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Espanha. O Covid-19 passou a realidade quando era já tarde demais

Espanha. O Covid-19 passou a realidade quando era já tarde demais

AFP João Amaral Santos 12/03/2020 10:01

O Governo dizia diariamente às pessoas que não aconteceria o mesmo que em Itália. Dias depois, o país vizinho perdeu o controlo.

 

Espanha pareceu, num primeiro momento, afastar o cenário de epidemia pelo novo coronavírus, mas os números das últimas 72 horas têm vindo a derrubar os prognósticos mais otimistas: 2236 infetados e 54 mortos, até à hora de fecho do jornal. Entre segunda e quarta-feira, foram registados mais 1656 infetados por Covid-19, a  maioria em Madrid, que contabiliza, pelo menos, 1024 casos e 31 mortos. Também as regiões de Vitória e Labastida (País Basco) e Rioja são zonas de risco.

O Governo de Pedro Sánchez colocou em prática um apertado plano de contingência com o objetivo de mitigar a propagação do surto e, sobretudo, evitar uma situação semelhante à que ocorre em Itália. O primeiro-ministro espanhol já reconheceu que se aproximam “semanas duras e difíceis”. “Faremos o que for preciso, onde for preciso e quando for preciso”, garantiu.

As primeiras medidas foram tomadas nas zonas de maior contágio, onde todas as escolas foram encerradas e as atividades culturais e desportivas canceladas, pelo menos durante as próximas duas semanas - na terça-feira ainda se jogou à porta fechada o Valência-Atalanta para a Liga dos Campeões, mas, ontem, a UEFA decidiu adiar os embates Sevilha-Roma e Inter de Milão-Getafe, que hoje se disputariam. E até as Fallas, populares festas de Valência, que se realizavam ininterruptamente desde o fim da Guerra Civil espanhola, em 1939, foram adiadas.

A atitude mudou A nova estratégia colide com a postura assumida pelas autoridades espanholas durante várias semanas. O primeiro caso do novo coronavírus em Espanha foi anunciado a 1 de fevereiro, em La Gomera, nas ilhas Canárias; o segundo surgiu volvidos dez dias, em Palma de Maiorca. Dois pacientes que entretanto já tiveram alta. 

As palavras de Fernando Simón, diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências de Saúde espanhol, foram chegando diariamente à população. “Cremos que Espanha não terá ou, no máximo, [terá] alguns casos diagnosticados”, afirmou na semana passada. Ontem, o discurso alterou-se. E a postura dos espanhóis também. “Estamos numa situação muito diferente de há uns dias”, admitiu Simón.

As autoridades  acreditam que o efeito das medidas só se farão sentir dentro de nove a dez dias, e o fim do contágio só se espera que aconteça dentro de dois meses, na melhor das hipóteses, ou dentro de quatro a cinco meses, segundo as previsões mais pessimistas. Fernando Simón apelou “à responsabilidade individual e das empresas   para cumprir o espírito das medidas que se adotaram para evitar a disseminação da doença”.

O Governo espanhol seguiu o exemplo de Itália e pediu às pessoas para limitarem as suas deslocações a casos imprescindíveis, dentro e fora das fronteiras. Caso isso não suceda, continua em cima da mesa avançar-se para o reforço das medidas. “Não fechámos nenhuma autonomia, mas é da responsabilidade individual de todos evitar que o Covid-19 chegue e se dissemine nas zonas que agora mesmo não estão tão afetadas”, disse Fernando Simón.

Quanto mais alertas têm vindo a ser emitidos, mais a população espanhola reage. E nem sempre da melhor maneira. Pese os apelos e recomendações, nas últimas horas houve uma corrida aos supermercados e às farmácias,  que levou a que produtos essenciais - como máscaras ou gel desinfetante - esgotassem rapidamente.

FMI pede apoio Ortega Smith, secretário-geral do Vox e deputado, é um dos espanhóis infetados com o coronavírus. Também a vice-presidente do Congresso, Ana Pastor, acusou positivo para o Covid-19.

Os casos de infetados mediáticos - onde se inclui o escritor Luís Sepúlveda, que adoeceu após marcar presença no festival Correntes D’ Escrita, na Póvoa de Varzim - generalizaram o temor, esvaziando as ruas, praças e parques, ao contrário do que até aqui acontecia. O rei Filipe VI cancelou as cerimónias que assinalariam os 16 anos dos atentados terroristas de Atocha, ocorridos em 11 de março de 2004. O Governo decidiu ainda encerrar os museus do Prado e Rainha Sofia, em Madrid, e suspender as ligações aéreas com Itália.

O impacto do surto no país vizinho é, para já, imprevisível, mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) adiantou uma estimativa rápida para a economia espanhola, considerando a situação “extremamente incerta a curto prazo”. O Produto Interno Bruto (PIB) espanhol de este ano vai crescer seguramente menos que os 1,6% previstos antes do surto”, refere a entidade. O FMI alerta para a necessidade de serem levadas a cabo políticas fiscais de caráter extraordinário e temporárias que protejam a população e mitiguem o golpe económico provocado pelo novo coronavírus.

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