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Manuel J. Guerreiro 13/03/2020
Manuel J. Guerreiro

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O estado de alerta que tende a ser de emergência

Ainda há não mais de três ou quatro semanas no máximo, muitos de nós, andávamos por aqui pouco ou mesmo nada preocupados com as notícias que iam chegando da China, dia após dia, com cada vez mais intensidade e gravidade.

Pouco depois, víamos aquela simpática e determinada senhora da Nazaré a mexer-se como uma verdadeira diplomata e política, exigindo, e bem, ao Governo da República toda a sua acção e empenho no tratamento que se impunha prestar ao cidadão português e seu marido de forma exemplar, preparando ao mesmo tempo o seu regresso - entretanto consumado - após a quarentena a que esteve sujeito, primeiro no navio cruzeiro onde trabalha e posteriormente num hospital do Japão, como bem nos recordamos.

Por cá, na Direcção Geral de Saúde (DGS), dizia-se que o vírus não viria bater à nossa porta. Seria algo "pouco provável". No entanto, poucos dias depois a mesma responsável afirmava ao Expresso que podíamos atingir “um milhão de infectados em Portugal”, para no dia seguinte, dizer que seriam só “vinte e um mil”...

O desnorte foi total como sabemos, com sucessivas intervenções públicas disparatadas vindas de todos os responsáveis políticos e governativos. O mesmo se passando na Europa, quer nas suas instituições, quer nos respectivos Estados-membros, tendo-se tornado a Itália, em poucos dias, no pior país a nível mundial. Sim o pior. Pois se atentarmos à sua dimensão e população, os casos ocorridos e a quantidade de óbitos que ascende já ao milhar e que vai aumentar substancialmente nos próximos dias, representa um peso muito superior ao que representam os mais de três mil mortos contabilizados na China, versus, a sua respectiva população.

A nossa vizinha Espanha é já o quarto pior país do mundo em número de vítimas mortais com mais de uma centena. França segue-lhe os passos e Alemanha não fica arás e tem uma quantidade preocupantemente considerável de pessoas infectadas.

Foi neste contexto que muitas vozes em Portugal foram alertando o poder político e governativo, exortando-o para a necessidade de haver uma resposta musculada à óbvia situação de perigo a que estivemos expostos sem que tivéssemos dado qualquer importância. O tom começou a subir e a preocupação de alguns (poucos) a aumentar.

Mesmo já depois de termos cerca de sessenta casos confirmados de pessoas infectadas com o coronavírus e depois de faculdades e universidades, escolas secundarias e básicas terem decidido encerrar preventivamente os seus estabelecimentos em resultado do possível contágio feito por professores e alunos, positivamente diagnosticados com odioso "vírus da China" mas vindo em larga escala de Itália e também de Espanha, tivemos aquele patético momento em que milhares desses estudantes (entre muitos outros irresponsáveis) resolveram ir para a praia de Carcavelos, numa daquelas demonstrações de estupidez colectiva que certamente irá perdurar para sempre na memória de quem a tenha.

Felizardos de todos aqueles que, como eu, puderem dizer: EU NÃO ESTIVE LÁ!

Ao mesmo tempo, navios cruzeiros repletos de gente oriunda sabe-se lá de onde e em que estado de saúde, atracam em Lisboa, certamente para delícia de um presidente da câmara municipal obcecado pelas maravilhas do turismo, mas em claro desrespeito pelo momento sério que se vive no país, na europa e no mundo.

Foi preciso tudo isto, para que finalmente o Governo e, em especial, o Sr. Primeiro-Ministro tivesse resolvido agir como se lhe era exigido.

A esse respeito felicito, sem ambiguidades, o Primeiro-Ministro António Costa pela comunicação ao país feita ontem, dando conta das medidas corajosas que foram decididas - após ouvidos todos os partidos políticos com representação parlamentar, sendo certo que outros que não a têm, estão igualmente alinhados com as medidas tomadas, estando a seu lado no combate ao odioso e virulento exército invisível - a bem das pessoas e na defesa do exclusivo interesse público em minimizar o contágio e evitar óbitos.

Poderá ser tarde? Pode. Não sabemos com certezas absolutas. Mas como diz o ditado, "mais vale tarde que nunca".

Terá custos económicos e financeiros elevados? Com certeza que sim. Mas paciência. Tudo se resolverá posteriormente. Primeiro está a vida das pessoas. De todas as pessoas!

Não é este, pois, o tempo de se discutir e de se apurarem responsabilidades políticas, pois estamos longe, muito longe, de termos um quadro final minimamente fiável ou sequer previsível quanto aos estragos provocados pela passagem do odioso vírus covid-19.

É preciso manter a serenidade. Mas é necessário que o país não se escude em bloquear a informação e sonegar a verdade aos portugueses. Por muito má que ela seja. O pior que o Governo e a DGS podem agora fazer é esconder os números, numa espécie de delay consciente para tentar evitar pânicos na população. É precisamente o contrário que tal situação inadvertida provocará. Permitindo, aliás, especulativas e mediáticas notícias a toda a hora, numa desinformação constante de um mundo virtual que vive disso e à custa disso, como é consabido. Pelo que, proponho um boletim diário com duas a três actualizações.

Quanto ao povo português e às pessoas em concreto, exige-se que tenham uma forte responsabilidade cívica e cumpram com todas as suas responsabilidades individuais, não contrariando as recomendações das autoridades oficiais e não se comportando como perfeitos terroristas-bombistas.

Se todos formos responsáveis poderemos ganhar rapidamente esta guerra!

Se assim tal não for cumprido, sendo necessário aumentar a ordem pública para se poder conter o contágio e a epidemia, caberá ao Sr. Presidente da República, com aprovação prévia da Assembleia da República, declarar o estado de emergência, nos termos da Constituição da República Portuguesa.

O poder político não tem por que temer usar todos os mecanismos necessários que tem ao seu dispor no combate a esta horrível pandemia e na defesa de um bem maior e que é a nossa própria sobrevivência.

Força Portugal!


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