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Max von Sydow. O homem que jogou xadrez com a morte

Max von Sydow. O homem que jogou xadrez com a morte

Cláudia Sobral 10/03/2020 10:04

O ator sueco eternizado nos papéis de Antonius Block, o cavaleiro de O Sétimo Selo, e de Padre Merrin de O Exorcista morreu no domingo em Paris. Tinha 90 anos.

“Conheci a morte hoje. Estamos a jogar xadrez”. Damos com um cavaleiro deitado em calhaus, à beira-mar, segurando a espada, ao lado de um tabuleiro com um jogo de xadrez. Dois cavalos à procura de matar a sede na água salgada e ainda outro homem, estendido. Antonius Block, o cavaleiro procura o céu com o olhar. Procurará Deus? Procura qualquer evidência da sua inexistência. E é então, nesse momento, nesse silêncio cortado apenas pelo rebentar as ondas, que dá de caras com a Morte a quem, como se de teatro se tratasse, Bergman dá a forma humana necessária para lhe conceder o estatuto de personagem.

– Quem és?

– Sou a Morte.

– Vieste buscar-me?

– Tenho andado a teu lado há muito tempo.

– Eu sei.

– Estás preparado?

– A minha carne tem medo, mas eu não.

E a_Morte aproxima-se.

– Espera um bocado.

– Dizem todos isso.

– Jogas xadrez, não jogas?

– Como é que sabes?

– Vi em pinturas.

Entretanto a Morte aceita, ou dá a impressão de aceitar, fazer parte do jogo que lhe propõe o cavaleiro:_“Enquanto te resistir, vivo. Se ganhar, libertas-me”. Virá a advertir a Morte que a ela ninguém escapa. E em O Sétimo Selo pode não lhe ter escapado Block. Fora do ecrã, Max von Sydow, o ator eternizado pelo papel do cavaleiro de Cruzada que numa Suécia do século XIV assolada pela peste ousa enfrentar a Morte num tabuleiro de xadrez, sobreviveu décadas ao ator que a interpretava no clássico de Bergman – Bengt Ekerot, nove anos mais velho, que morreria em 1971, em Estocolmo. Sobreviver-lhe-ia até ao domingo passado, quando morreu, com 90 anos e uma carreira de sete décadas e largas dezenas de filmes que não se ficaram apenas pelas produções suecas ou europeias. A prova é que como um dos últimos trabalhos deixou a sua participação em A Guerra dos Tronos, como Brynden Rivers, o Corvo de Três Olhos.

Como ator, von Sydow, visto como um dos mais brilhantes da sua geração, trabalhou até ao fim da vida. Ainda por ver está o que será o resultado de Echoes of the Past, produção britânica com realização do grego Nicholas Dimitropoulos, que protagoniza como Nikolas Andreou, a partir da história do massacre perpetrado pelos nazis na cidade grega de Kalavryta em dezembro de 1943. Mas vamos à história de como chegou aqui.

Nascido Carl Adolf von Sydow, Max von Sydow nasceu a 10 de abril de 1929 numa família de professores (o pai, etnologista e professor de folclore comparado na universidade local; a mãe, professora numa escola) em Lund, no sul da Suécia, o país onde viria a afirmar-se um dos nomes maiores do cinema de todos os tempos, Ingmar Bergman, que von Sydow acompanharia em 11 filmes. Desde O Sétimo Selo (1957), o primeiro de todos, que deu ao ator, ainda em início de carreira, aquele que foi o seu quarto papel no cinema. Frequentes foram também nesse período as colaborações entre ambos no teatro, juntamente com nomes como Gunnar Björnstrand, Ingrid Thulin, Bibi Andersson (falecida há menos de um ano) e Gunnel Lindblom.

Mas não seria apenas Bergman (no mesmo ano de O Sétimo Selo estreou-se, também com a sua participação, Morangos Silvestres) a no papel do cavaleiro que num jogo de xadrez desafia a morte eternizar o ator por duas vezes nomeado para os Óscares (em 1987 com Pelle, o Conquistador, de Bille August, e com Extremamente Alto, Incrivelmente Perto, de Stephen Daldry, em 2011) e outras duas para os Globos de Ouro, além de distinguido em Veneza com o Prémio Pasinetti (1982), com uma Palma de Ouro honorária em Cannes, em 2004, e, um ano antes da sua morte, com o prémio carreira do Festival de Cinema de Estocolmo.

 

Mais do que um “aristocrata do cinema”

Depois da projeção que lhe deu a estreia em Cannes de O Sétimo Selo, considerado na sua estreia o segundo melhor filme do ano pelos Cahiers du Cinéma e no certame francês distinguido com o Prémio Especial do Júri, Hollywood não tardou a chamá-lo, apesar de von Sydow ter tardado a responder. Conta-se que terá recusado um convite para ser Capitão von Trapp em Música no Coração (1965), de Robert Wise. O_papel acabaria entregue a Christopher Plummer. Mas acabaria por vir a aceitar atravessar ao Atlântico por outros entre os quais se contam o de Jesus Cristo em A Maior História de Todos os Tempos, de George Stevens, estreado no mesmo ano, ou o de Padre Merrin em O Exorcista, o clássico do terror de William Friedkin que em 1973 o tornou, caso não fosse ainda, um rosto conhecido e reconhecido por todo o mundo.

“O que procuro como ator é uma variedade de papéis”, disse certa vez numa entrevista que ontem citava a BBC. “É muito aborrecido ficar mais ou menos preso a um tipo de personagem”. E essa máxima parece ter seguido pelos mais de 70 anos de carreira Max von Sydow, que nos últimos anos participou ainda em O Escafandro e a Borboleta (2007), de Julian Schnabel, em Shutter Island (2010), de Martin Scorsese, e foi também chamado por J.J. Abrams para interpretar Lor San Tekka no filme que marcou em 2015 o regresso da saga Star Wars, O_Despertar da Força. Ator para grandes sucessos de bilheteira e ao mesmo tempo o ator que ontem o crítico Peter Bradshaw descrevia no Guardian como o “aristocrata do cinema” que o fez chorar. “A severidade apaixonada de von Sydow – e a sua habilidade para personificar a nobreza ascética de alguma ordem sacerdotal remota ou de uma ordem de cavaleiros mas com falhas muito humanas – formaram os alicerces de O Sétimo Selo e a impressionante série de filmes que fez com Bergman nas décadas de 1950 e 1960”.

Na hora da morte, como em todas, von Sydow não deixará alguma vez de ser aquele com que Bergman se cruzou e com quem trabalhou ao longo de anos nas produções a que, ao contrário dos filmes, poucos tiveram o privilégio de assistir no Teatro Municipal de Malmö entre um grupo de atores como terá havido poucos.

Mas mais do que isso, von Sydow simbolizava “toda uma atitude distintamente elevada na arte cinematográfica da Europa”, escrevia ainda Bradshaw, para logo notar como “desde a morte de Bergman, em 2007, que se poderia dizer de von Sydow ser o último portador do [seu] estandarte”. A sorte é que, ao contrário de no teatro, no cinema as personagens não morrem com os homens. Ainda menos quando se trata de um desses que um dia jogaram xadrez com a Morte.

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