23/9/20
 
 
Carlos Gouveia Martins 12/03/2020
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

Pandemia sem praia e que devia ter Governo e partidos de oposição juntos a uma só voz.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou oficialmente a epidemia de coronavírus de "pandemia". É a primeira pandemia da última década.

Para começar, é importante explicar a diferença entre surto, epidemia e pandemia. De forma simples, um surto torna-se epidemia quando se difunde bastante num determinado país ou, às vezes apenas numa determinada região, como o exemplo da doença do vírus Zika. Uma pandemia já é considerada uma ampla disseminação geográfica da epidemia por muitas partes do mundo, alastrando a vários ou todos os continentes. Sem complicar, é isto.

Assim, nesta pandemia do Covid, a nível mundial registamos mais de 124 mil casos em 113 países e mais de 4.500 mortes. Em Portugal, o número de pessoas infetadas pelo novo coronavírus subiu ontem para 59 (era de 41 na terça-feira), informou na manhã de quarta-feira a Direção Geral de Saúde (DGS).

Oficialmente, das 59 pessoas infetadas temos 33 homens e 26 mulheres. Dessas 59, 57 estão internadas. 11 ou 12 casos foram importados: 2 de Espanha e 9 de Itália e possivelmente 1 caso importado de Alemanha, estando este último em investigação segundo a DGS.

São factos. É isto que a atual pandemia nos demonstra.

De acordo com a OMS, uma pandemia “não é uma palavra para ser usada de forma leve ou descuidada. É uma palavra que, se usada incorretamente, pode causar medo irracional ou aceitação injustificada de que a luta acabou, levando a sofrimento desnecessário”.

Concordo e subscrevo. É fundamental termos todos esta consciência. Não é uma brincadeira.

No entanto, sabemos que há em cada um, ou na larga maioria dos perto de 8 mil milhões de habitantes deste planeta, uma forte tendência de comentador. Do futebol à política, todos têm opinião e conhecimento cabalmente inquestionável sobre toda e qualquer matéria. Sobre saúde pública e a pandemia que vivemos não há exceções de ignorância popular. Muito se vê e lê. Alarmismos desmedidos, fake news nas redes sociais, políticos altamente qualificados de sofá que tudo iriam gerir melhor e fortes profissionais de saúde de algibeira que têm na sua cabeça a cura e vacinação para erradicar totalmente o coronavírus do planeta.

Infelizmente, esta posição arrogante de desonestidade intelectual é manifestamente negativa. Cria alarmismo, não é instrutiva e causa uma maior convulsão social totalmente desnecessária em casos de pandemia.

Sobre os dias que vivemos e, infelizmente, iremos viver durante mais algum tempo, creio que há algumas notas sérias que devíamos deixar para reflexão.

 

Primeira nota: O respeito pelas entidades e classe científica.

À imagem do que o mediático treinador de futebol Jurgen Klopp disse, esta atual pandemia é um assunto demasiado sério para qualquer comum mortal sentir-se em condições de comentar e tomar partido público sobre o que se fazer. Não é correto confundir, no nosso caso, os portugueses. Não é correto atirar para o ar bitaites do que não se sabe ou, por mero estatuto de “likes” de redes sociais, ter considerações sobre quais ou qual o caminho a seguir para mitigar este caso até se entrar na fase de recuperação da pandemia.

Há, sem margem para dúvidas, entidades de saúde e governamentais capazes de decidir qual o caminho a seguir. Há que seguir as recomendações da DGS e, em caso de dúvida, contactar SNS24 (808 24 24 24). Ponto final, parágrafo.

 

Segunda nota: A sociedade em que vivemos.

A quarentena não é uma infantilidade que nos faça ter umas férias forçadas e tempo para aproveitar o sol ou a praia. Lamentamos todos, porque seria melhor para a nossa vida pessoal e familiar, mas não é. Vejamos, e que triste e assustador é visualizar as imagens que chegam de lá, o caso de Itália. Foram muitos os italianos que decidiram que o Covid-19 era uma ótima oportunidade para irem às compras, passearem, aproveitarem o sol e colocarem as conversas em dia. Agora visualizamos as suas cidades completamente vazias. Sabemos que os italianos estão confinados às suas casas, sem poder sair, com medo deste vírus contagioso. É disso que se trata, para os mais esquecidos, é um desconhecido vírus que se demonstra muito contagioso.

Pegando no exemplo de Itália, como é possível assistirmos calados às muitas imagens da praia de Carcavelos que estava completamente cheia de gente durante o dia de ontem (dia em que a OMS declara Pandemia Mundial)? Como podemos silenciar a razão e seriedade ao vermos impávidos e serenos a irresponsabilidade de muitos jovens portugueses – sem dúvidas, parte são estudantes que por estes dias ficaram sem aulas por encerramento das suas Faculdades - a encheram o jardim do Arco do Cego de Lisboa na madrugada de terça-feira para conviver?

Assim, não. Ganhem responsabilidade. Convivam mais com a razão e aproveitem para dar uso às redes sociais para conviver com a devida distância nesta fase preocupante. As tão frequentes “medidas de contenção” ditas nos últimos dias não incluem combinar beber um café ou uma saída com os amigos, uma ida à praia, ao cinema, a um concerto ou a um evento desportivo. Infelizmente, não.

 

Terceira nota: A nota política.

A sugestão que já muitos apregoam e perguntam porque tarda em surgir. A pandemia não é ideológica e muito menos partidária é a sua resposta e atuação.

Ganharíamos muito se o Governo liderado por António Costa se reunisse já hoje, quinta-feira, com todos os partidos que têm assento na Assembleia da República (do Livre ao Chega, todos) e, a uma só voz mas com todos na mesma sala, perante o pais e com as informações oficiais de quem tem credibilidade como a DGS, anunciassem as inevitáveis medidas para mitigar esta pandemia. Esse exemplo de superior saber estar político iria dar um sinal de seriedade, de união e, muito importante, uma mensagem de urgência quanto ao cumprimento das orientações de saúde pública que todos devemos cumprir.

Politicamente, não é altura de filmes partidários. É altura de cada agente político ser superior ao que o seu cunho partidário na lapela quer beneficiar com este momento.

Sejamos o que o momento exige de todos os quase oito mil milhões de preocupados com o Coronavírus no mundo: Responsáveis por cumprir as orientações das entidades responsáveis de saúde, lestos a auxiliar e prestar informações corretas a quem questionar e vigilantes contra as infelizes falsas informações que circulam de boca em boca e nas redes sociais.

Todos contamos. Sem praia, sem convívios, com cooperação e a uma só voz política.

 

 

Carlos Gouveia Martins

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×