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10 de março de 1964. As más horas de cinco ferroviários insurretos

10 de março de 1964. As más horas de cinco ferroviários insurretos

Afonso de Melo 10/03/2020 23:20

O Ministério Público acusava-os de atividades subversivas para “alterar a Constituição Política do Estado”.
 

A Boa Hora fervia de inquietação. O tribunal, quero dizer. Reparem na parangona: “Um dos mais volumosos processos relacionados com atividades subversivas que visavam alterar a Constituição Política do Estado e a sua forma de governo”. Praticamente uma revolução, convenhamos. O Plenário Criminal reunido, mais uma vez, para outra sessão de um julgamento longo, longo. Cinco réus considerados perigosíssimos. Todos eles com a mesma profissão: revisor de bilhetes da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses. Insurretos até ao tutano. Firmino João Martins (38 anos), natural de Paderne, concelho de Albufeira; José Gonçalves Duque (36), Sernadas do Ródão, Vila Velha de Ródão; José Constâncio de Matos Gaspar (39), nascido no concelho de Gavião, Alto Alentejo; João Dias Marques (42), Benquerença, Castelo Branco; Martinho Peres Valente (40), Alfrida, Vila Velha de Ródão. Todos eles presos, claro está. Em isolamento.

O Ministério Público (MP) acusava: “São membros do Partido Comunista Português e pretenderam subverter a maioria dos ferroviários do centro de Portugal, formando com eles uma célula de empresa denominada Organismo dos Ferroviários. Juntamente com elementos das oficinas de Campolide e de Santa Apolónia, formaram uma vasta rede dentro da CP. Colaboradora, igualmente, uma antiga empregada de nome conhecido Adélia, ausente em parte incerta, e que se apropriou de uma elevada quantia retirada das bilheteiras”.

A organização tinha ainda um aparelho de agitação que distribuía imprensa clandestina. O MP deu como provado que através de uma casa de apoio, andavam a ser perturbadoramente espalhados milhares de exemplares do Avante!, Militante, Camponês, Têxtil, Tribuna Livre, Tribunal Militar e Amanhã, além de muitos outros panfletos. Provou ainda que estavam preparadas para os dias 1 e 28 do mês de maio duas enormes manifestações contra a ordem instituída, tal como se depreendia dos inúmeros manifestos espalhados ao longo da Linha de Sintra e entre Cascais e Lisboa. Nesses manifestos ficava clara a intenção de se avançar para um ataque físico a todas as forças de manutenção que se opusessem aos manifestantes.

O repórter de serviço relatou fielmente o estado depressivo dos acusados. Não falou em arrependimento, mas sublinhou que no exterior da sala de audiências havia uma certa indignação popular contra os insurgentes. O desembargador António de Almeida Moura admitia que podia demorar até ser lavrada sentença. Tinha muito material sobre o qual se debruçar. E, presos, os revisores não metiam medo. 

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