiça se faz, que noção se anima com a ideia de que, se nos for dado tempo, talvez também nós possamos ser dignos, ao acordar, talvez tenhamos até uma sensação não de júbilo mas de perda quando formos obrigados a regressar a esse regime de remadores esforçando em uníssono os músculos numa galera, ao invés de termos a nossa pequena ilha ou uma lamparina bendita para ler coisas destas: “se a arte tivesse uma jarra quebrada/ por assunto/ uma pequena alma quebrada/ com uma grande pena de si própria/ o que permaneceria de nós/ seria o choro dos amantes/ num pequeno e sujo hotel/quando o papel de parede amanhece” (Herbert).

 

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