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Quem perde. Os prejuízos que uma pandemia pode causar

Quem perde. Os prejuízos que uma pandemia pode causar

Se, por um lado, há quem possa ganhar, as perdas devido ao coronavírus serão avultadas. O medo é o principal fator que afasta a população dos locais onde a propagação pode ser maior. Turismo, hotelaria, aviação e transportes são dos setores mais ameaçados.

Hotéis e alojamento local

O setor hoteleiro está a ser, para já, um dos mais afetados. Cancelamento de reservas tem sido a palavra de ordem dos turistas e, de acordo com as contas da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), a quebra de receitas pode atingir entre os 500 milhões e os 800 milhões de euros até ao final do primeiro semestre deste ano. O cenário não é mesmo animador: a juntar aos cancelamentos de reservas há também uma quebra das reservas futuras. No final do ano, a perda total para a hotelaria deverá ser de 20%.

Estas são as conclusões de um inquérito feito pela AHP aos seus mais de 400 associados, que representam 56% de todo o setor nacional. Durante o período entre 2 e 9 de março, 71% dos hotéis sentiram que a taxa de cancelamento foi superior à verificada no ano passado, com essa perceção a ser especialmente marcada no Porto e em Lisboa.

Mas nem tudo são más notícias. Os responsáveis do setor acreditam que o turismo mundial venha a normalizar até janeiro.

A AHRESP, que também representa este setor, aponta para quebras acima dos 40%, quando há uma semana rondavam os 15 a 30%.

O mesmo cenário repete-se no alojamento local, que fala em cancelamentos diários.

 

Restaurantes

Cancelamentos em cima da hora têm sido uma realidade do setor da restauração, principalmente se estivermos a falar de jantares de grupo. Ao i, a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) revela que, há duas semanas, cerca de 30% dos empresários do setor apontavam para quebras de 10 a 25% na faturação mas, uma semana depois, esses valores sobem para 40%. E a tendência é para se agravar.

Numa ronda feita pelo i, é fácil de detetar que os restaurantes estão mais vazios, e muitos dos empresários associam esta fase à altura da troika. Muitos optaram mesmo por fechar portas (ver pág. 6).

Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, admite que é necessário ”sensibilizar a Secretaria de Estado do Turismo e todo o Governo para a necessidade de se começar a trabalhar em medidas específicas para as empresas do alojamento e da restauração, que se deparam já com os efeitos do coronavírus”.

E lembra que esta situação de pandemia “se acentua numa época em que as empresas já iniciaram o reforço de contratação de mão-de-obra, bem como realizaram investimentos de requalificação e melhoramento das suas unidades para o período da Páscoa, que se avizinha, mas também para a época alta do verão,, procura essa que pode não se registar”.

 

Aviação

O setor da aviação tem sido um dos mais penalizados nesta altura. As suspensões de voos têm sido uma constante nestas empresas. Exemplo disso é a TAP, que decidiu suprimir mais 2500 voos devido ao impacto do surto de coronavírus. Estes cancelamentos juntam-se aos mil voos que já tinham sido anunciados na semana passada, equivalentes a 7% dos voos programados em março, 11% em abril e 19% por cento em maio. “Estas medidas justificam-se pela quebra nas reservas de viagens para os próximos meses que se tem verificado nos últimos dias”, revelou a companhia aérea.

A questão ganhou contornos mais carregados depois de o Governo ter decidido suspender os voos para todas as regiões de Itália por 14 dias. A esta restrição há que juntar o impedimento junto dos Estados Unidos, depois de Donald Trump ter anunciado a suspensão de todos os voos oriundos de países da União Europeia para prevenir a propagação do novo coronavírus, a partir desta sexta-feira – uma medida que irá durar pelo menos 30 dias (ver pág. 9).

A par das perdas devido ao cancelamento de voos há que contar ainda com as desvalorizações em bolsa. Só esta quinta-feira, as ações perderam mais de 10%, para mínimos de 2013.

 

Transportes públicos

As perdas para os transportes públicos devido ao Covid-19 podem ser grandes nos vários tipos de transportes existentes. Ao i, José Domingos, diretor da Antral, explica que existe “muita perda de clientes” e que o serviço decresceu “praticamente 50%”. No entanto, garante que os motoristas estão a levar a cabo os serviços de higiene necessários, mas mostram-se preocupados “com o controlo que não está a ser feito no aeroporto”. Quem pode vir a registar mais perdas é a CP, que anunciou ontem ter ajustado as condições de reembolso de bilhetes face ao “caráter excecional da situação” relativa ao surto do Covid-19. A maior flexibilidade estende-se “aos clientes que pretendam desistir da viagem de comboios Alfa Pendular, Intercidades, InterRegional, Regional e Turísticos”, e o reembolso deve ser solicitado nas bilheteiras até três horas antes da partida.

 

Transportes turísticos

Tal como os transportes públicos, também os turísticos já estão a registar perdas de clientes. No entanto, há um fator importante a ter em conta: uma vez que estes meses não são de época alta, a procura nesta altura já é mais reduzida. Ao i, Rodrigo Alves, empresário de tuk-tuks, explica que tem tido perda de clientes. “As ruas estão cheias de tuk-tuks, mas os clientes são poucos”, explica, acrescentando que a maior quebra está relacionada com os estrangeiros, uma vez que os portugueses raramente andam neste transporte. O responsável aponta para uma quebra de cerca de 50%, mas a preocupação maior ainda está para chegar: “A melhor época do ano para os tuk-tuks é a Páscoa. E se isto continuar assim, não sabemos como vai ser”, disse.

O mesmo cenário repete-se nos passeios turísticos de barco. Ao i, um dos empresários do setor garante que as visitas têm sido canceladas e não há perspetivas de novas reservas. A culpa é da falta de turistas.

Também as empresas de autocarros turísticos garantem que haverá menos de 10% das frotas nas ruas em março. Para abril, a perspetiva é de anulações e cancelamentos. “A nossa perspetiva para os próximos dois ou três meses é que o impacto seja fortíssimo”, diz um responsável do setor.

 

Eventos

O importante é prevenir e, por isso, devido ao coronavírus e às recomendações do Ministério da Saúde, os eventos com mais de cinco mil pessoas realizados ao ar livre devem ser cancelados ou adiados, bem como aqueles que reúnam mais de mil pessoas em recintos fechados. A medida pode trazer perdas não só para as promotoras de espetáculos, mas também para quem comprou bilhetes. Ana Sofia Ferreira, coordenadora do Gabinete de Apoio ao Consumidor da Deco, explica que “quando a data do evento é alterada, deve ser dado a escolher ao consumidor a opção que prefere”. “Se tiver interesse em utilizar o bilhete na nova data do espetáculo, tudo funciona normalmente”, mas no caso de perder esse interesse ou não ter disponibilidade para a nova data, então terá direito ao reembolso do bilhete”, diz a jurista. Mas não só os espetáculos foram cancelados. Por todo o país foram adiados vários eventos, feiras e atividades. Além disso, os encontros da Liga Nos e Liga Pro encontram-se suspensos por tempo indeterminado (ver págs. 34-35).

Já a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas garante que os cancelamentos de mais de 680 eventos colocam 2 mil postos de trabalho diretos em risco e ameaçam uma atividade que fatura 300 milhões por ano.

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