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Seguir a Peste dentro dos sonhos e escavar-lhe os antecedentes

Seguir a Peste dentro dos sonhos e escavar-lhe os antecedentes

Diogo Vaz Pinto 17/03/2020 19:09

Numa altura em que está prestes a ser declarada em todo o mundo a guerra contra a peste, tentamos enquadrar o novo coronavírus servindo-nos da perspectiva literária e histórica que montou Antonin Artaud no seu estudo desenvolvido sobre a Peste Negra.

Moralmente, há muito fomos infectados. Parece que o próprio relato conspira, desespera-nos com as suas salvas de tiros, dados que não se organizam senão como disparos sem uma origem certa, sem uma tessitura dramática; ficamos encadeados por estas indicações sumárias e geladas, e assim desperta em nós uma irredutível tentação do pior. A peste gera o desgoverno, e esta muito em particular tem um talento para atordoar os sentidos, para dispor este labirinto de aflições. É assim que o vírus se introduz na imaginação antes de ter condições de se lançar sobre o organismo. O seu fascínio liga-se em parte ao justificado receio das massas avassaladoras. Onde tínhamos ordem, a bagunça ficou. E é uma doença tão grave porque há nela uma espécie de juízo escarnecedor sobre a falsa segurança em que assenta a vida moderna. Assim, ela mostra-se sumamente inoportuna, audaciosa, dissimulando-se, explorando as fraquezas, avançando e rindo-se. À medida que os números vão espalhando algo mais adequado ao desespero, a doença irá recolher a sua imagem mítica à luz dos espíritos mais nervosos, mais débeis, denunciando-os. E depois há aqueles espíritos que já antes se tinham sentido enojados, trucidados pela ordem reinante, e que buscavam consolo aconchegando-se em conjunto numa vasta irmandade à volta de uma fogueira que se mantém acesa entre os séculos. É uma irmandade que reconhece a importância de se poder manipular o tempo, a capacidade de relacionar as coisas. Não ficarmos prisioneiros da vertigem do dia-a-dia, mas nos alforriamos ouvindo histórias que expandem a nossa experiência do mundo. “As pessoas gostam de histórias”, lembra o escritor francês Éric Vuillard, “elas educam, diz-se; e quanto mais a história for verdadeira, mais será apreciada”. Sabemos que é disso que somos feitos, de histórias; “alimentaram-nos com elas desde a infância”. O problema que enfrentamos hoje é a falta de vigor das nossas ficções, a fragilidade das redes que estão deitadas no leito da realidade. Nem da água a frieza, nem aquela tensão que range, “rompendo o leve ocidente”, nada disso puxamos. O problema, assim, é que “ninguém sabe contar as histórias verdadeiras”, como frisa Vuillard. E agora seria importante ouvir as histórias que despertam nos nervos a memória para não se ceder a esses estados de alucinação colectiva. Apesar de tudo, “existe um continente negro que envia descobridores” (Kraus). Há vozes terríveis que, estranhamente, nos acalmam. Elas dizem-nos que, de algum modo, tudo podia ser infinitamente pior, como foi, e assim mesmo sobreviveria em nós um ânimo desafiador, poderíamos até despertar a velha praga dos homens que resistem longamente alimentando-se a aveia nalgum sótão, preparando uma nova investida que nos livre da literatura de repouso que é característica dos períodos em que todos os vícios parecem toleráveis, enquanto a tragédia afia as garras aguardando a sua deixa. Antonin Artaud conta-nos naquele seu estilo que força as frases a saírem ligeiramente do seu significado habitual, fazendo-as sair dos gonzos por assim dizer, para dispor num efeito de fascínio que vai a trote nos factos terríficos que ficaram registados nos arquivos da pequena cidade de Cagliari, na Sardenha, e que têm o seu começo numa noite do fim de Abril ou princípio de Maio de 1720, cerca de vinte dias antes de chegar a Marselha o navio Grand Saint Antoine. No texto que foi recolhido no volume “Eu, Antonin Artaud”, com apresentação e tradução de Aníbal Fernandes, conta-nos que o momento em que aquele navio atracou “coincidiu com a mais maravilhosa explosão de peste que fez agitar as memórias da cidade, Saint-Rémys”. E a partir daqui, não interrompo mais, e deixo que Artaud vos conte sobre a peste e o vice-rei da Sardenha, com responsabilidades exíguas de monarca que talvez sensibilizassem os vírus mais perniciosos, e do sonho particularmente aflitivo que teve: viu-se pestoso e viu a peste devastar-lhe o minúsculo Estado.

“Sob a acção do flagelo, liquefazem-se os quadros da sociedade. A ordem sucumbe. Ele assiste a todas as ruínas da moral, a todas as derrocadas da psicologia, ouve dentro de si o murmúrio dos humores dilacerados em plena derrota e que em vertiginosa perda de matéria ficam pesados e aos poucos se transformam em carvão. Será tarde demais para conjurar o flagelo? Mesmo destruído, mesmo aniquilado e organicamente pulverizado, e queimado nas medulas, sabe que se não morre em sonhos, que a vontade desempenha nisto um papel até ao absurdo, até à negação do possível, até uma espécie de transmutação da mentira onde a verdade se reconstrói.

Acorda. Vai mostrar-se capaz de afastar todos os boatos de peste que ali correm, e esses miasmas de um vírus chegado do Oriente.

O Grand Saint Antoine, navio que há um mês saiu de Beirute, pede passo e dispõe-se a fazer um desembarque. Nessa altura é que ele dá a ordem louca, a ordem que o povo e toda a sua corte julgam delirante, absurda, imbecil e despótica. À lufa-lufa, manda a barca do piloto e alguns homens ao navio que supõe contaminado, com ordem para o Grand Saint Antoine virar imediatamente de bordo e sair a toda a vela da cidade, sob pena de o afundar a tiros de canhão. A guerra contra a peste. O autocrata não estava com meias medidas.

De passagem terá de referir-se a singular força de influência que este sonho exerceu nele, pois permitiu-lhe fazer vingar a ferocidade de tais ordens, apesar dos sarcasmos da multidão e do cepticismo da corte, e para isto tendo de saltar, não só por cima do direito das pessoas, como do mais elementar respeito pela vida humana e de toda a espécie de convenções nacionais ou internacionais que deixam, perante a morte, de ter oportunidade.

Seja como for, o navio continuou a sua rota, atracou em Libourne e entrou na barra de Marselha, onde lhe consentiram o desembarque.

Que fim o desta carga de pestosos, não é coisa que os serviços de inspecção, em Marselha, tenham de lembrança. Pouco se conhece da sorte dos marinheiros da equipagem pois não morreram todos de peste e dispersaram-se por diversos lados.

O Grand Saint Antoine não levou a peste para Marselha. Ela já lá estava. E num período de singular recrudescência. Mas tinha sido possível isolar-lhe os focos.

A peste, que o Grand Saint Antoine trazia, era a peste oriental, o vírus de origem; e por se ter aproximado da cidade, e espalhado nela, é que ficou a dever-se o lado particularmente cruel e o flamejar generalizado da epidemia.

Ora, isto inspira pensamentos vários.

Uma tal peste, que parece reactivar um vírus, só por si era capaz de fazer devastações sensivelmente iguais; pois o capitão foi o único, de toda a equipagem, que a não apanhou; e por outro lado não parece que os pestíferos recém-chegados tenham alguma vez contactado directamente com os outros, guardados em bairros isolados. Passando à distância de um grito em Cagliari, na Sardenha, o Grand Saint Antoine não deixou lá ficar peste nenhuma mas o vice-rei capta em sonho certas emanações suas; porém é impossível negar que entre ele e a peste se não tenha estabelecido uma ponderável comunicação, apesar de subtil, e numa doença destas é fácil demais admitir só o contágio por simples contacto.

Estas relações entre Saint-Rémys e a peste, suficientemente fortes para se libertarem por imagens no sonho, não são ainda assim suficientemente fortes para a doença o atacar.

Seja como for, quando a cidade de Cagliari soube, tempos mais tarde, que o navio escorraçado das suas costas pela vontade despótica do príncipe miraculosamente iluminado estava na origem da grande epidemia de Marselha, recolheu o facto nos seus arquivos e hoje qualquer pessoa pode ir lá procurá-lo.

A peste de 1720 em Marselha valeu-nos as únicas descrições clínicas, digamos, que existem do flagelo.

Podemos no entanto perguntar se a peste descrita pelos médicos de Marselha era realmente igual à de 1347, em Florença, de onde veio a resultar o Decameron. A História, os livros sagrados, entre eles a Bíblia, alguns velhos tratados de medicina, descrevem do exterior toda a espécie de pestes, e delas parecem ter retido bem menos os aspectos mórbidos do que a impressão desmoralizante e fabulosa que deixaram nos espíritos. E talvez tenham razão. Porque à medicina muito custaria estabelecer uma diferença básica entre o vírus que matou Péricles aos pés de Siracusa, se é que a palavra vírus mais significa do que uma simples facilidade verbal, e o que manifesta a sua presença na peste descrita por Hipócrates e que recentes tratados médicos dão como uma espécie de peste falsa. E peste autêntica, de acordo com os mesmos tratados, só haveria a que veio do Egipto e saiu dos cemitérios a descoberto pela vazante do Nilo. A Bíblia e Heródoto estão de acordo em assinalar a fulgurante aparição de uma peste que dizimou, numa só noite, os 180 000 homens do exército assírio, salvando assim o Império Egípcio. A ser verdade, precisar-se-ia então considerar o flagelo como instrumento directo ou materialização de uma força inteligente em estreita relação com o que chamamos fatalidade.

E tudo isto com ou sem o exército de ratos que se atirou na mesma noite às tropas assírias e em poucas horas lhes roeu os arreios. É um fato que deve ligar-se à epidemia que deflagrou no ano 660 antes de J. C., na cidade sagrada de Mekao, no Japão, por altura de uma simples mudança de governo.

A peste de 1502, na Provença, que forneceu ocasião para Nostradamus exercer os seus dotes de curandeiro pela primeira vez, na ordem política também coincidiu com perturbações as mais profundas, quedas ou mortes de reis, desaparecimento e destruição de províncias, sismos, fenómenos magnéticos de todas as espécies, êxodos de judeus que precedem ou seguem cataclismos e devastações na ordem política ou cósmica, sendo demasiado estúpido quem tais coisas provoca, para saber prevê-las, e não perverso o bastante para realmente desejar os seus efeitos.

Quaisquer que sejam os erros dos historiadores ou da medicina sobre a peste, julgo que podemos ficar de acordo quanto à ideia de uma doença que seria uma espécie de entidade psíquica, e não transmitida por um vírus. Se quiséssemos analisar de perto todos os casos de contágio pestoso que a História ou as Memórias nos oferecem, teríamos dificuldade em isolar um só, verdadeiramente averiguado, de contágio por contato; e o exemplo citado por Bocaccio, de leitões mortos por fuçarem lençóis que teriam embrulhado pestíferos, só vale para demonstrar uma espécie de afinidade misteriosa entre a carne de leitão e a natureza da peste, o que também haveria que analisar de muito perto.

Não existindo a ideia de uma verdadeira entidade mórbida, há porém formas sobre as quais o espírito pode pôr-se provisoriamente de acordo, para caracterizar certos fenómenos, e parece-nos que ele pode concordar com uma peste descrita da forma que segue.

Antes de qualquer mal-estar físico ou psicológico bastante bem caracterizado, manchas vermelhas salpicam o corpo e o enfermo só dá por elas de repente, quando começam a passar ao negro. Nem tempo tem de se assustar, pois a cabeça desata a ferver, a ficar gigantesca de peso, e ele sucumbe. Só então se apodera do enfermo uma cruel fadiga, fadiga de uma aspiração magnética central, das suas moléculas cindidas ao meio e levadas até ao aniquilamento. Parece-lhe que os seus humores enlouquecidos, perturbados, em desordem, galopam pelo corpo. O estômago revolve-se, parece-lhe que o interior do ventre quer sair pelo orifício dos dentes. O pulso ora enfraquece até se transformar em sombra, uma virtualidade de pulso, ora galopa e segue o fervilhar da febre interna, o escorrente desvario do espírito. É um pulso que bate com precipitadas pancadas, como o coração, e se faz intenso, cheio, ruidoso; um olho vermelho incendiado, e depois vidrado; a língua latejante enorme e grossa, primeiro branca, depois negra e como que fissurada e carbonosa, tudo anuncia uma tempestade orgânica sem precedentes. Não tarda que os humores fendidos pelo raio como a terra, tal um vulcão que tempestades subterrâneas atormentam, procurem sair para o exterior. Por entre as manchas nascem pontos mais ardentes, à volta desses pontos a pele levanta-se em empolas, como bolhas de ar sob a epiderme de uma lava, e essas bolhas rodeiam-se de círculos, o último parecido com o anel de Saturno à volta do astro em incandescência máxima, que revelam o limite extremo de um tumor.

O corpo é sulcado por eles. Mas tal qual os vulcões, que têm pontos de eleição na terra, os umores têm pontos de eleição, por todo o corpo humano. A dois ou três dedos da virilha, nas axilas, nos preciosos lugares onde glândulas ativas consumam fielmente, as suas funções, aparecem inchaços por onde o organismo se vai descarregando, quer da podridão interna, quer, nalguns casos, da própria vida. A maior parte das vezes uma conflagração violenta e localizada num ponto indica que a vida central nada perdeu da sua força, e é possível haver um alívio do mal ou mesmo a cura, Tal como o cólera branco, mais terrível peste a que não divulga os seus sintomas.

Aberto, o cadáver do empestado não mostra lesões. A vesícula biliar, encarregada de filtrar os resíduos agora mais grossos e inertes do organismo, está cheia, cheia a rebentar de um líquido negro e pegajoso, tão compacto que lembra uma matéria nova, O sangue das artérias, das veias, é de igual forma negro e pegajoso. O corpo fica duro como pedra. Nas paredes da membrana estomacal parece que despertam inúmeras fontes de sangue. Tudo indica uma desordem fundamental das secreções Mas não há perda nem destruição da matéria, como na lepra ou na sífilis. Até mesmo os intestinos, que são lugar dos mais sangrentos distúrbios, onde as matérias chegam a um insuspeitado grau de putrefação e petrificação, os intestinos não são organicamente atacados. A vesícula biliar, de. onde se tem quase que arrancar o endurecido pus, tal como em certos sacrifícios humanos se faz com uma faca afiada, um instrumento de obsidiana vitroso e duro - a vesícula biliar está hipertrofiada e em determinados locais quebradiça, porém intacta, sem lhe faltar nenhuma partícula, sem lesão visível, sem matéria perdida.

Alguns casos há, todavia, em que os pulmões e o cérebro lesionados enegrecem e gangrenam. Os pulmões estão amolecidos, escortaçados, a cair em aparas de sei lá que matéria negra, o cérebro está desfeito, moído, pisado e reduzido a pó, desagregado numa espécie de poeira de carvão negro.

Deste facto, duas conclusões importantes devem tirar-se: a primeira, que as síndromes da peste ficam completas sem gangrena dos pulmões e do cérebro, e o pestoso apanha a sua conta sem um só membro lhe apodrecer. Sem chegar a subestimá-la, o organismo não reivindica a presença de uma gangrena localizada e física para se decidir a morrer.

A segunda conclusão é que o cérebro e os pulmões são os dois únicos órgãos realmente atingidos e lesionados pela peste, e acontece que ambos sob a dependência direta da consciência e da vontade. Podemos ficar sem respirar ou pensar, podemos acelerar a respiração, ritmá-la à nossa vontade, fazê-la consciente ou inconsciente no grau que quisermos, introduzir um equilíbrio entre as duas espécies de respiração: a automática, sob o comando direto do grande simpático, e a outra, que obedece aos reflexos do cérebro que se fazem conscientes.

De igual forma podemos precipitar, afrouxar e ritmar o pensamento. Podemos regulamentar o jogo inconsciente do espírito. Não pode dirigir-se a filtragem dos humores pelo fígado, a redistribuição do sangue no organismo pelo coração e pelas artérias, dominar a digestão, parar ou precipitar a eliminação das matérias no intestino. Parece, pois, que a peste manifesta nos sítios a sua presença, afeta todos os sítios do corpo, todos os lugares do espaço físico que tem a vontade humana, a ciência e o pensamento próximos, e em situação de se manifestarem.

Em 1880 e tal, um médico francês chamado Yersin, que trabalhava em cadáveres de indochineses mortos pela peste, isola um desses girinos de crânio arredondado e rabo curto só descortinável ao microscópio, e a isso chama micróbio da peste. Aos meus olhos não passa de um elemento material menor, infinitamente menor, que num qualquer instante do desenvolvimento do vírus surge mas nada me explica sobre a peste. E eu preferiria que esse médico me dissesse por quê têm uma vida de cinco meses as grandes pestes, com ou sem vírus, e depois a sua virulência decresce; e como foi possível aquele embaixador turco, de passagem pelo Languedoc nos finais de 1720, indicar uma espécie de linha que, à maneira de um extremo limite de propagação geográfica do flagelo, unia Bordéus a Nice por Avinhão e Tolosa. Coisa que os fatos iriam confirmar.

De tudo isto ressalta a fisionomia espiritual de uma doença com leis que não podem ser definidas cientificamente e cuja origem geográfica seria idiota querer determinar: porque a peste do Egito não é a do Oriente, que não é a de Hipócrates, não é a de Siracusa, que não é a de Florença, a Negra, a que deve a Europa medieval cinquenta milhões de mortos. Ninguém saberá dizer por que se abate a peste sobre o covarde em fuga e poupa o libertino que vai satisfazer-se nos cadáver Por que hão de o afastamento, a castidade, a solidão mostrar-se impotentes contra as arremetidas do flagelo, e por que há certo grupo de debochados que se isola no campo, como Bocaccio e mais dois companheiros de membro pronto e sete luxuriosas devotas, poder aguardar em paz esses dias quentes que vêem no seu auge a peste retirar-se; e por que. há de a peste, num castelo próximo transformado em cidadela guerreira com um cordão de homens armados que proíbem as entradas, fazer da guarnição inteira e dos seus ocupantes cadáveres, poupando os homens armados, únicos expostos ao contágio. E quem saberá explicar também como foi possível os cordões sanitários, que Mehmet Ali formou com um grande reforço de tropas no fim do século passado, mostrarem eficácia a proteger conventos, escolas, prisões e palácios por ocasião de uma recrudescência da peste egípcia? E que focos múltiplos de uma peste, com todas as características da peste oriental, tivessem podido rebentar repentinamente, na Europa medieval, em lugares sem nenhum contacto com o Oriente?

Destes insólitos, destes mistérios, destas contradições e sintomas ter-se-á que compor a fisionomia espiritual de uma doença que mina o organismo e a vida até ao rasgão e ao espasmo, tal uma dor que vai crescendo de força e se infiltra cada vez mais, multiplicando as suas avenidas e riquezas por todos os círculos da sensibilidade.

Desta liberdade espiritual, que o desenvolvimento da peste acompanha sem ratos, sem micróbios e sem contatos, pode porém extrair-se o jogo absoluto e sombrio de um espectáculo que vou tentar analisar.

Instalada a peste numa cidade, os seus quadros desabam, deixa de haver redes de abastecimento público, exército, polícia, município; ao sabor dos braços disponíveis acendem-se fogueiras para queimar os mortos. Cada família quer ter o seu. Depois, começa a rarear a lenha, fazem-se raros lugares e chamas, à volta das fogueiras há lutas de família logo seguidas por uma fuga geral, porque os cadáveres são aos montes. Já os mortos atravancam as ruas com pirâmides instáveis que os animais vão roendo pelas bordas. O mau cheiro sobe no ar como uma chama. Ruas inteiras ficam obstruídas com pilhas de mortos. Nessa altura é que as casas se abrem e empestados delirantes se espalham a gritar pelas ruas, com o espírito carregado de imaginações terríveis. O mal que lhes corrói as vísceras, que lhes percorre o organismo inteiro, liberta-se em foguetes através do espírito. Outros pestíferos sem inchaços, sem dor, sem delírio e sem petéquias, olham-se com orgulho ao espelho porque se sentem a vender saúde, mas caem mortos com a navalha da barba na mão, cheios de desprezo por quem já estava empestado.

Por sobre os ribeiros sangrentos, grossos, virosos, cor de angústia e ópio que jorram dos cadáveres, estranhas personagens revestidos de cera, com narizes de uma ana de comprido, olhos de vidro, empoleiradas numa espécie de sapatos japoneses, feitos de placas de madeira duplamente associadas, umas horizontais como solas, outras verticais que isolam dos humores infectos, passam a salmodiar litanias absurdas cuja virtude as não impede, por sua vez, de sucumbir no braseiro. Estes médicos ignaros mais não revelam do que o seu medo e infantilidade.

A escória da população, ao que parece imunizada pelo seu cúpido frenesi, entra nas casas abertas e deita a mão às riquezas que sabe inúteis para quem as tiver. E só então o teatro se instala. O teatro, quer dizer, o imediato gratuito que incita a atos inúteis e, nesse instante, sem proveito.

Os últimos vivos exasperam-se, o filho até então submisso e virtuoso mata o pai; o casto sodomiza o próximo. O luxurioso torna-se puro. O avarento atira ouro às mãos cheias pela janela. O herói guerreiro incendeia a cidade que outrora salvou com sacrifício. O elegante aperalta-se e vai passear no açougue. Nem a ideia de uma ausência de sanções, nem de uma morte próxima, basta para motivar atos de tão absurdo gratuito entre pessoas que julgavam a morte incapaz de pôr fim fosse ao que fosse. E como explicar esta subida de febre erótica nos pestíferos curados que, em vez de fugirem, ali ficam e procuram arrancar uma condenável volúpia a moribundas ou mesmo a mortas semi-esmagadas pelo montão de cadáveres onde o acaso as aninhou?

Porém, se este gratuito frenético precisa de um flagelo maior para surgir., e esse flagelo se chama peste, talvez pudéssemos investigar quanto vale este gratuito em relação à nossa personalidade total. O estado do pestífero que morre sem destruição de matéria, trazendo em si todos os estigmas de um mal absoluto e quase abstrato, é idêntico ao estado do ator a quem os sentimentos sondam integralmente e perturbam sem proveito para a realidade. No aspecto físico do actor, como no do empestado, tudo mostra que a vida reagiu em paroxismo e, no entanto, nada aconteceu.

Entre o empestado a correr aos gritos no encalço das suas imagens, e o ator no encalço da sua sensibilidade; entre o ser vivo composto pelas personagens que, sem isto, ele jamais teria pensado imaginar, que constrói no meio de um público de cadáveres e alienados delirantes, e o poeta que inventa intempestivamente personagens e as entrega a um público de igual modo inerte ou delirante, há outras analogias que apenas dão notícia das verdades que contam e levam a acção do teatro, tal como a da peste, ao plano de uma verdadeira epidemia.

Ali, onde as imagens da peste, relacionadas com um poderoso estado de desorganização física, são como os derradeiros foguetes de uma força espiritual que se esgota, as imagens da poesia no teatro são uma força espiritual que inicia a trajetória no sensível e despreza a realidade. Uma vez lançado na sua fúria, para não cometer um crime o ator precisa de infinitamente mais virtude do que o assassino coragem para conseguir executar o seu; e. neste ponto, pelo seu gratuito é que a ação de um sentimento no teatro surge como qualquer coisa infinitamente mais válida do que um sentimento realizado.

Perante o furor do assassino que se esgota, o do ator trágico mantém-se num círculo puro e fechado. O furor do assassino consuma um ato, descarrega-se e perde o contacto com a força que o inspira, mas não voltará a alimentá-lo. O do ator toma uma forma que se vai negando ao libertar-se, fundir-se na universalidade.

Se realmente quisermos admitir agora esta imagem espiritual da peste, teremos de considerar os humores perturbados do pestoso como a face solidificada e material de uma desordem que, noutros planos, equivale aos conflitos, às lutas, aos cataclismos e às derrocadas que os acontecimentos nos trazem. E tal como não é impossível que o desespero inutilizado, e os gritos de um alienado num asilo, sejam causa de peste, também pode admitir-se muito bem que através de uma espécie de reversibilidade de sentimentos e de imagens os acontecimentos exteriores, os conflitos políticos, os cataclismos naturais, a ordem da revolução e a desordem da guerra, ao passarem ao plano do teatro se descarreguem, com a força de uma epidemia, na sensibilidade de quem os contempla.

Na Cidade de Deus, Santo Agostinho acusa esta semelhança de ação entre a peste que mata sem destruir órgãos e o teatro que provoca no espírito, sem matar, e não só de um indivíduo mas de um povo, as mais misteriosas alterações.

"Vós, que o ignorais, sabei - diz ele - que estes jogos cênicos, espetáculos de infâmias, não foram criados em Roma pelos vícios dos homens, mas por ordem dos vossos deuses. Mais razoável seria render divinas homenagens a Cipião do que a tais deuses; claro está que não valem o seu pontífice!...

Para acalmar a peste que mata os corpos, os vossos deuses reclamam que em sua honra se organizem estes jogos cênicos, mas o vosso pontífice opõe-se à construção do próprio palco porque quer evitar esta peste que corrompe as almas. Se ainda vos resta algum lampejo de inteligência que faça preferir a alma ao corpo, escolhei quem merece as vossas adorações: porque ao prever que o contágio iria acabar entre os corpos, a manha dos Maus Espíritos aproveitou alegremente esta ocasião para introduzir um flagelo muito mais perigoso, pois tanto ataca os corpos como os costumes. Com efeito, a cegueira é tal, a corrupção que os espectáculos provocam na alma é tal, que os dominados por esta paixão funesta, fugidos do saque de Roma e refugiados em Cartago, nos últimos tempos passavam no teatro o dia inteiro, delirando à porfia com os histriões."

Dar as razões precisas deste delírio comunicativo, é inútil. Mais valeria procurar as razões que levam o organismo nervoso a casar-se com as vibrações das músicas mais sutís até extrair delas uma espécie de perdurável modificação. Antes de mais, importa admitir que o jogo teatral, como a peste, seja um delírio e comunicativo.

O espírito acredita no que vê e faz aquilo em que acredita: é o segredo da fascinação. E Santo Agostinho, no seu texto, nem um só instante duvida da realidade desta fascinação.

Entretanto, há condições a reencontrar para fazer nascer no espírito um espectáculo que o fascina: e não se trata apenas de uma questão de arte.

Porque se o teatro é como a peste, não será apenas por atuar sobre importantes coletividades e as perturbar num sentido idêntico. No teatro, como na peste, há qualquer coisa simultaneamente vitoriosa e vingadora. Este incêndio espontâneo, que a peste ateia onde passa, sente-se bem que outra coisa não é além de uma liquidação imensa.

Um desastre social tão completo, uma tal desordem orgânica, esse extravasar de vícios, esta espécie de exorcismo total que pressiona a alma e a põe fora de si, indicam a presença de um estado que por outro lado é uma força extrema e no qual se encontram ao vivo todos os poderes da natureza, no instante em que ela vai consumar qualquer coisa essencial.

A peste apodera-se de imagens que dormem, de uma desordem latente, e leva-as por uma forma inesperada até aos gestos mais extremos; e o teatro, também ele, se apodera de gestos e leva-os a ficar fora de si: tal como a peste, refaz a cadeia entre o que é e o que não é, entre a virtualidade do possível e o que existe na natureza materializada. Recupera a noção das figuras e dos símbolos-tipos que atuam como golpes de silêncios, suspensões, calafrios, chamadas de humor, impulsos inflamatórios de imagens nas nossas cabeças bruscamente acordadas; todos os conflitos que dormem em nós ele nos restitui com as suas forças, e a estas forças põe nomes que saudamos como símbolos: e à nossa frente dá-se então uma batalha de símbolos projetados uns contra os outros, num impossível bater de pés; porque aí só pode haver teatro a partir do momento em que o impossível realmente começa e a poesia, que se desenrola na cena, alimenta e sobreaquece símbolos realizados.

Estes símbolos, que são o sinal de forças maduras mas até então mantidas escravas e inutilizáveis na realidade, rebentam sob a forma de imagens incríveis que conferem direito de cidadania e de existência a actos hostis por natureza à vida das sociedades.

Uma verdadeira peça de teatro perturba o repouso dos sentidos, libera o inconsciente comprimido, impele a uma revolta virtual que só pode, aliás, alcançar todo o seu preço permanecendo virtual; impõe às coletividades reunidas uma atitude heróica e difícil.

Assim é, para nossa estupefação maior, e mal o pano sobe, que vemos na Annabella de Ford uma criatura impelida a reivindicação insolente de incesto e que sustenta, com o vigor máximo de um ser consciente e jovem, o propósito de proclamá-lo e justificá-lo.

Nem por um instante oscila, nem um minuto hesita; e assim mostra como contam muito pouco todas as barreiras que pudessem levantar-lhe. É criminoso com heroísmo, é heróico com audácia e ostentação. Tudo o arrasta nesse sentido e o exalta, para ele não há terra nem céu mas a força da sua paixão convulsiva a que não deixa de responder uma paixão rebelde também, e de igual forma muito heróica de Annabella.

"Não choro com remorso, diz ela, mas com medo de não poder saciar a minha paixão." Ambos são falsários, hipócritas, mentirosos para bem da sua paixão sobre-humana que as leis estorvam e maltratam mas que eles vão colocar acima das leis.

Vingança por vingança e crime por crime. Quando os julgamos ameaçados, encurralados, perdidos, e quando estamos prestes a lamentá-los como vítimas, revelam-se prontos a devolver tudo ao destino, ameaça por ameaça e golpe por golpe.

Com eles andamos de excesso em excesso e reivindicação em reivindicação. Annabella é presa, acusada de adultério, incesto, espezinhada, insultada, arrastada pelos cabelos, e é grande o nosso espanto quando vemos que ainda provoca o carrasco e canta com uma espécie de heroísmo obstinado, em vez de tentar uma fuga. É o absoluto da revolta, é o amor sem tréguas e exemplar que nos faz a nós, espectadores, ofegar de angústia à ideia de que nada irá alguma vez detê-la.

Se, procurarmos um exemplo de liberdade absoluta na revolta, a Anabella de Ford oferece-nos esse poético exemplo associado à imagem do perigo absoluto.

E quando nos julgamos chegados ao paroxismo do horror, do sangue, das leis achincalhadas, da poesia, enfim, que sacraliza a revolta, somos obrigados a chegar ainda mais longe numa vertigem que nada pode deter.

Mas o fim disto, dizemos nós, é a vingança, é a morte por tanta audácia e também por um irresistível crime.

Pois muito bem, não. E Giovanni, o amante que um grande poeta exaltado inspira através de uma espécie de indescritível e apaixonado crime, vai colocar-se acima da vingança, acima do crime, acima da ameaça, acima do horror por um horror maior que ao mesmo tempo derrota as leis, a moral e quem ousa arvorar-se em justiceiro.

Uma armadilha é sabiamente urdida, encomendado um grande festim onde espadachins e esbirros estarão escondidos entre os convivas e prestes a atirarem-se a eles ao mais pequeno sinal. Este herói encurralado, perdido, que o amor inspira, não vai porém deixar que outros façam justiça a esse mesmo amor.

Quereis o cadáver do meu amor, parece dizer, mas vou ser eu a atirar-vos à cara esse amor, aspergir-vos com o sangue desse amor a cuja altura não sereis capazes de elevar-vos.

E mata a sua amante, e arranca-lhe o coração como se quisesse transformá-lo em repasto no meio de um festim onde os convivas é que talvez esperassem devorá-lo a ele.

E antes de ser executado ainda mata o rival, marido da irmã, que ousou interpor-se entre ele e esse amor, executa-o num derradeiro combate que surge como seu próprio paroxismo de agonia.

Tal como a peste, é pois o teatro um formidável apelo de forças que através do exemplo conduzem o espírito à fonte dos seus conflitos. E o exemplo passional de Ford não passa, sentimo-lo muito bem, do símbolo de um trabalho mais grandioso e absolutamente essencial.

A aterrorizante aparição do Mal, que era oferecida pelos Mistérios de Elêusis na sua forma pura e por completo revelada, responde ao tempo negro de certas tragédias antigas que todo o verdadeiro teatro deve reencontrar.

Se o teatro essencial é como a peste, não será pelo caráter contagioso mas porque é, como a peste, a revelação, o arranque, a projeção para o exterior de um fundo de crueldade latente pelo qual se localizam, num indivíduo ou num povo, todas as possibilidades perversas do espírito.

Tal como a peste é o tempo do mal, o triunfo das forças negras que uma força ainda mais profunda alimenta até à extinção.

Tal como na peste, há nele uma espécie de estranho sol, uma luz de intensidade anormal onde parece que o difícil e mesmo o impossível de repente se fazem nosso elemento normal. Como todo o teatro verdadeiramente válido, a Annabella de Ford fica à luz desse estranho sol. Assemelha-se à liberdade da peste onde o agonizante enche a sua personagem grau a grau, escalão a escalão, onde o vivo a pouco e pouco se faz uma grandiosa e sobretensa criatura.

Pode agora dizer-se que toda a verdadeira liberdade é negra e se confunde, de infalível forma, com a liberdade do sexo; que esta é, também ela, negra sem que saibamos muito bem porquê. Porque o Eros platônico, o sentido genésico e a liberdade de vida há muito desapareceram sob o revestimento sombrio da Libido que identificamos com tudo o que há de mais sujo, abjecto, infame no fato de vivermos, de nos precipitarmos para a vida com um rigor natural e impuro, com uma força sempre renovada.

E assim é que todos os grandes Mitos são negros, e fora de uma atmosfera de carnificina, tortura e sangue derramado não podem imaginar-se todas as magníficas Fábulas que às multidões contam a primeira partilha sexual e a primeira carnificina de essências que aparecem na criação.

Tal como a peste, o teatro é feito à imagem deste massacre, desta essencial separação. Deslinda conflitos, liberta forças, separa possibilidades e, se essas possibilidades e essas forças são negras, a culpa não será da peste ou do teatro mas da vida.

A vida, tal como é e no-la fizeram, não vemos que ofereça muitos temas de exaltação. Dir-se-á que através da peste, e coletivamente, um gigantesco abcesso tão moral como social se esvazia; e, tal como a peste, o teatro é feito para esvaziar coletivamente abcessos.

É provável, como diz Santo Agostinho, que o veneno do teatro lançado no corpo social o desagregue, mas fá-lo à maneira de uma peste, de um flagelo vingador, de uma epidemia salvadora onde as épocas crédulas quiseram ver o dedo de deus mas que não passa da aplicação de uma lei da natureza onde todo o gesto é compensado por um gesto, e toda a ação compensada pela sua reacção.

Tal como a peste, o teatro é uma crise, que tem o desenlace na morte ou na cura. E a peste é um mal superior porque é crise completa e depois da qual não resta mais nada do que a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo só alcançável com destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; e, para terminar, podemos ver que a ação do teatro, como a da peste, sob o ponto de vista humano é benéfica porque levando os homens a verem-se como são faz cair a máscara, põe a mentira à mostra, e a baixeza, a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria que tudo ganha até às mais claras certezas dos sentidos; e revelando às coletividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca teriam tido.

E o problema que se põe agora é saber se neste mundo que escorrega, que se suicida sem dar por isso, se encontrará um núcleo de homens capazes de impor esta noção superior do teatro que a todos nós vai restituir o equivalente natural e mágico dos dogmas em que já deixamos de acreditar."

 

 

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