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7 de março de 1956. Nos nossos mortos ninguém mexe!!!

7 de março de 1956. Nos nossos mortos ninguém mexe!!!

Afonso de Melo 03/03/2020 21:02

Por causa das obras do metropolitana estava aberta a discussão: tirar ou não o monumento da Avenida da Liberdade.

Era, numa daquelas expressões que o portuguesinho valente, de Carrazeda de Ansiães a Óis da Ribeira, tanto gosta de soltar, um autêntico berbicacho. E nada pequeno, pelo contrário, muito volumoso. A Câmara Municipal de Lisboa andava às voltas com a decisão de mudar o Monumento aos Mortos da Grande Guerra da Avenida da Liberdade para outro local talvez mais condigno, embora não se imagine um aconchego melhor do que o da mais proeminente artéria da capital. Mas as obras do metropolitano avançavam a todo o gás, tapumes rodeavam a obra de Maximiano Alves, inaugurada a 22 de novembro de 1931, o local estava transformado numa estrumeira, vozes se levantaram, e alto, reclamando contra o estado de coisas. Não se tratava assim, por cima da burra, um padrão que assinalava os sacrificados lusitanos que tinham morrido nos campos da Flandres por amor à liberdade.

Parecia inevitável, desde logo, a desmontagem do monumento. Laje a laje, numeradas com rigor para que depois fosse simples reerguê-lo. Mas não seria melhor aproveitar o serviço para o tirar dali, daquele lugar um bocado marginal da avenida, e dar-lhe a grandeza de uma praça que o pudesse receber centralmente? Havia muita gente a favor desta solução. E apontavam-se locais adequados e respeitáveis, como o Campo dos Mártires da Pátria, a Praça José Fontana, frente ao Liceu Camões, o largo fronteiro ao Museu de Artilharia e até, numa visão revolucionária, a mesmíssima Avenida da Liberdade, mas no meio, como uma espécie de rotunda que fizesse de meio termo entre as do Marquês de Pombal e dos Restauradores.

O presidente da Câmara de Lisboa era, à época, Álvaro da Salvação Barreto. Estava ali metido entre dois fogos, mas procurando manter a discussão em lume brando. Havia uma ala sentimental no seio dos vereadores. Ali, desde o lançamento da primeira pedra, a 9 de abril de 1923, pelo então Presidente da República, António José de Almeida, haviam chorado muitas mães de rapazes cujas vidas tinham sido ceifadas na mais plena e pletórica das juventudes. Ali se tinham deposto coroas de flores homenageando a coragem desse moços infelizes. Ali tinham desfilado, com honra inflamada, muitas categorizadas figuras portuguesas e estrangeiras. Levar o resultado do trabalho dos arquitetos Guilherme e Carlos Rebelo de Andrade sobre o conjunto escultórico de Maximiano seria uma afronta sem remissão. Faltavam 15 dias para a reunião municipal que tomaria a decisão definitiva. Assim de repente, que me lembre, da última vez que lá passei, o monumento encontra-se no mesmo sítio. Sinal de que o sentimento levou a melhor.

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