25/10/20
 
 
Pedro Barroso. A canção como arma

Pedro Barroso. A canção como arma

Hugo Geada 18/03/2020 10:05

Autor, compositor, cantor, pintor, professor, ator: foram muitos os ofícios por onde passou Pedro Barroso. Tinha 69 anos quando morreu, na noite de segunda-feira.

“As canções têm de ter uma intenção e hoje não significam nada”, disse o músico Pedro Barroso, voz de inúmeros temas da Revolução de Abril e autor de temas como Viva Quem Canta, Menina dos Olhos de Água e Cantarei, em março de 2009, ao Correio da Manhã. “Fazem-se só para vender. Eu procuro fazer coisas que fiquem”.

O músico que compôs e cantou desde música de intervenção a chulas (dança e música populares típicas do norte de Portugal) morreu esta segunda feira, em Lisboa. Quem avançou a notícia foi o seu filho, Nuno Barroso, na sua conta de Facebook pessoal, que, no passado dia 8 de março, tinha também partilhado que o pai tinha sido internado “em fase terminal” no Hospital da Luz, devido a um cancro que enfrentou durante anos.

“A condição física, após mais um ano de tratamentos médicos, impede-me de tocar; e, mesmo na parte do canto, canso-me ao fim de minutos e, portanto... as coisas são como são...”, confessou Pedro Barroso à agência Lusa, no ano passado.

Da educação à música de intervenção O autor, compositor, cantor e também pintor que assinava as suas obras artísticas como Pedro Chora nasceu em 1950, em Lisboa, filho de pais professores, e cresceu em Riachos, Torres Novas, terra natal do pai.

O seu nome começou a ser associado à música pelo grande público depois da sua participação, no final de 1969, em plena Primavera Marcelista, no programa Zip Zip, apresentado por Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz. “Era um estado de espírito, uma arma, uma denúncia, até onde era possível fazer denúncias. Politicamente, foi muito importante, porque alertou as pessoas. Eu sou um cidadão diferente depois de ter feito esse programa”, foi assim que Carlos Cruz, em abril de 2000, descreveu o programa em entrevista a José Leite Pereira, Alexandra Inácio e Ana Vitória no Jornal de Notícias.

Neste programa cantou Pedido de Menino, Canção de Amigo e Toada da Vida. No ano seguinte lançou o seu primeiro EP, Trova-dor, produzido por Thilo Krassman, que tinha conhecido no Zip Zip.

Ao longo da sua carreira, o músico gravou mais de 30 discos e celebrou 50 anos de carreira em 2019. Cantor de intervenção e defensor da liberdade, era apelidado por muitos como o “último trovador português”, os seus temas eram de intervenção e muitas vezes teve problemas com a censura e foi obrigado a alterar as suas letras.

O seu lado ativista manifestou-se na música em funções mais burocráticas, nomeadamente como membro da direção do Sindicato dos Músicos, e foi autor, em 2002, do polémico Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa, que teve audições junto de todos os grupos parlamentares na Assembleia da República e do então Presidente da República, Jorge Sampaio. Desde 2003 era membro dos corpos gerentes da Sociedade Portuguesa de Autores, na direção presidida por Manuel Freire.

Apesar de ser mais conhecido pela música que fez na sua vida, a educação ocupou também um lado bastante importante na sua vida. Formou-se em 1973 no Instituto Nacional de Educação Física, atual Faculdade de Motricidade Humana, em Educação Física, e foi professor do ensino secundário (tal como o seu pai) durante mais de 20 anos.

Em 1988 foi pós-graduado em Psicoterapia Comportamental e acabou por trabalhar na área da saúde mental e musicoterapia durante alguns anos. Foi, neste campo, pioneiro no ensino de crianças surdas-mudas, numa escola de ensino especial de Lisboa.

Para além da sua atividade no mundo da música e na educação, também foi ator. No Teatro Experimental de Cascais, sob direção do encenador Carlos Avilez, participou nas peças Fuenteovejuna, de Lope de Vega, e Breve Sumário da História de Deus, de Gil Vicente, ao lado de José Jorge Letria e António Macedo.

um legado que continua vivo Na sua conta no Facebook, o ator Ruy de Carvalho também comentou a notícia. “Receber esta notícia foi um duro golpe. Estávamos poucas vezes juntos, mas gostávamos muito um do outro. Até um dia, meu querido amigo. Perdemos um grande artista, um grande ser humano”, escreveu.

Pedro Barroso deixou preparada a edição de um novo disco, intitulado Novembro, pronto a sair “tão breve quanto possível” segundo o seu editor, Fernando Matias, que adiantou à Lusa que o CD inclui um dueto com o músico Patxi Andión, que morreu em dezembro do ano passado, vítima de um acidente de automóvel

Tinha terminado já as gravações do álbum Novembro, que assumia ser “a sua despedida das canções”.

“É um CD histórico, um duo ibérico e... que vai ser falado. Merece o colo cuidadoso de uma produção sofrida, cuidada e importante. Nunca escrevi tanta corda!... Ter uma canção minha cantada a meias com o Patxi Andión é, obviamente, uma valorização imensa, e o tema é lindíssimo”, disse à Lusa aquando do espetáculo de comemoração dos seus 50 anos de carreira, em novembro de 2019.

Apesar da doença, que o impedia de atuar, o seu espírito interventivo nunca o abandonou. Também na entrevista acima citada, ao Correio da Manhã, quando questionado se ainda se sentia um cantor de intervenção, respondeu: “É com o conhecimento que vamos ter de fazer a revolução. Não é pelas armas, é pela cultura. Portugal está pobre, indigente em termos culturais, e isso preocupa-me muito, porque é por aí (cultura) que também temos de construir o futuro”.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×