4/6/20
 
 
Dois meses de guerra. Número de casos em Lisboa ultrapassa o Norte

Dois meses de guerra. Número de casos em Lisboa ultrapassa o Norte

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 16/03/2020 08:59

Casos na região de Lisboa ultrapassaram o norte. Falsa sensação de segurança pode levar a aumento menos controlado, avisa investigador.

Vão ser semanas duras na linha da frente na resposta aos doentes e famílias e com restrições para todos no dia a dia pelo menos nos próximos dois meses. A ministra da Saúde, que no sábado tinha dito que estavam a ser ultimados os modelos epidemiológicos e matemáticos para a expansão da Covid-19 em Portugal, revelou este domingo que a previsão é de que a curva de novos casos continue a aumentar até ao final de abril e mesmo depois continuarão a existir casos da doença, o que significa que todos os cuidados terão de continuar depois disso e que não há previsão para um regresso à normalidade.

Em fase de crescimento “exponencial” da epidemia, os circuitos para atendimento dos doentes mudam já esta semana, anunciou Marta Temido, que não antecipou locais exatos e disse que as orientações seriam emitidas aos serviços. Será privilegiado o atendimento em ambulatório (em locais específicos) ou em casa (a maioria dos casos de Covid-19 são doença ligeira), sendo que os hospitais ficam apenas para os casos graves e estarão definidos “locais separados”, disse a ministra da Saúde, assegurando ainda que está a ser reforçado o material de proteção, depois de continuarem os relatos de falhas de máscaras e outros equipamentos de proteção, bem como soluções desinfetantes. Também as farmácias estão com dificuldades em abastecer-se de produtos como máscaras e solução desinfetante – o álcool foi alvo de requisição por parte do Estado. A partir desta semana, muitas passarão a funcionar à porta fechada, ao postigo, para diminuir o risco de contágio das equipas.

Privado e público cancelam consultas e operações Os hospitais estão a preparar-se para um cenário de guerra, também a partir do relato que tem chegado dos profissionais de saúde em Itália e de Espanha, onde as medidas de contenção, implementadas gradualmente, falharam e os meios não foram suficientes para responder ao aumento exponencial de casos e de doentes a precisar de cuidados intensivos e se chegou nas últimas semanas ao ponto de ter de decidir quem é admitido para ventilação e cuidados intensivos e quem fica sem resposta, em função de critérios de idade e outras doenças. Um relato repetido já por diferentes médicos. No briefing do sábado, Marta Temido e a diretora-geral da Saúde deixaram claro que existe o receio de que o sistema possa não aguentar o embate se não houver uma alteração nos comportamentos que aplanem uma rápida progressão do vírus no país.

Já este domingo, o discurso foi menos grave, com a diretora-geral da Saúde a sublinhar uma maior mobilização da sociedade civil. Mas não há mais nem menos otimismo já que o cenário se mantém e as medidas que agora estão a ser tomadas, como encerramentos, só poderão ser visíveis no número de casos dentro de alguns dias. “O número de casos confirmados à data são pessoas que se infetaram bastantes dias antes. O que sabemos é que a curva está a fazer uma subida exponencial e teremos de ver se as medidas que tomamos enquanto sociedade vão levar a um achatamento”, disse Graça Freitas.

Marta Temido reiterou que estão a ser feitos esforços para adquirir ventiladores e agradeceu a disponibilidade manifestada por várias entidades, da fábrica chinesa que vai produzir ventiladores ao setor privado, agradecendo também aos laboratórios que demonstraram disponibilidade para fazer testes e entidades disponíveis para apoio psicossocial, programas de apoio a pessoas que estão em sua casa e circuitos de entrega de bens, elencou, sem referir nomes. Respostas que serão agora articuladas, disse.

A partir desta segunda-feira serão também canceladas progressivamente consultas e cirurgias não urgentes na maioria dos hospitais, medida que já tinha sido tomado nos hospitais que têm estado na linha da frente aos primeiros casos como o São João, o Santo António, no Porto, o Curry Cabral ou o Santa Maria, em Lisboa, onde se tem tentado também aumentar as consultas à distância (aconselhamento telefónico) para outros doentes. O reforço da hospitalização domiciliária e o alargamento das prescrições de medicação para doentes crónicos são outras medidas. A Associação Portuguesa de Hospitalização Privada anunciou que os hospitais privados também estão a cancelar consultas de especialidade e cirurgias não urgentes “no sentido de adaptar os recursos que permitam reforçar a complementaridade com os hospitais do SNS.” Mas a forma como serão usados os hospitais privados, militares e outros serviços não era ainda público, sendo que o plano de contingência nacional previa que quando o país entrasse na fase de mitigação a resposta fosse progressivamente descentralizada. O Governo já anunciou também que está em preparação a realização de testes no domicílio.

Lisboa ultrapassa norte Ontem estavam confirmados 245 casos e 281 pessoas aguardavam resultados das análises. Marta Temido revelou que há 18 doentes internados em cuidados intensivos, oito em estado crítico. Os casos confirmados na região de Lisboa e Vale do Tejo (116) ultrapassam agora os da região Norte (103).

Óscar Felgueiras, professor do departamento de matemática da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto que tem estado a acompanhar a evolução da epidemia, estima que se mantenha o crescimento exponencial na casa dos 45% até ao final da semana, devendo passar-se a barreira dos mil casos confirmados nos próximos dias (ver gráfico). Medidas como o encerramento generalizado das escolas, que entra hoje em vigor, deverão ter um efeito no abrandamento do aumento dos novos casos dentro de oito a dez dias, explica, dado o período médio de incubação do vírus (cinco dias) e o desfasamento entre início de sintomas e diagnóstico, uma janela temporal de aproximadamente oito dias.

Como algumas escolas e empresas tomaram medidas mais cedo, também por ordem das autoridades nomeadamente em casos ligados a doentes confirmados, é possível que em alguns locais se note um abrandamento e noutras não, sendo que há a somar a isso deslocações dentro do país e pessoas que continuaram a entrar de países com foco da doença. O investigador, que na semana passada traçou ao SOL previsões até à próxima quinta-feira, considera que estimar o aumento de casos a longo prazo é um exercício com muita incerteza, uma vez que a realidade dos diferentes países que implementaram medidas diferentes em diferentes fases não é totalmente comparável. Óscar Felgueiras admite contudo que um abrandamento do crescimento de novos casos poderá sentir-se mais cedo na região norte, onde foram confirmados inicialmente mais casos. No entanto, isso pode ter gerado uma sensação de falsa segurança a sul, ao mesmo tempo que se manteve a circulação de pessoas e turistas, o pode levar a um aumento menos controlado da epidemia na região de Lisboa. E considera que para uma maior contenção do crescimento seria necessário o país ir mais longe e restringir ao máximo o contacto social nesta fase crítica. Mesmo assim só poderia contar com resultados passados 10 dias.

 

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×