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Se epidemia evoluir, doentes sem gravidade ficam em casa

Se epidemia evoluir, doentes sem gravidade ficam em casa

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 04/03/2020 08:02

Ministra da Saúde garantiu ontem que serviços vão ter verbas para reforçar stocks e equipamentos de proteção e que não haverá bloqueios a contratações de pessoal. Primeiro caso confirmado em Lisboa.

Com quatro casos confirmados para o novo coronavírus em Portugal, o país está a preparar-se para uma segunda fase da epidemia e a diretora-geral da Saúde deu na segunda-feira esse cenário como quase certo. “A epidemia vai escalar e nós temos de escalar as medidas”, disse Graça Freitas, na RTP. Tanto a diretora-geral da Saúde como a ministra da Saúde, Marta Temido, que ontem foi ouvida na comissão parlamentar de Saúde, garantiram que a resposta para a segunda fase está a ser ultimada e, em alguns casos, já em execução.

Se inicialmente, por exemplo, os testes do coronavírus eram só feitos no Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, a capacidade está a ser alargada a nível nacional e o teste já está disponível no Hospital de S. João, seguindo-se a implementação noutros hospitais de Lisboa, Coimbra, Alentejo, Algarve e ilhas. As camas previstas nos hospitais de segunda linha já começaram a ser ativadas na região Norte, mas Marta Temido corrigiu esta terça-feira a informação avançada por Graça Freitas de que a capacidade no S. João e no Santo António para receber casos suspeitos se tinha esgotado na segunda-feira à noite. À hora de fecho desta edição, no entanto, a Direção Geral da Saúde não tinha feito qualquer ponto de situação sobre quantas pessoas estão em isolamento profilático, quer em casa, quer nos hospitais, bem como sobre a evolução do número de casos suspeitos, não tendo publicado um boletim informativo pelo segundo dia consecutivo.

A DGS confirmou os dois novos casos. Como o i avançou, o primeiro resultado positivo em Lisboa foi confirmado ao início da tarde no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, tratando-se de um homem de 37 anos. O segundo doente tem 60 anos e está hospitalizado no Porto. Ambos os casos foram ligados aos primeiros doentes confirmados, pelo que não se trata ainda de indícios de transmissão na comunidade em que não seja evidente o elo de contacto. O caso do Porto é um contágio em contexto profissional.

Marta Temido estava a dar explicações no Parlamento quando foram conhecidos os novos casos. A ministra da Saúde reconheceu constrangimentos na linha SNS 24 e que é preciso reforçar a informação aos profissionais de saúde, mas recusou a falta de preparação. “Estamos interessados em combater o vírus mais do que em mostrar que o combatemos”, explicou a ministra da Saúde.

Marta Temido disse que o plano de contingência nacional, que resulta da adaptação de planos anteriores, está em “afinamentos técnicos antes de ser partilhado”. A Ordem dos Médicos pediu a publicação urgente desse plano, apelo feito também ontem pelo Sindicato Independente dos Médicos, que acusa o Governo de recusar envolver as organizações médicas e de outros profissionais na preparação para a epidemia. “Infelizmente mantêm-se as indefinições patentes na atuação dos responsáveis da DGS e do MS e a falta de orientações precisas”, disse o SIM em comunicado, questionando se existe equipamento de proteção individual em todas as instituições ou se, na eventualidade de aumento de casos positivos, há recursos humanos e locais previstos para os tratar.

Na audição no Parlamento, Marta Temido garantiu que, em articulação com as Finanças, serão disponibilizadas verbas para reforço de stocks de medicamentos e de equipamento de proteção. A ministra reiterou que estão disponíveis 2000 camas comuns no SNS para eventual isolamento de doentes ou casos suspeitos, 300 quartos de pressão negativa e 300 camas de cuidados intensivos.

Questionada pelo Bloco de Esquerda sobre se essa rede de resposta de segunda linha acautelou o reforço das equipas para que possa ser ativada, Marta Temido disse que até ao momento houve pedidos de três hospitais para reforço de pessoal (S. João, Curry Cabral e Santiago do Cacém), garantindo que não haverá bloqueios a contratações. “Se houver necessidade de ativar meios humanos, não hesitaremos em autorizar e sujeitá-la depois à ratificação das Finanças. Neste momento estes meios solicitados são meios para adicionar capacidade de resposta no caso do surto crescer”, disse.

Também o primeiro-ministro, que visitou ontem o Hospital de S. João, onde estão agora internados dois doentes, assegurou que o dinheiro “não é seguramente um problema”, não tendo sido revelado se haverá uma linha de financiamento específico para os serviços de saúde, como propôs a Ordem dos Médicos. O primeiro-ministro explicou também que, no caso de haver uma grande expansão do vírus, haverá uma fase em que muitos doentes que hoje estão internados poderão ficar em isolamento nas suas casas, clarificando assim um pouco mais os planos. Outra mudança avançada na segunda-feira à noite pela diretora-geral da Saúde na RTP é a hipótese de aguardar os resultados das análises em auto isolamento em casa em vez de permanecer no hospital, já implementada no S. João. Por sua vez, Filipe Froes, pneumologista e responsável pelo gabinete de crise da Ordem dos Médicos, defendeu que devem ser planeados locais de atendimento específicos para casos do coronavírus, como na pandemia de gripe A, em 2009, existiram os GAG – Gabinetes de Apoio à Gripe A – separando assim casos suspeitos de outros doentes.

Parlamento cria gabinete de crise O Parlamento já tem um plano de contingência, tendo sido criado uma espécie de gabinete de crise, um “gabinete de Gestão do Covid-19”, composto pelo secretário-geral do Parlamento, por um médico do gabinete médico e de enfermagem, pela diretora administrativa e financeira e pelo diretor do gabinete de comunicação. No limite, e se a situação o justificar, o presidente do Parlamento, Ferro Rodrigues pode, depois de ouvir a conferência de líderes, determinar medidas adicionais sobre o funcionamento do plenário, deslocações, visitas à Casa da Democracia, incluindo a assistência do público às reuniões plenárias. No pacote de medidas prevê-se ainda a compra de kits para quem viaja, para o pessoal médico e de enfermagem, reforço de limpeza, de desinfetantes, compra de máscaras e termómetros, lenços, entre outros materiais. Além disso, estão previstas instalações para isolar casos suspeitos, com casa de banho específica, e soluções para teletrabalho, medidas que o Governo deu cinco dias para serem preparadas em todos os serviços e estabelecimentos públicos. Com C.R.

 

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