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Economia mundial treme e Portugal não escapa

Economia mundial treme e Portugal não escapa

Sónia Peres Pinto 15/03/2020 09:28

OCDE já reviu em baixa o crescimento da economia mundial. Economia nacional está a ser fortemente penalizada em determinados setores, como o turismo, automóvel e têxtil.

A pouco e pouco, a economia vai tremendo cada vez mais e Portugal não escapa a esta tendência de perdas que se vive com o impacto do novo coronavírus. Os sinais de alarme em relação a uma nova crise económica são crescentes. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) foi “obrigada” a rever em baixa o crescimento económico mundial este ano em 0,5 pontos percentuais, para 2,4% – face aos 2,9% previstos há quatro meses. Ao mesmo tempo vão surgindo múltiplos apelos para se concretizarem várias ajudas financeiras.

Também a Moody’s lembra que “a disseminação global do coronavírus está a resultar num choque simultâneo na oferta e na procura”, acrescentando esperar que “estes choques desacelerem materialmente a atividade económica, particularmente na primeira metade do ano”.

A agência de notação reviu em baixa a projeção para o conjunto dos países do G20 e espera agora que cresçam 2,1% em 2020 (menos 0,3 pontos percentuais que na estimativa anterior). Para os EUA, prevê que o produto interno bruto (PIB) expanda 1,5% (menos 0,2 p.p.); para a zona euro, que cresça 0,7% (menos 0,5 p.p.); e para a China, 4,8% (menos 0,4 p.p.). Esta é a segunda revisão em baixa das estimativas da Moody’s em menos de um mês.

“Quanto mais tempo o surto afetar a atividade económica, maiores serão as dinâmicas de recessão”, refere, acrescentando que “a extensão completa dos custos económicos não será clara durante algum tempo”. E alerta: “O receio de contágio irá penalizar o consumo e a atividade empresarial”.

Esse alerta já tinha sido dado pela OCDE ao afirmar que um surto “mais duradouro e intensivo, alargado às regiões Ásia-Pacífico, Europa e América do Norte, enfraqueceria as perspetivas consideravelmente”. E, neste caso, “o crescimento mundial poderia descer para 1,5% em 2020, metade do número projetado antes do surto do vírus”.

Portugal penalizado O setor turístico é um dos principais sinais visíveis desta crise iminente. Menos turistas, logo menor taxa de ocupação hoteleira e restaurantes vazios (ver págs. 24/25). Mas as consequências não ficam por aqui.

 A Organização Mundial do Turismo (OMT) reviu em baixa as estimativas para o turismo internacional este ano, apontando para recuos entre 1% e 3% e perdas que podem oscilar entre os 27 mil milhões e os 45 mil milhões de euros. Antes do surto, a OMT previa para 2020 um crescimento do setor entre os 3% e os 4% .

Também os setores do têxtil, vestuário e calçado já disseram que estão “preocupados” com os impactos do coronavírus, ora na obtenção de matérias-primas, ora na produção e exportação dos produtos. A Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS) garante que o setor vive “uma certa instabilidade que não pode ser positiva”. As empresas enfrentam “uma série de incertezas sobre se as mercadorias chegam ou se chegam a horas”.

O certo é que Itália é um dos principais fornecedores dos associados da APICCAPS, o que provoca “indefinição”. “Ainda não temos problemas na produção, mas as empresas começam a mostrar sinais de preocupação devido a este clima de incerteza, em que há negócios adiados e compradores a retardar as encomendas”.

O mesmo cenário repete-se no setor automóvel. Para já, a Associação Automóvel de Portugal (ACAP) garante que “neste momento não há notícia de constrangimentos à laboração das empresas do setor”, mas admite que “a manter-se esta situação, é possível que venha a acontecer, numa ou noutra unidade, uma redução da produção”.

No entanto, a entidade lembra que “logo no início da crise do coronavírus, as empresas do setor “começaram a prevenir-se para substituir eventuais peças e componentes que vêm das zonas mais afetadas, como a China ou o norte de Itália”, tendo estado a trabalhar até agora “com esse aprovisionamento”.

Estes constrangimentos foram reconhecidos pelo presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) ao admitir que alguns setores da economia estão já a ter problemas nas suas cadeias de abastecimento, nomeadamente no têxtil, algum setor automóvel, calçado e turismo.

A opinião é partilhada pela Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), que lembra que “as empresas têm os seus stocks mais ou menos controlados, e os componentes que vêm da China e de Itália [dois dos países mais afetados pela pandemia do Covid-19] não são assim muitos. Vêm sobretudo de Espanha, Alemanha e França, que são os nossos principais parceiros quer a nível de importações, quer de exportações”, afirmou o secretário-geral.

 

Governo afasta retificativo

Apesar dos receios do impacto económico em torno do coronavírus em Portugal, António Costa garantiu que “não há razão nenhuma para alterar as medidas que estão previstas no Orçamento do Estado”, disse no final da reunião do Conselho Europeu que se realizou, por teleconferência, esta semana. No entanto, o primeiro-ministro admite que vai ser necessário rever as previsões económicas no Programa de Estabilidade.

“No Programa de Estabilidade, vamos ter ocasião de proceder à atualização das previsões de crescimento económico, que serão afetadas pela situação que estamos a viver”, disse António Costa.

A garantia não convence os economistas. De acordo com vários especialistas contactados pela Lusa, a economia nacional poderá sofrer “impactos significativos” devido ao surto de Covid-19, numa situação que tem potencial para “contaminar” os bancos, reduzir as exportações e originar um orçamento retificativo.

A Comissão Europeia já anunciou que vai ativar um fundo de 25 mil milhões de euros para apoiar sistemas de saúde, pequenas e médias empresas (PME) e setores da economia particularmente vulneráveis. “Precisamos de atuar juntos, fazer tudo o que é necessário e atuar rapidamente. Esta é a forte mensagem partilhada pelos Estados-membros”, declarou Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, numa conferência de imprensa conjunta com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

A responsável disse ainda que vai propor esta semana ao Conselho e ao Parlamento Europeu que sejam libertados desde já 7,5 mil milhões de euros de investimento, para garantir liquidez.

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